O
nascimento do meu primeiro filho foi de “a experiência mais maravilhosa da
minha vida” para “a experiência mais maravilhosa da minha vida transformada em
uma cirurgia que me tirou a chance de vivê-la plenamente” no decorrer dos 20
meses que o separaram do nascimento do meu segundo filho.
Nesse
interim, eu que achava um absurdo qualquer um que dissesse que a cesariana não
era um parto, passei a compreender completamente o pensamento que envolve esse
conceito. Quem nasce de cesárea não nasce, é nascido. Quem tem um filho de
cesárea não pari.
Eu
sabia que entrar em trabalho de parto, passar por todas as suas fases, encarar
os fantasmas que se apresentariam era parte dessa nova forma de nascer. De
deixar o meu filho nascer e de me deixar renascer através dele.
Mas
sinceramente, não havia livro, relato, grupo ou dinâmica nesse planeta que
pudesse ter me preparado para a experiência transformadora do trabalho de
parto. A Laura Gutman diz que a maternidade é o encontro com a sombra. Não
consigo pensar em resumo melhor para o que acontece durante o trabalho de
parto. Em meio à dor física, todas as suas dores emocionais, seus medos mais
profundos, seus segredos, tudo aquilo que foi varrido para baixo do tapete se
apresenta para você da forma mais crua: quando você não vai poder lutar contra,
não vai poder se esconder. Ou encara, ou encara.
E o
meu trabalho de parto foi assim. Quando depois de 24h desde o início dos
pródromos começamos a engrenar, tudo foi ficando mais dolorido, e os fantasmas
mais presentes. Ainda era fácil suportá-los, e ir levando um a um. Ainda era
possível bater um papo ou fazer um lanche entre as contrações. Em algumas eu
até cochilei.
Temia
classificar a dor como muito intensa, eu sabia que não era nada perto do que eu
sentiria. Fomos madrugada adentro, respirando. Pedro do meu lado, uma chuva
intensa que me fez pensar que tinha vindo de propósito para me ajudar a lavar
tudo o que eu precisava. Eu precisava me entregar para que o TP engrenasse.
Não
havia livro, relato, grupo ou dinâmica nesse planeta que pudesse ter me
preparado para as minhas próprias reações. Eu fui uma parturiente muito
resistente, e assim as longas horas foram se estendendo.
Chegou
a doula, com preciosos exercícios de respiração, massagens e dicas para
canalizar as energias das dores para a sua função verdadeira: abrir o colo do
útero, ajudar o bebê a descer, encaixá-lo na pelve.
Caminhei,
agachei, tomei alguns banhos de chuveiro. Tinha contrações sentada, deitada, em
pé. Doloridíssimas, mas suportáveis. Respirava e tentava me manter calma, em
nenhum minuto desconfiei de que eu conseguiria, fazia absolutamente tudo como
havia aprendido, respirava profundamente, tentava relaxar, procurava posições,
tentava livrar a mente.
De
novo um olho clínico e aqui mais um dos motivos que me atrapalhou: eu sou muito
racional. Para parir é preciso se deixar virar bicho.




