08/03/12
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TESTE DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA - DIA INTERNACIONAL DA MULHER - BLOGAGEM COLETIVA

Muito se fala hoje em dia sobre violência contra a mulher. Recentemente no reality show mais velho do BBBrasil aconteceu um causo que me deixou chocada. Não pelo o que aconteceu, mas por comentários de pessoas queridas. Gente que dizia coisa do tipo: mas o que ela queria? Vive com aquele shortinho, encheu a cara na balada, pediu para ser molestada.

Medo.

Estar embriagada, usar shorts curto, andar pelada, nada disso é motivo ou razão para que qualquer outra pessoa realize qualquer tipo de assédio de cunho físico, emocional ou sexual. Ninguém tem direito sobre o corpo de ninguém.

Em essência o ocorrido se iguala a outros de violência, como por exemplo os inexplicáveis casos de moradores de rua incendiados. É sempre a mesma dinâmica: gente achando que tem alguma vantagem sobre outro tipo de gente.

Todo e qualquer ato de violência implica em um indivíduo reagindo sobre o corpo e mente de outro indivíduo que ele julga inferior. O agressor se acha no direito de invadir o limite do outro para ferí-lo. E me assusta que casos como esses não somente sejam aceitos como também, muitas vezes justificados: ela provocou.

Ninguém tem o direito sobre o corpo de ninguém.

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Refletir sobre coisas como essas foi um presente da maternidade. Chegou pela porta da educação: eu sou absolutamente contra violência física contra criança, e tenho pavor de palmadinha. Novamente, é a mesma discussão: adultos achando que tem poder sobre o corpo de crianças. Houve um tempo em que eu fiquei refletindo sobre isso, poxa vida, o que pode uma palmada prejudicar uma criança? Não seria exagero? Então as mães não tem direito sobre os filhos, e por aí chegou minha conclusão. Não. Ninguém tem direito sobre o corpo, mente e emoção de ninguém. Há de se respeitar os limites físicos, psiquicos, emocionais de cada um. Educação se faz de indivíduos íntegros.

Algumas vezes, a minha convicção racional, civilizada de que não se pode bater em criança, me segurou de dar palmadas no Joaquim, em meio a uma crise de raiva. E é nisso que eu acredito quando o assunto é violência, temos que ter a convicção de que coisas são certas e coisas são erradas. Temos que ter a convicção do que é aceitável e do que não é aceitável. Não pode ser normal uma sociedade estar dividida entre o "ela é culpada" e o "ela é vítima" em um caso de estupro. Assim como não pode ser normal haver questionamentos sobre o que é e o que não é violência física contra criança. Bater é violência. Palmada é violência, não pode ser aceito.

Foi então que a partir do viés da educação eu me deparei com todos os dilemas que envolvem partos e nascimentos. Fui crescendo dentro da minha ignorância e adquirindo informação relevante, formando opinião, ouvindo prós e contras, até que um dia me deparei com a verdade: eu havia sido vítima de violência no nascimento do meu primeiro filho. E violência obstétrica é uma modalidade de violência que eu não conhecia. Que consegue abraçar o que há de mais sagrado. A mulher, a criança e o parto.



Esse texto não é um questionamento do que é bom e do que é ruim para cada um, muito menos um convite à competições de ego. Esse é um texto para expor uma descoberta minha e convidar à uma reflexão, não posso contemplar as histórias individuais de cada uma, portanto estou me baseando em uma generalização. Só eu acho que o modelo obstétrico vigente no Brasil é aceito socialmente, mascarado de normal, mas compreende uma série de abusos onde um indivíduo (ou uma equipe) julga que tem alguma vantagem sobre outro indivíduo (ou dupla: mãe e bebê)?

Essa não é a definição de violência? A antítese de respeito?

Oras, eu posso estar parecendo xiita. Juro, longe de mim. Eu não tenho a paixão que precisa para ser xiita, eu sou uma mente racional. Mas vejam só: depois da minha jornada em busca de informação, o modelo obstétrico vigente para mim virou a tradução de violência. Esquecendo que do nascimento sai aquela coisa linda que a gente ama, e que com sorte em 48h estará em casa, livre das enfermeiras, sob nossos olhos atentos. Separando o sentimento enlouquecedor que sentimos pelos nossos filhos e olhando a coisa toda somente sob o prisma da razão:


Uma mulher ser levada à uma cirurgia que lhe corta a barriga em 8 camadas por um motivo que NÃO É VERDADE não é uma violência?

Uma mulher ter seu períneo cortado, sendo que isso pode ser evitado e/ou ser DESNECESSÁRIO, não é uma violência?

Uma mulher ter uma enfermeira trepada em cima de sua barriga, fazendo força mecânica para que seu bebê saia de lá de dentro, não é uma violência?

Uma mulher ter seus braços amarrados na hora do momento mais precioso da vida: da chegada de seu filho, sem que possa segurá-lo, abraçá-lo, não é uma violência?

Um bebê de minutos ser levado a um berço longe da mãe por horas determinadas à conveniência protocolar de um hospital não é uma violência?

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Hoje em dia, assim como a BBBanalidade descrita acima, anda me chocando muito mais a reação aos casos de violência, do que as agressões propriamente ditas. O modelo obstétrico vigente está errado. Não é culpa das mães. Não pedimos para sermos picotadas, anestesiadas, amarradas, separadas dos nossos filhos. As vítimas não tem culpa, essa é uma mania doente da nossa sociedade: culpar as vítimas.

Simplesmente é aceito - e defendido!! - que a mulher seja subjugada no momento do parto. Colocando o direito que ela tem sob o seu corpo nas mãos de terceiros. Colocando o novo pequeno habitante desse mundão para chegar sob a mácula da violência. Fora do seu tempo, negado do seu direito de mamar, com cordão clampeado antes da hora, empurrado à força para fora da barriga, infestado de hormônios e medicamentos sintéticos, que o deixam sonolento, que o fazem perder a vontade de mamar, que prejudicam seus instintos.

Esse não é o direito. Esse é o avesso. Hoje eu estou refletindo sobre isso aqui publicamente, baseada nos meus aprendizados e na esmagadora maioria de partos conduzidos dentro desse modelo, o que me permite generalizar.

***

Hoje é dia internacional da mulher e nada melhor do que blogar sobre uma das facetas mais importantes: a mãe, em prol de uma causa bacana. Essa blogagem foi convocada pelo Parto no Brasil, Mamíferas e Cientista que virou mãe e propõe levantar dados sobre violência no parto. 


"Precisamos desnaturalizar os maus-tratos na maternidade, buscar formas de reduzir sua aceitação, e também acabar com a impunidade contra este tipo de violência. Precisamos valorizar nossa integridade física e bem-estar emocional no momento de dar à luz. Todas as mulheres têm direito a ter um parto com escolhas esclarecidas, respeito à sua individualidade e dignidade."