21/03/12
Compartilhe

NOITES DO TERROR

1º ATO

Nunca dormiu uma noite inteira, dentro do que se pode chamar de noite. Pregava os olhos com esforço ao redor das 21h, despregava aos berros ao redor das 00h e daí sucessivamente de 2h em 2h até a hora dos vampiros se recolherem às catacumbas. Ela achava que eram berros, até aquela fatídica noite, quando se encontrou com a última fronteira do desconhecido: ataque de terror noturno.
Dentro da jaula mundialmente conhecida pelo nome de berço, gritava coisas sem sentido: Qué vê o aspiradô!! Cadê o Tumás? Qué falá com a mamãe-ti-ama!!! Qué falá com o papai-ti-ama. Pânico na madrugada, nada acalmava o pequeno zumbi.

2º ATO

Uma luz pálida iluminava o ambiente já preparado para a rotina noturna, enquanto a donzela de pijamas de sena amamentava o mais novo elemento da família, o pequeno drácula saracoteava ao redor do leito materno, para ver se lhe sobrava algum resquício de leite materno. Achou o botão do abajour de cristal baccará, herança secular de família, colocado acima da cabeceira de veludo, um tanto à esquerda do ombro da mãe. Do jeito que pegou, puxou o fio, vindo abajour, bacará e lâmpada diretamente de encontro com a face norte da testa do pequeno. Mãe e rebentos cobertos de cacos, Pânico na madrugada. Um grito seco, e o pai resgata o draculinha descalço para levá-lo ao banheiro. Silêncio. Uma voz rompe o ar enquanto a mãe verifica por possíveis danos na pele brilhante do menor, esse estava salvo: Anne, vem aqui. Ela sabia que podia ter sido pior, mas o maior não escapou ileso. Um galo, vários cortes, uma cicatriz, trabalho digno de Voldemort. Dias depois nem sinal das manchas de sangue em todos os pijamas da família e no tapete do banheiro.

3º ATO

Foi comprar um penico e sucumbiu à indústria do plástico mortal Chinês. Digno e colorido, levou de quebra um botão que tocava música. O penico passeou pela casa nas semanas de desfralde e por fim atingiu o repouso final: ao lado do vaso sanitário, bem perto da porta de entrada para o mundo desconhecido da terra dos cocôs. O monstrinho se apropriou da porcaria chinesa como ninguém, inclusive com uma habilidade maquiavélica para esvaziá-lo nos lugares corretos ou não. Um raro momento de silêncio, família completa em sono profundo, ouve-se por entre as toalhas de banho o som avassalador: pã-nã-nã-nã (como num filme mudo você deve agora usar sua imaginação para entender o som que vinha através do corredor escuro). Pânico na madrugada. Até que algum adulto fizesse sentido do que se tratava aquela comemoração musical de alegria por mais um xixi feito no plástico chinês. Teria o monstrinho levantado sozinho e ido até o banheiro? Teria sido uma irresponsabilidade tirá-lo da jaula?  E mais importante: o portãozinho da escadaria de mármore gélido está fechado???????

FIM

***

E fica a pergunta: Porque Deus, o penico dispara na madrugada? Já não tem emoção suficiente na minha vida Senhor?