Esse é o registro de um insight. Pode parecer óbvio e bocó. Pode parecer complexo e ininteligível.
Mas anda fazendo um sentido danado frente aos últimos acontecimentos da maternagem aqui em casa.
Há muito venho observando o quanto no geral a indústria é preparada para criar necessidades que não existem. Faz parte da proposta de qualquer anúncio publicitário, criar em você a vontade de ter algo, suprimindo a sua capacidade de decidir se aquele algo é necessário ou não.
Ontem mesmo eu vi uma propaganda de sapatos. Eu tenho uma relação terrível com sapatos. Estou sempre com os mesmos, uso até acabar, o que significa que estou sempre com sapatos feios. Mas funciona para mim. Vi aquela mulher linda, iniciando o outono usando um modelo de sapato a cada 4s. Em pouquíssimo tempo estava eu pensando que eu precisava de sapatos, que os meus estão velhos e feios, que no último outono doei minha única bota furada, só porque ela estava furada e que o inverno vai chegar e eu não tenho botas, então preciso de uma bota, qual bota? aquela da propaganda, mas não só uma, duas ou três, afinal uma para calça jeans, outra para saias, outra para... aaaaa
Eu estava de boca aberta, quase babando pensando nas botas.
Foi criada em mim a necessidade de ter aquele bem material através da propaganda. Parabéns para o anunciante, a campanha é eficaz. Ela me ligou às botas da coleção. Entre eu e as botas havia uma propaganda.
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Uma ironia. O mesmo povo que vai defender o parto humanizado livre de intervenções provavelmente vai apoiar a causa que está rolando inicialmente no Facebook mas que deve ganhar voz nos próximos meses, tamanha importância do debate:
Infância Livre de Consumismo. Em linhas gerais o movimento propõe um debate de até que ponto o estado não deveria intervir nas normas com relação à publicidade infantil. Em linhas mais gerais ainda, a maioria dos engajados será à favor da proibição total de toda e qualquer veiculação de anúncios direcionados ao público infantil. Um movimento que propõem que entre o seu filho e você haja uma intervenção: do estado. Você não é capaz de mediar a relação que seu filho vai estabelecer com os bens de consumo. Taí a ironia.
Em contra partida, existe um argumento que diz que não! Não se pode colocar o estado dentro de casa e interferir na relação entre pais e filhos. Tem que se conscientizar as famílias. Tem que se deixar pais e mães livres de interferência para construírem seus próprios caminhos na educação dos filhos. Não por acaso essas são as pessoas que anunciam as chupetas e todos os outros ítens que de repente - através de uma propaganda de sapatos ou uma propaganda de mamadeiras ou uma propaganda de brinquedos - se fazem essenciais nas vidas de mães e pais e filhos. Tem sempre algum ítem entre seu filho e você. Taí outra ironia.
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Uma vez na polêmica das sacolinhas, acompanhei um debate no FB. Muita, muita gente preocupada em como "as classes menos favorecidas" fariam para carregar suas compras do supermercado até em casa, uma vez que não teriam mais sacolinhas. E onde esse povo, que não tem dinheiro para comprar saquinhos de cana jogaria seu lixo domiciliar. O mesmo grupo de pessoas que morria de preocupação "com as classes menos favorecidas" e a questão da sacolinha parecia em um outro momento não ter nenhuma preocupação com a mesma classe, quando o assunto é publicidade infantil.
Uma faxineira que trabalha 12h por dia e deixa os filhos parte na escola parte em casa, com a televisão de companhia tem que ter, de acordo com os #sacolinhalovers (apelido carinhoso que eu arrumei para esse grupo) o mesmo poder de interferência na educação dos filhos que tem um membro de qualquer outra classe. Os #sacolinhalovers estão preocupados como a faxineira vai carregar as compras para casa, mas pouco se importam em como ela vai fazer para lidra com os desejos dos filhos, criados pela televisão que diariamente os acompanha. Ironia, ironia, ironia.
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Analisando uma lista de enxoval, é tanta coisa que uma mãe precisa! Pinça para tirar a mamadeira da água e também um esterilizador para microondas. De alguma forma - seja por culpa da publicidade ou por culpa de quem foi pai e mãe até agora e teve a chance de não ter ninguém interferindo no tipo de educação que dava aos filhos - maternar é precisar de infinitas coisas. É não poder dar conta sozinha. É se munir de pomadas, bicos, médicos, pediatras, equipes, recursos, banheiras, aparatos, equipamentos que teoricamente estão aí para facilitar mas na prática estão aí para definir: você não é capaz de fazer sozinha. Precisa ter tal e tal coisa para atingir o sucesso.
