23/01/12
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AMAMENTANDO DOIS - E OUTRAS COSITAS MÁS

Obrigada (com lágrimas) pelos comentários no Relato de Parto do Tomás. É nessas horas que escancarar a vida na internet faz completo sentido. Dúvidas, revelações, críticas e um monte de troca... fiquei lisonjeada. Estou preparando um texto para responder tudo, refletir sobre tudo, combater acusações desnecessárias de xiitismo... não consegui comentar uma por uma, mas eu chego lá! De novo, obrigada.

***

Então que eu preciso falar sobre amamentar (uuuuuuu de novo? dá zero prá ela!)
É verdade, o assunto nem saiu da moda e voltou, uma vez que o Joaquim nunca chegou a desmamar e Tomás veio que veio, encavalando um bebê de 20 meses re-interessado pelo sabor do leite e um bebê recém nascido que depende da coisa para sobreviver.

Essa mãe que vos fala tem algumas reflexões, novamente, eternamente, sobre o tema.
Uma vez dividi aqui minha experiência com o início da amamentação do Joaquim, que não foi fácil. Superamos 348 dificuldades, e conseguimos transpor paradigmas. Fomos de amamentação exclusiva para prolongada, de prolongada para lactogestação de lactogestação para... amamentação de gêmeos separados pelo tempo-espaço?

Não sei o nome da modalidade, atualmente.

Sobre amamentar um recém nascido

Eu havia me esquecido do cheiro gostoso que sai da boca deles, misturado com o cheiro do parto, das roupinhas limpas de sabão de côco, dos algodões com água quente. Esse cheiro é só de RN... que delícia, delícia (assim você me mata).

Por outro lado, menos glamour, amamentar um RN significa ficar cheirando a azedo 24h por dia. No ombro, nas suas roupas... não há soutien que vença a produção insana (o-de-io soutiens de amamentação, que desenha essas bostas? Já tentou usar um deitada? O peito escapa em to-dos os modelos que testei, fora as cores horrendas!).

O menino mama um peito o outro vaza. Detesto aquelas rodelas que abafam os seios (que de fato precisam respirar para não racharem, ainda que nesse turno eu não tenha tido nenhum problema. Calejada soy jo!). E se por um lado as roupas cheiram sabão de côco, em alguns minutos ficam com cheiro é de cocô mesmo. Mas desse cheiro eu até gosto. O leite é um milagre que deixa até cocô poético, parecido com manteiga. Coisa fofa.

O que posso concluir. Caraca, detestava quando eu lia, na época do primeiro turno de amamentação, os relatos das mães plácidas, que não sofriam com as boquinhas de gilete de seus RN's. Mas o mundo girou e eu estou aqui: plácida. Que delícia que foi começar a amamentar esse menino. Ele veio sabendo, pegou di-rei-ti-nho eu nunca precisei aplicar as técnicas do dedão, dedinho, recolocar o bicho no peito. Foi perfeito.

Uma parte da conclusão é: eu aprendi um pouco mais sobre me deixar sugar. E para amamentar esses bichos sedentos, é fundamental saber doar.

Nota: Se você leu essa frase e achou que eu julguei alguma mãe que porventura não tenha conseguido, ou tenha optado por não amamentar seu filho, ou que com isso eu quero diminuir a experiência de alguém, enganou-se bebê! Não estou julgando ninguém, esse é um relato autoral da minha experiência de amamentação de dois meninos, e sob algum ponto de vista pode despertar  reflexões positivas na mãe que é foi ou será amamentadeira, ok? Sem ressentimentos.

Portanto: não basta se jogar no trabalho de parto, tem que se jogar na leiteria também. E aqui esse início de relação bebê x peito foi exponencialmente mais fácil quando a mãe aqui percebeu que era preciso se deixar sugar. (E claro que mamilos calejados de 20 meses ajudaram também, néam?)

