29/03/12
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SECOND CHILD FACTS

não sei decidir se ele é mais tranquilo por que eu sou uma mãe mais incrível como se isso fosse possível segura ou se eu sou mais segura porque ele é mais tranquilo.

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a gente perde completamente a necessidade de se cercar de fru-frus e fica somente com o essencial mesmo.

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no segundo filho não dá mais tempo de brincar de boneca, invariavelmente eles usam roupas que não combinam.

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a confiança (ou o filho altamente maleável) te faz desafiar tabus nunca dantes navegados. quarto montessori, cama compartilhada, fralda de pano, banho de balde. tudo parece ser mais possível no segundo filho.

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existe uma leve prepotência, que pode te derrubar do cavalo. às vezes tomás me olha com uma cara de malandro como quem diz: tá achando fácil? me aguarde! #medo

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se dependesse do mais velho, o caçula desmamava na base da banana, arroz, brinquedos, pedras, antes dos três meses. a natureza fez bebês sem dentes por uma sábia razão.

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a gente esteriliza menos (ou nada) as coisas. não sei se eles ficam menos ou mais doentes, mas algo me diz que os mais novos em linhas gerais são mais resistentes. comprovado pelas cabeçadas que ele toma, e dá risada.

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o mais novo usa roupinhas altamente macias e cheias de bolinha. quando ganha alguma coisa nova, a mãe troca, porque quem precisa de roupas novas é o mais velho. não me julguem, gerenciamento de guarda-roupa é comigo mesmo.

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a gente aprende a parar de noiar com a idade indicativa dos brinquedos. não tem como separar, ele curte os chocalinhos de borracha, mas não ha felicidade maior no momento do que ver o irmão pirando nos brinquedos "proibidos".

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é necessário ceder. quando o mais velho já dormiu e o mais novo está dando um baile ele leva uma chupeta na boca (só eu sei como eu sofro quando eu faço isso, mas só eu sei como eu sofro quando joaquim desanda e não dorme nunca mais). quando o mais novo já dormiu e o mais velho está dando um baile talvez ele leve um bolo cheio de açucar na boca (com isso eu não sofro tanto, mas ando investindo na moderação, liberei açucar, de vez em nunca em forma de bolo caseiro)

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o segundo filho é confundido com o primeiro por gente maluca que acha que o tempo não passou. "não, esse é meu segundo, o tomás, o joaquim já está com 21 anos e foi para a faculdade.""

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o segundo filho é confundido com o primeiro pela mãe. usando as mesmas roupas, parecendo parecido mesmo. eu vivo num túnel do tempo chamando tomás de joaquim, joaquim de pedro e pedro de largatixa e jogando na parede!

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o segundo filho é mais sujinho. e o primeiro filho fica mais sujinho depois que o segundo chega. é uma nova abordagem de limpeza na vida da gente.

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a gente ama os filhos em intensidade igual. mas o amor é totalmente diferente. 






27/03/12
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A ARTE DE ME DEIXAR MALUCA

Ela: Nossa, mas esse Bono Vox deve ser um chato!

Ele: Ah, acho que não. Ele é artista, é difícil compreender os artistas.

Ela: É, vai ver é isso.

Ele: Tipo eu. Eu sempre tenho um pensamento à frente do meu tempo e me sinto incompreendido. Todo mundo deve achar que eu sou chato, mas é que ninguém me entende.

Ela: Sim, você é muito de vanguarda.

Ele: Você também não me entende. Porque as coisas que eu faço e falo são arte, entendeu?

Ela: Sim, claro. A arte de guardar o pote de requeijão vazio na geladeira, a arte de fingir que não viu o jornal molhado na garagem, a arte de colocar louça molhada em cima da louça seca...





21/03/12
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NOITES DO TERROR

1º ATO

Nunca dormiu uma noite inteira, dentro do que se pode chamar de noite. Pregava os olhos com esforço ao redor das 21h, despregava aos berros ao redor das 00h e daí sucessivamente de 2h em 2h até a hora dos vampiros se recolherem às catacumbas. Ela achava que eram berros, até aquela fatídica noite, quando se encontrou com a última fronteira do desconhecido: ataque de terror noturno.
Dentro da jaula mundialmente conhecida pelo nome de berço, gritava coisas sem sentido: Qué vê o aspiradô!! Cadê o Tumás? Qué falá com a mamãe-ti-ama!!! Qué falá com o papai-ti-ama. Pânico na madrugada, nada acalmava o pequeno zumbi.

