Quando nasce um filho, nasce também um pânico mortal de perder o filho. Seja perder no super mercado, perder para o mundo, perder para a morte. Ou perder para as infinitas lágrimas e engasgos de um rebento inconformado com as leis de trânsito. Nasce também uma mãe? Sim, isso é lindo. O que nasce de verdade é uma neurose.
Detesto ouvir chorar, não consigo nem fazer senso de uma conversa enquanto ouço o choro e imagino aquele beicinho indefeso com olhinhos apertados. Mas quando miraculosamente para, quando o carro se move, ou sem motivo aparente, eu sempre penso... será que está bem? Porque parou? Engasgou? Está respirando? Porque não chora. Prefiro quando chora. E começa tudo de novo.
E olha que eu não sou daquelas neuróticas clássicas, que fervem a água do banho e usam sabão anti bactericida o tempo todo na mão das crianças, que agasalham o pobre coitado a temperaturas Vesuvianas e que não deixam pegar chuva. Afinal se frio fizesse mal, a gente não conheceria nenhum sueco, não é mesmo?
Pasmem, eu sequer higienizo, desinfeto, esterilizo, ou qualquer um dos procedimentos esperados para os seios de uma mãe que amamenta um poço de bactéria e um RN teoricamente livre delas. Sou até bem relax, mas isso não me torna menos neurótica. Nem você, aposto.
Nasce um filho, nasce uma neurose, e todas as outras que já existiam potencializam.
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Eu finalmente comecei achar alguma poesia no encontro traumático entre uma cliente e uma porção de manicures. Ontem pela primeira vez desde o nascimento do Tomás eu saí de casa sozinha, à pé, na chuva, sem barriga (pausa para um riso histérico) para ir fazer uma coisa que eu acho lindo no resultado mas abomino no processo: as unhas.
Porque me incomodam os pequenos detalhes. Porque elas nunca sabem onde está a acetona. Porque elas tem carrinhos individuais com chaves e vivem reclamando que a outra pegou não sei o que. Porque a oferta de cores de esmalte é muito grande e nenhuma delas tem paciência de me esperar olhar e imaginar todas, e ficam incessantemente querendo me empurrar alguma que elas gostem: Azul pavão? Azul pavão? Azul pavão?
A experiência para mim é sempre um stress.
Então que ontem, mesmo estando em um novo salão onde ninguém me viu grávida a primeira coisa que me perguntaram foi: você tem filhos? Tem um luminoso na minha testa ou é a pança?
Pois enquanto contava dos meninos uma delas se animou com a história da amamentação:
- ainda amamentando os dois?
- sim.
- mas o mais velho mamou na gravidez?
- mamou!
- o meu também!
E não é que a história da mulher era boa gente? Deu mamá para a mais velha até quatro anos, quando o menor nasceu a mais velha tinha três. Estava achando super legal, pois eu bem sei o quanto me parece um desafio amamentar uma criança anos à fora. Mas como o universo sempre me dá uma chance de ouvir "sinceridades" hilárias, e historias de fazer chorar:
- eu tentei de tudo para ela largar quando engravidei.
- mesmo?
- é...passei pimenta, álcool, esmalte...mas ela não largava por nada.
- devia gostar da coisa então, né?
E na minha imaginação segue a cena da manicure sem blusa com uma mão espalmada afastando a testa da filha do furor de alcançar o peito, e a outra pintando o bico da teta com azul pavão, vermelho ivete, rosa chiclete ou qualquer outro esmalte do dia... Se isso não é uma neurose, eu não sei o que é.
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Quando a gente vira mãe é preciso iniciar um processo muito forte de desconstrução e reorganização dos paradigmas. Imagino que até aquela que teve 18 filhos, quando chegar no 19 vai ter que passar por algo parecido.
Como sou uma mãe novata, meus processos ainda são intensos, profundos e necessários, e todo esse tsunami vem concretizado por: um siricotico organizacional da minha casa. Armários, guarda roupa, área de serviço, carteira, bolsa, planilhas, gavetas, conta bancaria, rotina diária, cardápio, jogos de cama e mobiliário. De repente nada esta bom o suficiente, tudo precisa ser melhorado, tudo podia estar melhor.
Então eu destruo para construir, e saio tentando colocar ordem no irreparável. Conheci um site, através do Mamatraca, o meu terceiro filho, que veio antes do segundo. O vida organizada tem dicas preciosas para as piradas da arrumação e adjacências. E de lá caí num sistema americano de gestão doméstica chamado Fly Lady. Finally Loving yourself, diz a criadora do método. Essa mulher é neurótica.
Lição número 1, mantenha a pia brilhando. Lição número 2, use sapatos de amarrar. Lição número 3, anote as coisas negativas que as vozes dentro da sua cabeça (!!!!) te dizem e para cada uma delas escreva uma palavra positiva. E eu me pego tentando achar o antônimo de #strangulationfeelings, quando encontro nas gavetas da cozinha, dentro de um surto de arrumação três pacotes de bolacha de água e sal abertos.
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Mas a vida é gentil com as mães. Sempre temos possibilidade de escolha. Você pode optar pela maternidade integral, mas vai deixar de lado a independência financeira. Se optar pela realização profissional integral, você fica na mão de uma babá. E se não for babá, vai ter que colocar na escola. Se quiser mesclar as coisas, pode virar blogueira e contar com a ajuda da família. E se não quiser família envolvida, talvez precise de uma empregada. Ou se preferir tocar sozinha, não vai poder ir na manicure para sonhar com o dia em que não vai perder quinze minutos escolhendo uma cor para passar na unha,emulando finalmente se decidir, pensar que poderia ter sido outra. Se quiser seu corpo de antes, não pode ser mãe. Se encontrar realização plena em outro barato feminino, nem precisa... Enfim, um milhão de possibilidades de escolha. Ninguém está amarrado à vida que leva.
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Meu pai é parcialmente surdo e minha mãe aos 40 dias foi à sua primeira sessão de cinema. Junte isso a infinitos outros fatores que eu nem posso e nem quero narrar sendo um deles a incapacidade que eu tenho de escolher entre coisas que gosto, como as cores do esmalte, e voilá: você me verá alguns dias da semana, com meus equipamentos tecnológicos e meus 2 filhos lindos em uma casa com 2 gatos, 3 habitantes, 3 relógios de pêndulo e 4 televisões, que por absoluto mistério do submundo da televisão privada recebem o sinal em quatro tempos diferentes, provocando um eco perturbador do conteúdo, que convenhamos (com exceção da novelinha bem filmada das seis horas) só faz a gente ficar mais bobo, somado aos tic-tacs por segundo de cada um dos três relógios, que por ironia não badalam no mesmo milésimo. E terminam com um insuportável cuuu-cooo a cada meia hora e hora cheia, sendo o meio dia a hora mais grave da crise, com doze badaladas e o horário de pico de consumo do perturbador conteúdo telejornalístico depressivo das televisões em eco.
Menina, se existe uma formula para a loucura, é essa aí.
Na casa da minha mãe eu não consigo nem mesmo ouvir as vozes na minha cabeça, e inventar para elas uma palavra positiva.
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Essa semana eu aprendi algo muito bacana. Não existem estratégias erradas. Existe hora errada para aplicar as estratégias.





