Todas as manhãs nessa casa de louco são iguais. O membro mais novo da internação da ala norte tem se comportado diferente. Ele, que foi admitido há pouco mais de quatro meses, começou a demonstrar comportamento agitado durante a madrugada, que se acentua nas primeiras horas da manhã quando começa a ouvir os grunhidos dos internos da ala sul.
O novo paciente é pequeno, gordo e careca, não tem nenhum dente na boca e pouco ou nada sabe-se sobre o seu passado. É no geral um paciente calmo e tranquilo, e dificilmente prejudica as atividades diárias dos outros internos. Fica boa parte do tempo deglutindo sua marmita, de modo que aos passantes fica difícil compreender se é ela que o carrega ou o contrário. Normalmente nos momentos de pico - que já ficou comprovado por estudos clínicos serem terrivelmente associados a um sono inexplicável para as características do indivíduo - tende a ser agressivo, gritando inconsolável e arqueando as costas como se não lhe houvesse posição ideal para descansar a gordura branca.
Invariavelmente esses ataques de histeria acontecem quando um outro interno já se recolheu a seus aposentos.
Este, paciente desse hospício há pouco mais de dois anos. Teve uma adaptação mais agitada, os outros internos custaram um pouco a entender suas necessidades. Assim como o mais recente, também foi gordo e calvo no início do tratamento, mas atualmente exibe irretocável e alva cutis emoldurada por madeixas douradas a quem não se pode tocar. Os especialistas têm evitado contrariar, uma vez que deste paciente pode se esperar tudo. Os comportamentos variam de extrema agressividade a ataques de paixonite aguda em direção a brinquedos, outros internos ou peças do mobiliário. Recentemente, aprendeu a controlar os esfíncteres de forma surpreendente, bastante diferente do que os outros casos conhecidos da mesma ordem de distúrbio. Nas sessões individuais, o pequeno consegue expressar seus pensamentos e sentimentos com a habilidade dos não loucos, levando todas as equipes a muitas vezes acreditarem que é possível dar-lhe alta, tamanha lucidez.
Porém o hábito imutável de gritar pacas, mas pacas mesmo, para conseguir as coisas que quer e verter todo e qualquer líquido que esteja parado dentro de um recipiente ao chão, à mesa, aos tapetes do ambiente provam que este caso ainda precisa ser mantido em observação. Ele também lambe facas, quando não tem ninguém olhando. Foi apelidado carinhosamente de Uga Buga pela equipe de enfermagem.
O companheiro de Uga Buga na ala sul é um mistério para as equipes da psiquiatria, moreno, cara de cansado, leve como uma pluma, tanto da forma física como na emocional, é um interno do hospício desde 2006. O interessante é que, de acordo com os prontuários da época, o paciente parecia ter menos traços de loucura do que agora, seis anos, tratamento adentro. Os observadores registram um comportamento absolutamente dócil, mas uma mente incapaz de processar atividades corriqueiras, esperadas da faixa etária - como por exemplo colocar as roupas dentro do cesto de roupa suja e não ao lado. As opiniões dos especialistas divergem, um grupo garante que o paciente estaria apto para convivência em sociedade, uma vez que não oferece risco nenhum a outro ser vivo. Outros, estão com dó das roupas, louças, sapatos, comidas e todos os outros ítens não vivos do mundo inteiro. Sabem que não sobrará sequer uma almofada em cima de nenhum sofá, caso o indivíduo venha a finalizar o tratamento.
A última habitante do sanatório vive aqui desde que nasceu. Não é necessário muito tempo de convivência para compreender que provavelmente é um caso sem solução. Passou por dois turnos graves de aproximadamente 9 meses de inchaço, resmungos infinitos, sonos e náuseas nos últimos 3 anos. Na época das crises foi considerado eletro-choque ou mesmo lobotomia para preservar a vida da paciente, uma vez que as funções mentais estavam completamente comprometidas. Enxaquecas, variação extrema de peso, cortava os cabelos sozinha e sem explicação. Felizmente, as crises passaram coincidentemente co m a chegada dos internos mais novos. Absolutamente bipolar, tem ataques de risos com as coisas mais banais do cotidiano de qualquer sanatório e em poucos segundos ameaça rispidamente os outros internos, em especial o moço pacato, caso não cumpram suas exigências. Não obstante, é controladora e não consegue superar o fato de que os outros internos, seja por incapacidade de gênero ou por suas próprias limitações psiquiátricas, não sabem mesmo recolher os brinquedos. Na última sessão com o analista confessou que tomou champagne às 13h enquanto trabalhava na cooperativa do hospício, um traço clássico de fuga da realidade. Mas quem se importa? Ela vê baratas imaginárias o tempo todo.