2º ATO

Uma luz pálida iluminava o ambiente já preparado para a rotina noturna, enquanto a donzela de pijamas de sena amamentava o mais novo elemento da família, o pequeno drácula saracoteava ao redor do leito materno, para ver se lhe sobrava algum resquício de leite materno. Achou o botão do abajour de cristal baccará, herança secular de família, colocado acima da cabeceira de veludo, um tanto à esquerda do ombro da mãe. Do jeito que pegou, puxou o fio, vindo abajour, bacará e lâmpada diretamente de encontro com a face norte da testa do pequeno. Mãe e rebentos cobertos de cacos, Pânico na madrugada. Um grito seco, e o pai resgata o draculinha descalço para levá-lo ao banheiro. Silêncio. Uma voz rompe o ar enquanto a mãe verifica por possíveis danos na pele brilhante do menor, esse estava salvo: Anne, vem aqui. Ela sabia que podia ter sido pior, mas o maior não escapou ileso. Um galo, vários cortes, uma cicatriz, trabalho digno de Voldemort. Dias depois nem sinal das manchas de sangue em todos os pijamas da família e no tapete do banheiro.

3º ATO

Foi comprar um penico e sucumbiu à indústria do plástico mortal Chinês. Digno e colorido, levou de quebra um botão que tocava música. O penico passeou pela casa nas semanas de desfralde e por fim atingiu o repouso final: ao lado do vaso sanitário, bem perto da porta de entrada para o mundo desconhecido da terra dos cocôs. O monstrinho se apropriou da porcaria chinesa como ninguém, inclusive com uma habilidade maquiavélica para esvaziá-lo nos lugares corretos ou não. Um raro momento de silêncio, família completa em sono profundo, ouve-se por entre as toalhas de banho o som avassalador: pã-nã-nã-nã (como num filme mudo você deve agora usar sua imaginação para entender o som que vinha através do corredor escuro). Pânico na madrugada. Até que algum adulto fizesse sentido do que se tratava aquela comemoração musical de alegria por mais um xixi feito no plástico chinês. Teria o monstrinho levantado sozinho e ido até o banheiro? Teria sido uma irresponsabilidade tirá-lo da jaula?  E mais importante: o portãozinho da escadaria de mármore gélido está fechado???????

FIM

***

E fica a pergunta: Porque Deus, o penico dispara na madrugada? Já não tem emoção suficiente na minha vida Senhor?

16/03/12
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CHOCOLATE

Meu pequeno maior tem uma mania engraçada, faz tempo.
Aprendeu com o pai, que aprendeu com os Goonies
Por causa do simpático feioso Slot e sua paixão por chocolate. 
O pai brinca com o pequeno, faz tempo.
Aperta-lhe as bochechas e diz com voz de bocó: chocolaaaaaate.
O pequeno sempre achou a maior graça.
Agora desenvolveu a habilidade de "fazer chocolate" nos outros. 
E vai entender.
Há algum tempo vem sendo bastante imperativo nas vontades.
Outro dia deu chilique no mercado "mamããããe... qué fazê chocolateeeee".
Desavizados da fila esperavam que eu sacasse uma daquelas delícias rechedas que ficam na gôndola ao lado dos caixas para acabar com o ataque histérico.
Mas eis que me vejo interrompendo a transferência insana de compras do carrinho à esteira, para aproximar as minhas próprias bochechas do pequeno mimado.
Com cara de paciência. Com cara de ué dos espectadores.
Com as mãozinhas meladas e unhas sempre sujas ele aperta com força, arranhando as bochechas.
E espera que eu diga "chocolaaaaate".
E a mãe abobada faz, né?
Sorri tranquilinho, satisfeito como se tivesse comido o doce.
Por enquanto não come. Salvo uma ou duas escapadelas. 
Ou três ou quatro ou cinco chocolates proibidos.
Como também é proibido o pacote que vai escondido para mim no fundo da sacola.
O chocolate permitido virá em forma de brigadeiro, um inteiro, no aniversário de dois anos.