E sugam, viu? Não é só o leite. Eles tiram de dentro da gente o que de melhor temos para dar. E por isso meus olhos fundos, cansados, a magreza (#not hahahahaha). É preciso repor energias, sono, água e comida. Sobre o sono, falemos em uma outra era, quando eu souber do que se trata. Sobre a água, bebo muita e sobre comida... hummm que fome que dá!

Para finalizar o tópico: a medicina baseada em evidências e as estatísticas já apontavam. Mas eu concluí na pele e na intuição. O bebê de parto normal, vem com recursos certos para mamar. Não que a cesárea agendada seja impeditivo - taí o Joaquim. Mas dessa vez foi tudo no jeito, hormônios naturais, apojadura, boca de lampréia, forte para dedéu e chup, chup, chup...

Sobre livre demanda

Eu pensava sobre a livre demanda: chorou mamou. De fato, a pessoa racional que sou se convenceu com o argumento que segue.

Ok, o bebê está no útero, alimentado integralmente pela placenta. Nada entra em sua boca, nada sai de seu cuzinho. Ele acha que a vida é issaê e um dia Bam!! Tá aqui fora, agindo por reflexo, sendo um deles sugar. Alguém lhe coloca um mamilo na boca e dali sai um líquido docinho que mata um desconforto esquisito que ele sentia, na região da barriga - o raio do bichinho nem sabia até então que aquela parte do corpo existia. Chupa o leitinho, acalma a fome. A fome que ele nunca sentiu, que ele não sabia que existia.

Uma amiga minha disse: deve ser apavorante ser recém nascido. Deve mesmo, ainda bem que eles vem com mãe, que é para tornar essa experiência no novo mundo mais amável.

O bebê dentro do ventre não sabe o que é fome. Botar o coitadinho para mamar em horas específicas,  se tornou para mim uma crueldade. Mamou, agora ficaê que só tem de novo daqui à 4h. Eu não sou o Cirque de Soleil, com sessão em hora marcada então resolvi liberar o modelo 24x7.

Mas o que eu não sabia: a Livre Demanda é sobre não ter regras. Eu apavorei muitas vezes na amamentação do Joaquim. Achava que ele mamava demais e que eu não tinha leite (!!!). Eu achava da minha cabeça perturbada pelas regras que inventam sobre amamentação, sem prova nenhuma disso. Ele chorava a cada 40 minutos e ia para o seio, rachado. Eu passei semanas, amamentando num peito e tentando curar o outro - lutando com o sentimento de que estava fazendo errado.

A Livre Demanda é sobre: não tem errado, contanto que o seu bebê não esteja com fome. Nenhuma fome. Nem a do leite, nem a do colo, nem a do amor, nem a fome de sugar...

Então que Tom Tom foi apelidado de Piercing de Peito, pela @daniminu no twitter. Se ele não está dormindo, está mamando. Ele acorda e eu ofereço peito. Pego no colo e ofereço peito, ele arrota e eu ofereço peito. Não espero chorar. E se chora, leva peito também. E ponho no sling e ligo no peito e fico na internet com ele no peito, durmo, peito, acordo, peito... entenderam né? 

Estou construindo a confiança de que desta vez estou mais próxima do nosso ideal (que é para mim e meus filhos, longe do perfeito, que não existe... blá blá blá). De novo vem aquela sensação de que - ah! agora eu entendi qualé a dessa Livre Demanda, aquela sensação de eu já sabia na teoria, faltava sentir na prática.

Só posso dizer que recomendo fortemente, e que todas as praticantes iniciantes da Livre Demanda tenham a paciência de esperar o tempo que é necessário para compreendê-la, no começo pode ser assustador. Acredito com todas as minhas forças que ela é chave do sucesso para as histórias de amamentação.

Nota novamente: se você leu nessa última frase que quem não pratica LD não vai ter sucesso, não foi o que eu disse, cada um com sua história.

Sobre amamentar os dois
(uma pausa, que Tomás quer mamar hohoho)

A primeira vez foi no hospital, no dia que Joaquim conheceu Tomás.

