15/05/12
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O CAUSO DOS ADESIVOS

Ouvira de uma bela mãe, com os cabelos escuros como a noite, os olhos azuis como o mar e a pele alva como a neve uma bela história de desmame natural. A filha, pronta para se desligar do seio da mãe, recebeu uma ajudazinha com uma tática tão poética quanto pedagógica: estrelinhas adesivas que brilham no escuro. A cada noite, a mãe colava uma estrelinha no quarto da criança e contava para ela que aquela estrela representava um marco importante de sua vida. O dia que nasceu, a primeira mamada, quando comeu pela primeira vez. Ia adicionando estrelinhas, até que chegou o dia de colar aquela que representava a última mamada - uma grande estrela brilhante e maior que todas. A criança a princípio disse que não queria colar aquela. Mas no colo da mãe mamou longamente a última mamada. Deu um beijo no seio e compreendeu que agora, assim como a estrela, ela era grande. E a história se encerrou assim.

Sentia que um dia, cedo ou tarde alguma história de desmame seria sua também. Mas independente disso, gostou mesmo da estratégia dos adesivos. E resolveu aplicar em casa a poesia em forma de figurinha auto colante. Como a grande crise naquele lar sempre foi a mesma: a hora do sono, era ali mesmo que os adesivos comprados, assim como pela bela mãe, sem nenhuma outra intenção meses antes iam servir para alguma coisa. Não tão simbólicos como estrelas, também não deixavam de ser interessantes as bolotas, frutas e florezinhas.

O plano era simples: para cada etapa do dia da criança a mãe colou um adesivo na parede. Por algumas noites repetiu em tom sereno o que cada uma das formas representava. Sentia-se segura em suas práticas maternas, enquanto ignorava veementemente o fato de o menino estar cagando para seus adesivinhos. Era uma questão de tempo para que ele compreendesse suas verdadeiras intenções: explicar que aquela hora era a hora de dormir e fim de papo.

- Então meu filho, essa é a hora que o Joaquim acorda (apontava para o primeiro adesivo). Depois, o Joaquim gosta de brincar (dedinho no adesivo seguinte), então é hora do almoço (apontava para o único bentido que tinha alguma relação do cu cas calça, uma fatia de melancia) e ia assim por diante, mãe empoderada praticante da educação por apego.

Nunca deixou o bebê chorando. Nunca hahahaha reclamou de ficar noites e noites em claro amamentando. Cuidou do cardápio da criança como quem alimenta um pequeno rei orgânico, e brigou com hordas de familiares loucos para agradar o pequeno com um docinho ou uma fritura. Um verdadeiro exemplo de abnegação, paciência e facilidade inegável de rir de si própria. Esforços recompensados pelo dia em que finalmente os adesivos surtiram algum efeito. Deveras, não o esperado:

- E então - falava como falaria uma princesa de um reino distante - o Joaquim acorda cedinho e gosta de...
- Fazê cocô!

Ignorando profundamente a falta de sensibilidade ou excesso de malandragem da cria prosseguiu. 

- Aí chega a hora de brincar, do que você gosta de brincar meu amor?
- De soltar pum!

Respira fundo, e um pensamento lhe cruza a mente "Why me?"

- Aham, muito legal. Na hora do almoço, a gente prepara uma comidinha deliciosa. Qual é seu prato preferido meu amor? (Brócoli? Feijão? Ricota? Pensou a pobre mente)
- Batata Frita.
- Oi? Você nem sabe o que é batata frita.
- E água frita.
- Quem te deu batata frita?
- Prrrrrrrrr (altos sons de puns com a boca)

Conta até 124 e retoma:

- Então, depois do almoço, vem a sonequinha. Você gosta de dormir à tarde?
- Não.
- E daí você acorda e brinca de novo. Qual a a sua brincadeira favorita?
- Cuspi na mamãe.
- Isso não é brincadeira, a gente só pode cuspir na pia, né? Na hora de escovar os dentes, né?
- E na mamãe. Brrrrr (altas bolas de baba)
- Para com isso, que porqueira!
- Brrrrrrr... Prrrrrrrrr.... Plllllrrrrrrrrr
- Filho, para, ta na hora de dormir, vamos fechar o olhinho?
- Não.
- Mamãe canta para você!
- Não canta!
- Porque?
- Por que é feio.
- Shhhh...tsc tsc tsc (tapinhas no bum bum)
- Aaaaaa - balata diz que tem... rá rá rá (muito alto, quase dançando)
- Vamos ficar deitadinho?
- Não.

Olha para o filho. Olha para os adesivos. O menor começa a chorar, muito possivelmnete de medo da balata. O menino pede para ir ver, fica animadão. Na hora de levantar derruba o suco na cama. Começa a chorar também. Ela acende a luz para trocar os lençóis. Não tem lençol limpo. O menor esgoela. Ela pega o menor num braço, o maior no outro e liga a televisão no quarto do casal e deixa todos os menores de idade assistirem Oi Oi Oi!!!

Fim.