***

Feliz aniversário Vovó! Não vamos te levar um bolo de chocolate, porque você não gosta.

15/03/12
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O FIM DE UMA ERA

(Para mães de RN's urrantes)


O bebê chorava inconsolavelmente por horas à fio. Horas? Não eram exatamente horas. A mãe já não conseguia fazer sentido do tempo. Quando chorava eram horas, quando dormia eram segundos. Ele estava fora da barriga à apenas alguns dias. Dias? Não eram somente dias. Eram duas semanas já. Duas semanas praticamente acordada tempo todo. Ela conseguia dormir de vez em quando, mas nunca sentia que era o suficiente. Poderia dormir por uma semana seguida, e mesmo assim não se sentiria descansada.

Os últimos eventos foram intensos! Um segundo filho chegando, um segundo nascimento totalmente fora do esperado. O primeiro filho carente de atenção. Carente? Não necessariamente. Ela sabia que aquele momento era pior para ela do que o contrário. O menino se comportava como um querido irmão mais velho, e colaborada na medida de sua capacidade.

Ela aprendeu que os bebês nascem, mamam, dormem. Os cuidados básiscos ela dominava, afinal já tinha meses e meses de prática. Fraldas, roupinhas, lavadas, como arrotar. Mas de novo ela entrava em contato com um sentimento que havia experimentado somente na chegada do primeiro filho, coisa que ela achava que teria resolvido quando o segundinho batesse à porta, mas que como todo bom ditado, se provava novamente, não importa se é o primeiro, segundo, quinto. A gente nunca sabe, a gente nunca está preparada. E para aprender coisas novas é preciso esquecer algumas coisas.

Mas porque para algumas é mais fácil? O que há com meu filho que não para de chorar? Será possível que esse peito vai rachar de novo? Tinha me esquecido do que é ficar tanto tempo sem dormir e aaahhh como eu quero dar uma chupeta agora, só para ver se funciona, só para acalmar.

Na confusão do nutrir, embalar, acalentar, trocar, lavar, conversar, manter, doar, querer essa mãe se perde nos atalhos que foram cavados por outras mães, de gerações e gerações, que saem ali, da linda estrada que é a maternidade. Muitos desses atalhos, floridinhos e perfumados. Outros secos e simples. Alguns extremamente eficientes. Outros que ligam a bela estrada à lugar nenhum ou no mínimo a levam para alguns metros atrás.

É mais fácil pegar os atalhos já cavados na mata do que procurar pelos seus próprios. Mas é mais provavel que eles não sejam úteis para você.

Ela coloca o bebê no berço, porque assim é o esperado. Ela dá banho às 17h porque a vó fazia assim. Ela usa o mesmo shampoo, porque era esse que usavam na maternidade. Na hora de dormir vai para o quarto, porque é ali que se dorme. Na hora de vestir, um body combinando com o sapatinho, sem se importar se ali dentro há uma etiqueta que pinica.

Perdida nos atalhos já testados - e aprovados - por outros a mãe se dá pouquíssima chance de perceber que anda em círculos. Não porque carrega o fardo de um filho difícil. Mas porque acredita que ele é difícil.

Eu aprendi assim:

Bebês choram. Mas você pode se comunicar com seu bebê falando. Insista que ele olhe nos seus olhos, diga para ele o que pensa e o que está sentindo. Peça uma resposta. Exija uma resposta, ele vai se comunicar. Se o seu bebê é atendido somente no momento que chora, vai usar o choro como forma de comunicação sempre. Se o seu bebê se sente conectado com você o tempo todo, e percebe que pode conversar de outras formas, vai aprender a usá-las para se expressar.

É integral. Mãe de Rn não precisa de sossego. A gente tem que encarar assim para sobreviver. Não preciso dormir, não quero comer agora. Água basta. Vaidade amanhã, sem reclamações sobre a pele horrorosa e o cabelo despontado. Abnegação? Oras, porque não? Quanto tempo vai ser assim? É pouco! Sempre lembre, isso passa, e passa rápido. Porque não entregar-se totalmente?

