O bebê chorava inconsolavelmente por horas à fio. Horas? Não eram exatamente horas. A mãe já não conseguia fazer sentido do tempo. Quando chorava eram horas, quando dormia eram segundos. Ele estava fora da barriga à apenas alguns dias. Dias? Não eram somente dias. Eram duas semanas já. Duas semanas praticamente acordada tempo todo. Ela conseguia dormir de vez em quando, mas nunca sentia que era o suficiente. Poderia dormir por uma semana seguida, e mesmo assim não se sentiria descansada.
Os últimos eventos foram intensos! Um segundo filho chegando, um segundo nascimento totalmente fora do esperado. O primeiro filho carente de atenção. Carente? Não necessariamente. Ela sabia que aquele momento era pior para ela do que o contrário. O menino se comportava como um querido irmão mais velho, e colaborada na medida de sua capacidade.
Ela aprendeu que os bebês nascem, mamam, dormem. Os cuidados básiscos ela dominava, afinal já tinha meses e meses de prática. Fraldas, roupinhas, lavadas, como arrotar. Mas de novo ela entrava em contato com um sentimento que havia experimentado somente na chegada do primeiro filho, coisa que ela achava que teria resolvido quando o segundinho batesse à porta, mas que como todo bom ditado, se provava novamente, não importa se é o primeiro, segundo, quinto. A gente nunca sabe, a gente nunca está preparada. E para aprender coisas novas é preciso esquecer algumas coisas.
Mas porque para algumas é mais fácil? O que há com meu filho que não para de chorar? Será possível que esse peito vai rachar de novo? Tinha me esquecido do que é ficar tanto tempo sem dormir e aaahhh como eu quero dar uma chupeta agora, só para ver se funciona, só para acalmar.
Na confusão do nutrir, embalar, acalentar, trocar, lavar, conversar, manter, doar, querer essa mãe se perde nos atalhos que foram cavados por outras mães, de gerações e gerações, que saem ali, da linda estrada que é a maternidade. Muitos desses atalhos, floridinhos e perfumados. Outros secos e simples. Alguns extremamente eficientes. Outros que ligam a bela estrada à lugar nenhum ou no mínimo a levam para alguns metros atrás.
É mais fácil pegar os atalhos já cavados na mata do que procurar pelos seus próprios. Mas é mais provavel que eles não sejam úteis para você.
Ela coloca o bebê no berço, porque assim é o esperado. Ela dá banho às 17h porque a vó fazia assim. Ela usa o mesmo shampoo, porque era esse que usavam na maternidade. Na hora de dormir vai para o quarto, porque é ali que se dorme. Na hora de vestir, um body combinando com o sapatinho, sem se importar se ali dentro há uma etiqueta que pinica.
Perdida nos atalhos já testados - e aprovados - por outros a mãe se dá pouquíssima chance de perceber que anda em círculos. Não porque carrega o fardo de um filho difícil. Mas porque acredita que ele é difícil.
Eu aprendi assim:
Bebês choram. Mas você pode se comunicar com seu bebê falando. Insista que ele olhe nos seus olhos, diga para ele o que pensa e o que está sentindo. Peça uma resposta. Exija uma resposta, ele vai se comunicar. Se o seu bebê é atendido somente no momento que chora, vai usar o choro como forma de comunicação sempre. Se o seu bebê se sente conectado com você o tempo todo, e percebe que pode conversar de outras formas, vai aprender a usá-las para se expressar.
É integral. Mãe de Rn não precisa de sossego. A gente tem que encarar assim para sobreviver. Não preciso dormir, não quero comer agora. Água basta. Vaidade amanhã, sem reclamações sobre a pele horrorosa e o cabelo despontado. Abnegação? Oras, porque não? Quanto tempo vai ser assim? É pouco! Sempre lembre, isso passa, e passa rápido. Porque não entregar-se totalmente?
Isso passa. Mas também não é preciso ficar sentada esperando passar. Se não está bom de um jeito, tente de outro. Se chora muito na sala, vamos tentar o quarto, se estiver calor, vamos ver a lua. Se chora com essa roupa, fica sem roupa, sem fralda, pelado. Quem tem medo de cocô de RN? Se não fosse tão escatológico daria para passar no pão. Se chora no berço, fique na cama, se chora na cama, tente um balanço. A gente tende a dizer que já tentou de tudo, mas tem que avaliar o tudo. Tudo mesmo? Já dormiu de dia? Já deu banho de água fria? Já parou para pensar que tentar de tudo significa tentar algo que você não tentou? Nem ninguém tentou? É você cavando seus próprios atalhos.
É só às vezes. Qualquer dica que você conseguir aplicar com seu bebezinho vai funcionar só às vezes. Às vezes, às vezes é quase sempre, outras é quase nunca. O que importa é que sempre funciona, lembrando que quando se trata de filhos, nunca é sempre.
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Simplesmente chega o dia que o RN não dá mais tanto trabalho assim. Dá mais. Meu Tomás, que hoje completa 3 meses e já não faz mais parte da classe dos fetos fora do útero. Ficou e ainda fica colado com mamãe, era mais leve há três meses. Vive de coluna torta, mal acostumado, reinando, pequeno ditador, mas não vive sozinho. Era mais incompreendido, hoje chora quando carece, mas chora feio. Não foi e não vai para o berço, não usou roupas pinicantes. Fica pelado o quanto pode, toma banho frio e quente, de balde, de chuveiro, de banheira e de piscina e tem dias que nem toma. Quer mamar, mama. Só um pouquinho, tá bom. Usa chupeta escondido. É gordo pesado e cheio de perebas. Tá ficando careca.




