10/01/12
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O "VB"do Vbac - Relato de parto de Tomás - parte 2 de 7

Deixar-se virar bicho

O nascimento do meu primeiro filho foi de “a experiência mais maravilhosa da minha vida” para “a experiência mais maravilhosa da minha vida transformada em uma cirurgia que me tirou a chance de vivê-la plenamente” no decorrer dos 20 meses que o separaram do nascimento do meu segundo filho.

Nesse interim, eu que achava um absurdo qualquer um que dissesse que a cesariana não era um parto, passei a compreender completamente o pensamento que envolve esse conceito. Quem nasce de cesárea não nasce, é nascido. Quem tem um filho de cesárea não pari.

Eu sabia que entrar em trabalho de parto, passar por todas as suas fases, encarar os fantasmas que se apresentariam era parte dessa nova forma de nascer. De deixar o meu filho nascer e de me deixar renascer através dele.

Mas sinceramente, não havia livro, relato, grupo ou dinâmica nesse planeta que pudesse ter me preparado para a experiência transformadora do trabalho de parto. A Laura Gutman diz que a maternidade é o encontro com a sombra. Não consigo pensar em resumo melhor para o que acontece durante o trabalho de parto. Em meio à dor física, todas as suas dores emocionais, seus medos mais profundos, seus segredos, tudo aquilo que foi varrido para baixo do tapete se apresenta para você da forma mais crua: quando você não vai poder lutar contra, não vai poder se esconder. Ou encara, ou encara.

E o meu trabalho de parto foi assim. Quando depois de 24h desde o início dos pródromos começamos a engrenar, tudo foi ficando mais dolorido, e os fantasmas mais presentes. Ainda era fácil suportá-los, e ir levando um a um. Ainda era possível bater um papo ou fazer um lanche entre as contrações. Em algumas eu até cochilei.

Temia classificar a dor como muito intensa, eu sabia que não era nada perto do que eu sentiria. Fomos madrugada adentro, respirando. Pedro do meu lado, uma chuva intensa que me fez pensar que tinha vindo de propósito para me ajudar a lavar tudo o que eu precisava. Eu precisava me entregar para que o TP engrenasse.

Não havia livro, relato, grupo ou dinâmica nesse planeta que pudesse ter me preparado para as minhas próprias reações. Eu fui uma parturiente muito resistente, e assim as longas horas foram se estendendo.

Chegou a doula, com preciosos exercícios de respiração, massagens e dicas para canalizar as energias das dores para a sua função verdadeira: abrir o colo do útero, ajudar o bebê a descer, encaixá-lo na pelve.

Caminhei, agachei, tomei alguns banhos de chuveiro. Tinha contrações sentada, deitada, em pé. Doloridíssimas, mas suportáveis. Respirava e tentava me manter calma, em nenhum minuto desconfiei de que eu conseguiria, fazia absolutamente tudo como havia aprendido, respirava profundamente, tentava relaxar, procurava posições, tentava livrar a mente.

De novo um olho clínico e aqui mais um dos motivos que me atrapalhou: eu sou muito racional. Para parir é preciso se deixar virar bicho.

Amanhecia e finalmente eu estava em trabalho de parto.