Isso passa. Mas também não é preciso ficar sentada esperando passar. Se não está bom de um jeito, tente de outro. Se chora muito na sala, vamos tentar o quarto, se estiver calor, vamos ver a lua. Se chora com essa roupa, fica sem roupa, sem fralda, pelado. Quem tem medo de cocô de RN? Se não fosse tão escatológico daria para passar no pão. Se chora no berço, fique na cama, se chora na cama, tente um balanço. A gente tende a dizer que já tentou de tudo, mas tem que avaliar o tudo. Tudo mesmo? Já dormiu de dia? Já deu banho de água fria? Já parou para pensar que tentar de tudo significa tentar algo que você não tentou? Nem ninguém tentou? É você cavando seus próprios atalhos.

É só às vezes. Qualquer dica que você conseguir aplicar com seu bebezinho vai funcionar só às vezes. Às vezes, às vezes é quase sempre, outras é quase nunca. O que importa é que sempre funciona, lembrando que quando se trata de filhos, nunca é sempre.

***

Simplesmente chega o dia que o RN não dá mais tanto trabalho assim. Dá mais. Meu Tomás, que hoje completa 3 meses e já não faz mais parte da classe dos fetos fora do útero. Ficou e ainda fica colado com mamãe, era mais leve há três meses. Vive de coluna torta, mal acostumado, reinando, pequeno ditador, mas não vive sozinho. Era mais incompreendido, hoje chora quando carece, mas chora feio. Não foi e não vai para o berço, não usou roupas pinicantes. Fica pelado o quanto pode, toma banho frio e quente, de balde, de chuveiro, de banheira e de piscina e tem dias que nem toma. Quer mamar, mama. Só um pouquinho, tá bom. Usa chupeta escondido. É gordo pesado e cheio de perebas. Tá ficando careca. 

13/03/12
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#mamatracaquersaber - A trilha sonora da minha vida!

#mamatracaquersaber eu eu vou responder!
Eu amei essa pergunta! (claro, fui eu que fiz... hohohoho... mentira, acho que a ideia foi da linda Carol Passuello que hoje está impagável no vídeo!)

Mas sabem, uma das coisas que me move, que me enche de satisfação nessa vida é música. E eu tenho um hábito de ficar elegendo músicas para diversas situações que eu passo na minha vida. Elejo também músicas para os personagens da minha vida, como se, na hora que ela estiver sendo transmitida ao vivo para os telespectadores (eu tenho uma paranóia crescente que faço parte de um grande Show de Truman), cada um tenha sua música tema.

Às vezes sinto que algumas canções foram feitas pa-ra-mim! É impressionante!

Nos últimos tempos, isso aconteceu duas vezes, e eu fiquei de cara! Foram duas canções que imediatamente entraram para a trilha sonora da minha vida, mas porque simplesmente falaram comigo em um nível mais do que pessoal. Eu adoro quando isso acontece.

Quando Joaquim nasceu, minha irmã fez uma cobertura cinematográfica da nossa estada na maternidade. É uma das recordações mais gostosas que eu tenho daquele dia, totalmente bittersweet. Ela me perguntou, que música eu queria para ilustrar o filme. Eu escolhi uma e o Pedro escolheu outra. A dele: Welcome to the Machine (PInk Floyd). Mal a gente sabia que esse tema faria tanto sentido depois, em especial dada à forma como o Joaquim chegou: um impacto digno de The Wall mesmo!!

