No parquinho eu sempre tento olhar de longe. Os brinquedos de movimento ainda não são tão interessantes como o tanque de areia. O Joaquim brinca fácil, parece semi-civilizado e normalmente entra nos grupinhos numa boa, tentando interagir com a criançada, ou tomar posse de algum brinquedo.
O problema de todas as crianças é o mesmo: os pais.
A coitada da Luiza levou para o parquinho um conjunto de panelinhas com todas as finalidades. Panela de pressão, panela de cabo longo, caçarola, frigideira, talheres e até um escorredor de arroz. Ela estava fazendo com outra menina um almocinho delícia, com areia e folhas.
Joaquim chegou de mansinho e foi abandonando seus rastelo e balde pelo caminho, que eram rapidamente capturados por outras crianças. Ajoelhou do lado da cozinha da Luiza, numa cena muito engraçadinha. Como conseguem as crianças ajoelhar tão profundamente, e manter-se equilibrando por longos minutos sobre os calcanhares? De fazer inveja a qualquer mestre De- Rose.
Ele não disse nada a princípio, e a Luiza e sua amiga continuavam cozinhando. Quando ela percebeu que de alguma forma aquele loirinho poderia querer brincar também, moveu todas as panelinhas para o outro lado e deu as costas para ele. Protegeu o almoço dos filhos, sem causar frisson. Luiza devia ter uns 3 anos.
Ele levantou da sua postura de Ioga e foi ajoelhar novamente do lado do fogão imaginário da Luiza. E dessa vez capturou o lavador de arroz, com um convite provindo de toda a sua habilidade linguística e alto poder de observação: " Vam-lavá um arroiz?"
Luiza não gostou não. Acho que o arroz já estava lavado. Tomou delicada, mas firmemente o brinquedo pink da mão do menino.
Em menos de uma fração de segundo, uma voz grossa, vinda por trás dos meus ombros, cortou o ar do tanque de areia e atravessou até a área do escorregador. Os passarinhos voaram das árvores e ouvimos por um breve momento o silêncio entre os burburinhos das crianças:
- LUIZA! VOCÊ TEM QUE APRENDER A DIVIDIR! VOCÊ TEM QUE EMPRESTAR SEUS BRINQUEDOS!!
Luiza olhou para o pai com nenhuma surpresa. Com uma cara de quase enfado. Esticou o braço relutante e devolveu o seu lavador de arroz para o pequeno intruso. Se Luiza falasse merda, ela diria - Toma essa merda. Mas só disse um chateado "Toma."
É conveniente que a gente aos poucos vá ensinando aos filhos o mundaréu de regras que a convivência social pacífica exige. Sim, dividir é importante. Conviver em harmonia com outras crianças é importante. Descobrir que o mundo não gira ao redor do seu umbigo também.
Mas como uma mãe do modelo observadora de conflitos, sem a menor vontade de interferir, acabei concluindo enquanto a Luiza preparava o almoço que talvez isso esteja um pouco fora de mão: a patrulha dos genitores do lado de fora do tanque de areia não permite que qualquer conflito seja resolvido pelos interessados verdadeiros: a dona do almoço e o menino aficionado por afazeres domésticos.
Mais um convidado para um carona ao inferno, aquele das boas intenções, me pareceu que o pai da Luiza jamais sequer se permitiu a reflexão: é mesmo necessário que aos três anos as crianças já tenham dominado ou sejam constantemente lembradas por um adulto com anos de adestramento no lombo, da arte de dividir?
Pode se esperar da Luiza que sorria passivamente para um estranho que interrompe o preparo de sua comidinha? O que teria feito Luiza, e mais curioso ainda, o que teria feito Joaquim, caso a patrulha da boa convivência do tanque de areia não tivesse entrado em cena? Não sabemos. As crianças tem pouco ou nenhum espaço para reações espontâneas. As crianças estão tolhidas em sua essência e criatividade, em muitas, muitas situações.
Tem sempre alguém da patrulha das boas intenções tentando ensinar, avaliar, melhorar, otimizar. Afinal, eles são muito pequenos para saber qualquer coisa! A patrulha está pronta para controlar os tanques de areia, as noites de sono, as brincadeiras de todas as espécies e todos os pedaços de papel de estiverem em branco. Vão te ensinar como desenha. Vão te ensinar como se escreve. Vão fazer valer todos os manuais de instruções de todos os jogos do planeta.
Tendo devolvido o lavador de arroz para Joaquim, Luiza foi surpreendida por mais um elemento no parque. Desta vez um impiedoso recém caminhante na casa dos 12 meses. Altamente motorizado, altamente irresponsável e desprovido de qualquer conhecimento sobre regras. O pequeno Neandertal atropelou a cozinha de Luiza, chutando todas as panelinhas. Catou um dos talheres e enfiou cheio de areia na boca., lançou com toda força a caçarola para fora do tanque. Pegou o lavador de arroz das mãos de Joaquim e saiu, saindo, pequeno meliante.
Acabou com o almoço da Luiza e distraíu Joaquim, que foi atrás de outro grupinho. Passado o tornadinho, ela se pôs a recolher suas panelas, fez o maior esforço atrás da caçarola. E foi atrás do pequenino para recuperar a última peça, o lavador de arroz. Quatro segundos de perseguição e novamente a patrulha lhe deu um esporro:
- LUIZA, JÁ FALEI PARA VOCÊ DIVIDIR SEUS BRINQUEDOS. NÃO VOU MAIS TE TRAZER AQUI!!!
Foi então que eu não me aguentei e saí do papel da observadora. Me juntei à patrulha da intereferência, mas sentada no banco da advogada de defesa da Luiza.
- Ela só está tentando continuar sua brincadeira. Ela foi interrompida várias vezes, você viu?
- A Luiza é terrível, ela não sabe dividir nada.
- Mas ela ainda é nova para saber dividir não é?
- LUIZA LARGA O BRINQUEDO DA MENINA ISSO NÃO É SEU.
- E se ela tem que emprestar sem falar nada também pode pegar sem falar nada não pode?
- Ela finge que não me escuta. Parece que ela não me vê! LUIZA, EU ESTOU MANDANDO VOCÊ LARGAR ISSO.
E Luiza olhava para o pai com nenhuma surpresa, com uma cara de quase enfado.
***
Minha cabeça borbulha em reflexões. Quem finge que não escuta é o pai ou é a Luiza? E quem não está vendo quem?
Existe uma fina linha escondida entre a interferência castradora e a completa displicência. Eu acredito no potencial das crianças. Acho que são capazes de aprender as coisas de uma forma diferente da que a nossa arrogância acha a correta.
Este modelo de educação - escolar ou doméstico - baseado na hierarquia para a transmissão de conhecimento me parece cada vez mais antiquado. Me parece injusto com os pequenos que não possam se expressar dentro de seus próprios conflitos. Que estejam constantemente monitorados por professores, pais, mães, babás e avós - que sabem mais, que tem sempre uma lição de moral para dar.
Do lado de fora do tanque de areia, a missão não é fácil. Onde está a linha que separa a dona da razão e a completa oba-oba? Da minha parte, acredito que a única forma de chegar sequer perto dela, é parar para observar, e para refletir. Olhar antes de interferir. Escutar antes de falar.
Filhotes, prometo fazer parte da patrulha o mínimo possível. E nunca vou ler nenhuma instrução de nenhum brinquedo. Pretendo deixar que vocês me ensinem como brinca. Afinal, cada um com sua especialidade. E se ainda não for tempo de aprender a dividir, estou disposta a esperar. Com um pouco de vergonha de parecer a mãe dos egoístas. Mas isso a gente resolve com o tempo.
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