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Mas pôxa. Individualmente, entre as quatro paredes rabiscadas do meu lar: existe muita coisa que eu preciso sim!! Muita interferência, muitos objetos de consumo que estão entre eu e meu filho e que me ajudam em algumas situações. Muitas outras interferências que não são objetos, as avós, muitas vezes as escolas, outras vezes as babás. Interferências são necessárias porque muitas vezes AJUDA é necessária.
A minha conclusão preciosa é que: EU decido em quais momentos eu preciso de ajuda externa para maternar. E eu deciso quais são essas ajudas. Quais são esses coadjuvantes da minha relação com meus filhos. E fico bem atenta para não cair na dependência total de pessoas, objetos e instituições para me ajudar a cuidar dos meus filhos e nem tampouco acreditar que posso fazer tudo sozinha. Pensamento que pode torturar algumas mães mais perfeccionistas, como eu.
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Quando o Instituto Alana prevê que o governo intervenha legalmente sobre a publicidade infantil, não só ele está sugerindo que seja instalado um coadjuvante entre a criança e o consumo. Mas também que seja instalado um coadjuvante entre a criança e o pai. E honestamente, nesse caso: somos todos incapazes. Eu depois de pensar um tanto: acho que o movimento tem razão.
Não posso concluir de imediato que deva-se proibir o produto infantil de ser anunciado (dentro desse debate é comum comparar produtos infantis a cigarros, a publicidade de cigarros é proibida assim como deveria ser a publicidade de produtos infantis.) Eu ainda estou em um estágio da reflexão que concorda que quando se trata do poder que a publicidade tem não é nada absurdo que haja uma regulamentação que interfira na relação entre pais e filhos.
Mas ainda sou da coluna do meio, se é que isso existe, que acha que publicidade é fundamental, mas tem que ser dirigida ao público que efetivamente tem, ou deveria ter, capacidade de decidir quais produtos são realmente necessários dentro de casa. Os adultos. Criança é criança, não me parece nem um pouco justo gerar nelas o desejo de possuir coisas sem que elas tenham estrutura emocional, racional, cognitiva para fazer julgamentos reais entre desejo e necessidade.
Sem ingenuidade.
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Quando eu falo em anunciar para o pai, eu falo em colocar no pai a decisão de ter ou não ter aquela coisa. Comprar ou não comprar aquilo para o filho. Oferecer ou não a chupeta ou o brinquedo. Decidir se é preciso ou não gabaritar o enxoval. Os adultos da nossa sociedade são tão infantis quanto as crianças quando o assunto é consumo. Não sei entender porque.
Se não houver reflexão por parte dos pais, com a interferência correta do que se espera de um órgão governamental, estamos alimetando doentemente a horda de pessoas que acredita piamente que tanta coisa é necessária se ter para ser feliz, para conseguir, para vencer. A indústria não vai falir, nem tampouco os produtos vão parar de ser vendidos. Somente entrarão na sua casa na base da honestidade, e não usando o seu filho como porta de entrada.
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Está na hora de a gente olhar com uma lupa todas as coisas que estão colocadas entre a mãe e o filho. Entre você e seu filho. Temos que nos aliar conscientemente àquelas que são efetivamente necessárias nas relações individuais e permitir que outras se estabeleçam por um bem coletivo - o estado intervindo nas regulamentações publicitárias para o público infantil.
Entre eu e meus filhos prefiro que exista uma lei que proiba que sejam iludidos por propagandas mal intencionadas do que infinitos produtos que acabam chegando sem real necessidade. Como mãe, não me sinto à vontade em saber que há uma indústria maquinada para transformar meu filho em um consumidor antes que seja um gerador de renda. Isso não me parece certo.
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Uma viagem e tanto. Em suma, eu preciso de sapatos, mesmo, e não sou ingênua para levantar bandeiras anti-capitalistas. Vivo em uma sociedade de consumo, gosto muito de dinheiro, obrigada, minha família vive e respira propaganda, mas não consigo aceitar que usem a ingenuidade das crianças para atingirem seus objetivos.
No mais acredito que leis detalhadas, regulamentações rígidas (que já existem) e penalidades sérias para infratores (que não existem) podem ser aliados dos pais na construção de relações justas de consumo para os pequenos e suas famílias.