Minha escolha foi essa. Eu não conseguia ouvir nem a abertura dessa música por meses à fio depois do nascimento, de tanta emoção, misturada com medo, misturada com um amor enlouquecedor que eu sentia (puérpera loka) pelo meu primeiro rebento. Amor que só aumentou, "our hearts irrevocably combine / star crossed souls slow dancing / retreating and advancing / across the sky until the end of time"

#100musicas
#002

Anos depois uma outra cançou entrou na seleção de su-su-su-cessos, foi apresentada para mim pela querida Biba. No dia seguinte que Tomás nasceu, eu estava ainda no hospital, e ouvi pelo celular. Quase tive um treco, vocês não imaginam o quanto ela faz sentido, especialmente na parte que diz que a avó passou mal... hahahaha

#100musicas
#003



Acho que um mês depois, caí no Youtube, meu mais novo melhor amigo, em um show da Maria Bethânia. Eu simplesmente quase morri quando ouvi essa aqui. Vocês não calculam o quanto ela faz sentido para mim, para a minha vida e em especial, fala com uma parte de mim que é a parte mãe.
Da primeira vez que a ouvi, caí em lágrimas compulsivas! Eu estava lidando com todo o furor da chegada do segundo filho, do espaço que foi tão fácil abrir para ele, do cuidado para não fazer o primeiro sentir-se só... "debaixo dágua tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido... mas tinha que respirar!"

Aos meus filhos, que respiram lindos, todo dia, agora.

#100musicas
#004





Debaixo dágua tudo era mais bonito mais azul mais colorido só faltava respirar
Mas tinha que respirar

Debaixo dágua se formando como um feto sereno confortável amado completo sem chão sem teto sem contato com o ar
Mas tinha que respirar

Todo dia Todo dia, todo dia
Todo dia Todo dia, todo dia
Todo dia

Debaixo dágua por encanto sem sorriso e sem pranto sem lamento e sem saber o quanto esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar

Debaixo dágua ficaria para sempre ficaria contente longe de toda gente para sempre no fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia Todo dia, todo dia
Todo dia Todo dia, todo dia
Todo dia

Debaixo dágua protegido salvo fora de perigo aliviado sem perdão e sem pecado sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar

Debaixo dágua tudo era mais bonito mais azul mais colorido só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia Todo dia, todo dia
Todo dia Todo dia, todo dia
Todo dia

Agora que agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu
Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou aqui
Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra
Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu
Agora eu nasco lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar

08/03/12
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TESTE DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA - DIA INTERNACIONAL DA MULHER - BLOGAGEM COLETIVA

Muito se fala hoje em dia sobre violência contra a mulher. Recentemente no reality show mais velho do BBBrasil aconteceu um causo que me deixou chocada. Não pelo o que aconteceu, mas por comentários de pessoas queridas. Gente que dizia coisa do tipo: mas o que ela queria? Vive com aquele shortinho, encheu a cara na balada, pediu para ser molestada.

Medo.

Estar embriagada, usar shorts curto, andar pelada, nada disso é motivo ou razão para que qualquer outra pessoa realize qualquer tipo de assédio de cunho físico, emocional ou sexual. Ninguém tem direito sobre o corpo de ninguém.

Em essência o ocorrido se iguala a outros de violência, como por exemplo os inexplicáveis casos de moradores de rua incendiados. É sempre a mesma dinâmica: gente achando que tem alguma vantagem sobre outro tipo de gente.

Todo e qualquer ato de violência implica em um indivíduo reagindo sobre o corpo e mente de outro indivíduo que ele julga inferior. O agressor se acha no direito de invadir o limite do outro para ferí-lo. E me assusta que casos como esses não somente sejam aceitos como também, muitas vezes justificados: ela provocou.

Ninguém tem o direito sobre o corpo de ninguém.

***

Refletir sobre coisas como essas foi um presente da maternidade. Chegou pela porta da educação: eu sou absolutamente contra violência física contra criança, e tenho pavor de palmadinha. Novamente, é a mesma discussão: adultos achando que tem poder sobre o corpo de crianças. Houve um tempo em que eu fiquei refletindo sobre isso, poxa vida, o que pode uma palmada prejudicar uma criança? Não seria exagero? Então as mães não tem direito sobre os filhos, e por aí chegou minha conclusão. Não. Ninguém tem direito sobre o corpo, mente e emoção de ninguém. Há de se respeitar os limites físicos, psiquicos, emocionais de cada um. Educação se faz de indivíduos íntegros.

Algumas vezes, a minha convicção racional, civilizada de que não se pode bater em criança, me segurou de dar palmadas no Joaquim, em meio a uma crise de raiva. E é nisso que eu acredito quando o assunto é violência, temos que ter a convicção de que coisas são certas e coisas são erradas. Temos que ter a convicção do que é aceitável e do que não é aceitável. Não pode ser normal uma sociedade estar dividida entre o "ela é culpada" e o "ela é vítima" em um caso de estupro. Assim como não pode ser normal haver questionamentos sobre o que é e o que não é violência física contra criança. Bater é violência. Palmada é violência, não pode ser aceito.

Foi então que a partir do viés da educação eu me deparei com todos os dilemas que envolvem partos e nascimentos. Fui crescendo dentro da minha ignorância e adquirindo informação relevante, formando opinião, ouvindo prós e contras, até que um dia me deparei com a verdade: eu havia sido vítima de violência no nascimento do meu primeiro filho. E violência obstétrica é uma modalidade de violência que eu não conhecia. Que consegue abraçar o que há de mais sagrado. A mulher, a criança e o parto.



Esse texto não é um questionamento do que é bom e do que é ruim para cada um, muito menos um convite à competições de ego. Esse é um texto para expor uma descoberta minha e convidar à uma reflexão, não posso contemplar as histórias individuais de cada uma, portanto estou me baseando em uma generalização. Só eu acho que o modelo obstétrico vigente no Brasil é aceito socialmente, mascarado de normal, mas compreende uma série de abusos onde um indivíduo (ou uma equipe) julga que tem alguma vantagem sobre outro indivíduo (ou dupla: mãe e bebê)?

Essa não é a definição de violência? A antítese de respeito?

Oras, eu posso estar parecendo xiita. Juro, longe de mim. Eu não tenho a paixão que precisa para ser xiita, eu sou uma mente racional. Mas vejam só: depois da minha jornada em busca de informação, o modelo obstétrico vigente para mim virou a tradução de violência. Esquecendo que do nascimento sai aquela coisa linda que a gente ama, e que com sorte em 48h estará em casa, livre das enfermeiras, sob nossos olhos atentos. Separando o sentimento enlouquecedor que sentimos pelos nossos filhos e olhando a coisa toda somente sob o prisma da razão:


Uma mulher ser levada à uma cirurgia que lhe corta a barriga em 8 camadas por um motivo que NÃO É VERDADE não é uma violência?

Uma mulher ter seu períneo cortado, sendo que isso pode ser evitado e/ou ser DESNECESSÁRIO, não é uma violência?

Uma mulher ter uma enfermeira trepada em cima de sua barriga, fazendo força mecânica para que seu bebê saia de lá de dentro, não é uma violência?

Uma mulher ter seus braços amarrados na hora do momento mais precioso da vida: da chegada de seu filho, sem que possa segurá-lo, abraçá-lo, não é uma violência?

Um bebê de minutos ser levado a um berço longe da mãe por horas determinadas à conveniência protocolar de um hospital não é uma violência?

***

Hoje em dia, assim como a BBBanalidade descrita acima, anda me chocando muito mais a reação aos casos de violência, do que as agressões propriamente ditas. O modelo obstétrico vigente está errado. Não é culpa das mães. Não pedimos para sermos picotadas, anestesiadas, amarradas, separadas dos nossos filhos. As vítimas não tem culpa, essa é uma mania doente da nossa sociedade: culpar as vítimas.

Simplesmente é aceito - e defendido!! - que a mulher seja subjugada no momento do parto. Colocando o direito que ela tem sob o seu corpo nas mãos de terceiros. Colocando o novo pequeno habitante desse mundão para chegar sob a mácula da violência. Fora do seu tempo, negado do seu direito de mamar, com cordão clampeado antes da hora, empurrado à força para fora da barriga, infestado de hormônios e medicamentos sintéticos, que o deixam sonolento, que o fazem perder a vontade de mamar, que prejudicam seus instintos.

Esse não é o direito. Esse é o avesso. Hoje eu estou refletindo sobre isso aqui publicamente, baseada nos meus aprendizados e na esmagadora maioria de partos conduzidos dentro desse modelo, o que me permite generalizar.

***

Hoje é dia internacional da mulher e nada melhor do que blogar sobre uma das facetas mais importantes: a mãe, em prol de uma causa bacana. Essa blogagem foi convocada pelo Parto no Brasil, Mamíferas e Cientista que virou mãe e propõe levantar dados sobre violência no parto. 


"Precisamos desnaturalizar os maus-tratos na maternidade, buscar formas de reduzir sua aceitação, e também acabar com a impunidade contra este tipo de violência. Precisamos valorizar nossa integridade física e bem-estar emocional no momento de dar à luz. Todas as mulheres têm direito a ter um parto com escolhas esclarecidas, respeito à sua individualidade e dignidade."


07/03/12
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TESTE CASEIRO DE ALCOOL NO LEITE

Uma cervejinha trincando no churrasco do sábado à tarde te faz lembrar do tempo em que você curava a ressaca com um belo mergulho na água gelada, e uma soneca de bunda pra cima, na pedra quente da piscina, que lhe rendia algumas queimaduras de segundo grau, nas partes onde o protetor displiscente não alcançou. Afinal era mais importante gerenciar a rotação da cerveja - geladeira- freezer - balde de gelo, do que ficar se preocupando com a parte posterior da coxa, certo?

Lembranças de um tempo mágico, regado a sol, sossego, sigarro e serveja.

Mas o mundo girou e você se tornou mãe. Era divertido ser cabeça oca? Era sim. 

Hoje em dia você se sente o tempo todo de ressaca, afinal você não dorme e não há banho gelado que cure as olheiras de panda. Soneca de bunda prá cima, só se você estiver desmaiada no tapete da sala, desde a gravidez é que você não se recorda o que é deitar de bruços. Se antes era a barriga que impedia, agora são as leiterias. Hoje em dia na beira da piscina é protetor em todos os cantos do corpo. Do seu filho, não do seu. É bóia de braço, quatro tipos de toalhas, fraldas, guarda sol, chapéuzinho, baldinho, pázinha, bóia do homem aranha, frutinha, quer carninha, sai da água, não corre aí, quer fazer cocô, pede pro seu pai, sai dessa beirada, larga o cachorro, cuidado com seu irmão e a gerencia se estende sem fim até a hora que os moleques forem dormir as suas 4h merecidas de sono seguidos.

Minha filha. Aceite. A sua vida mudou.
Não dá mais para você encher a cara e botar a bunda para cima. Esse tempo já foi.

***

Por isso eu quase tive um parto natural domiciliar desassistido quando me deparei com mais um incrível produto indispensável para a vida materna cujo slogan é : Peace of mind, so you can breastfeed with confidence. - Cê tá me zuando, em livre tradução.

Um raio de um teste caseiro para detectar os níveis de alcool no leite materno. Repito: detectar níveis de alcool no leite materno. Segundo o fabricante "As mães querem respostas! Depois de nove longos meses de gravidez as mães querem beber ocasionalmente ou em datas comemorativas. Mas elas se preocupam se o alcool vai passar para o bebê através do leite." Por isso o teste indica depois de 2 minutos se há alcool presente no leite. Entenderam? Para que a mãe se sinta segura para amamentar com confiança, depois de encher a cara ocasionalmente ou em datas comemorativas.



Pois veja bem, não estou criticando a lactante ou grávida que ingere bebida alcoolica. Eu mesma tomei uns golinhos de vinho na gravidez do Tomás (e atribuo a isso o fato de esse ser um menino sossegado, viu?). Estou criticando, criticando não, debochando, de alguém perder tempo para inventar e lançar um produto desse.

Ora pois! Se a pessoa está insegura com o nível de alcool que está presente em seu leite tem alguma coisa muito errada não? E me fala uma coisa, e se o teste der positivo: alcool presente, o que a mulher faz?
Não amamenta? Deixa o bebê passar fome? Oferece um leite ninho, afinal o seu Ninho não bebe?

Ora, francamente! Esse tipo de produto é uma ofensa, na minha opinião. Eu entendo que as mulheres são mais do que capazes de amamentar seus filhos sem precisar testar os níveis de alcool no leite. Eu entendo que a mulher pode querer tomar seus gorós enquanto está grávida ou amamenta. Tem gente que consegue resistir, tem gente que dá só uma bebericada, e continua confiante, tem gente que é desmiolada e enche a cara mesmo. E nenhuma delas precisa de um teste de alcool no leite.

Criar produtos que substituem a habilidade da mulher de maternar parece cada vez mais necessário. Para mim isso é um sinal dos tempos, porque se está vendendo, tem gente que compra.

***

06/03/12
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PARTO E NASCIMENTO SÃO COISAS DIFERENTES

Os posts que relatam os nascimentos dos meus filhos fizeram parte de uma jornada paralela. Registrar as experiências sobre os nascimentos foi fundamental para eu entender muita coisa, acerca dos meus medos, dos meus impedimentos e das minhas frustrações.

Por outro lado, não consigo ver nenhum dos dois relatos, ainda que nus e crus, dentro de cada uma das histórias, cheios de coisas boas e coisas ruins, sem as lentes do amor. O Cazuza disse que os nossos destinos foram traçados na maternidade. Os amores da minha vida, independente de como, nasceram de mim. Impossível não amar.

Digo isso porque uma coisa é o nascimento, outra coisa é o parto. Eu disse em um dos relatos que compreendo perfeitamente a premissa de que cesárea não é parto. Uma vez tendo vivido um trabalho de parto, não há mesmo como colocar essas duas experiências no mesmo balaio, e considerá-las iguais.

Veja bem. Nessas linhas escritas, jamais eu disse que um nascimento é menos do que o outro. Jamais eu quiz diminuir a experiência de ninguém. Quando eu leio um relato de parto domiciliar, de uma mãe empoderada, que diferente de mim levou o parto até o fim dentro de sua casa e não pediu pinico, o que eu sinto vontade é de comemorar. É de admirá-la.

Quando essa mãe narra por exemplo a experiência de ter sentido o círculo de fogo, e a descreve como única e maravilhosa, meu coração enche de admiração e curiosidade. E eu não sou aquela que vai comentar no seu relato tentando fazer com que a minha experiência seja aceita. Tentando convencê-la de que as minhas escolhas é que são as mais legais.

Falta um pouco de humildade para admirar e talvez um pouco de coragem para admitir. Talvez a minha experiência não tenha sido a mais intensa, e ok. E se eu admiro o que o outro viveu, eu posso querer buscar isso para mim. Se isso não me é mais possível, admirar é uma forma de compartilhar bons sentimentos.

Nossa, esse texto está atrasadíssimo. Houve um único comentário nos relatos de parto do Tomás que me incomodou profundamente. A pessoa dizia que era uma falta de respeito eu dizer que a cesariana não é um parto, e pedia com essas palavras, encarecidamente que eu parasse de diminuir a experiência dos outros...

Oras. Do meu ponto de vista, narrar a minha experiência não é diminuir a dos outros. Ter uma opinião baseada nas minhas vivências, nem tampouco. Escrevo assim porque é importante para mim, em primeiro lugar. Em seguida, porque se eu pudesse com a minha história motivar, inspirar, trazer informação ou até mesmo impedir alguém de vivenciar uma cesárea, procedimento cirúrgico que na minha vivência roubou a magia do nascimento do meu primeiro filho, eu faria com minhas próprias mãos. Com os textos, eu faço com minhas próprias letras.

Eu falei sobre isso na semana passada no Site Mamíferas.
Existe muito blá blá blá em torno do que é radical, do que é necessário, do que é "certo" ou "errado"quando o assunto é a via de nascimento dos filhos. Eu definitivamente pouco me importo.

O que me importa é contar o que vivi. As minhas histórias podem passar pelos outros como anedotas, como inspiração, como provocação. Eu sou responsável pelo que escrevo, e não pelo que os outros lêem. Se alguém se sentiu ofendido, desculpe, não foi minha intenção.

Se alguém quer ler que cesárea e parto normal são a mesma coisa, não vai ser nesse blog. Ainda que eu tenha muito claro, claro como cristal. A experiência do nascimento não muda o amor que sentimos pelos filhos. Poderiam ter me arrancado os dois pelo nariz, eu os amaria igual.