Durante a gestação, ele chegou a ficar alguns dias sem pedir para mamar. Em alguns momentos eu cheguei a insistir, sem muito sucesso. Eu não queria que Joaquim desmamasse. Ao longo dos meses, ele foi e voltou algumas vezes. Mais perto do parto, estava pedindo mais, 2 - 3 - 4 por dia. Era nítida a conexão emocional com a coisa, uma vez que o leite deu uma desaparecida do meio para o final da gravidez, e ele se contentava, ou não, só com o colostro (que é uma vacina natural, então eu ignorei os pedidos de desmame esse menino que ele está muito grande se não vc vai morrer, ele vai morrer o bebê vai morrer todo mundo vai morrer, menos a Luiza, que esta-va no Canadá #sorry)

Então chegou no dia no encontro mais fofo do Brasil, e Tomás foi para o peito. Joaquim olhou com cara de ué. Mandou um solta! solta! E eu ofereci o outro peito para ele, e eles mamaram juntos. Foi lindo e emocionante. Mas agora a parte curiosa da história:

Algumas outras vezes isso aconteceu, de eu estar amamentando Tomás e Joaquim pedir e eu liberar o mamá para os dois simultâneo. Não gostei, eu comecei a ficar aflita. Sabe aquela parte do se deixar sugar? Então... acho que não estou preparada para o power plus suction simultaneous. É lindo ver o Joaquim fitando o Tomás enquanto mamam, mas eu me sinto absolutamente sem energia quando os dois mamam juntos. Cansada mesmo.

Sem contar, nos primeiros dias um estranho instinto de não querer que Joaquim mamasse enquanto Tomas estava no peito. Era a simbiose, o cordão invisível mamãe-Tomás, apitando que aquele era prioridade. Joaquim foi se acostumando a esperar a vez, coisa fofa. E me dando uma força incrível na hora de esvaziar a leiteria, que vou ticontá, chegou a avermelhar mastitelike duas vezes. Cruz credo eu tive mastite da primeira vez, não é mole.

Estratégia: toda vez que o Joaquim mama, eu digo "O Tomás deixa o Joaquim mamar, olha que legal"dimodisque ele mesmo começou a repetir "o Tumás deixa". Quando o Tomás está no peito e ele tem a crise do solta! solta! eu falo "Agora o Joaquim deixa o Tomás mamar, olha que legal..."e assim vamos contornando esses conflitos internacionais importantíssimos para a história da economia mundial. Joaquim vem ao peito e sai falando "... é do Zaquimmmm... é do Tumás...qué mamá com você...depois é o Tumááásss... "

É fofo. Em 1 mês de Tumás ele deu uma engordadinha. (e o que é estranho quando vc ganha o segundo filho reparar que o primeiro, que até ontem era um bebê de colo, é praticamente um adolescente? Alerta vermelho para não sobrecarregar o grandão com as responsabilidades fictícias que teria um irmão mais velho... still a baby, baby!!)

Joaquim me assustou alguns dias depois do nascimento do Tomás, em que não pediu para mamar. Eu repito, não quero que desmame, acho cedo. Depois de um tempo se lembrou do porque gostava tanto do negócio: e passou a mamar com fervor, e pedir diversas vezes ao dia.

Não quero que desmame, ok, mas aqui também não é a leiteria da mãe Joana. Enquanto Tomás segue na Livre Demanda enlouquecida das mamíferas selvagens Joaquim está no pacote Livre Demanda Flex-Mamma, que consiste em mamar quando eu julgo que carece. Quando está com fome, quando eu estou afins, quando é nítido que precisa de carinho ou quando a bucha de aprender a dividir a mãe com o irmão fica muito pesada.

Isso incluiu algumas mamadas na madrugada, que eu não estou afim de manter. Esse é um assunto a continuar observando, sei que ainda temos muita história pela frente, o leitinho, as crianças e eu.

Outro dia o Pedro me perguntou como era produzir o leite que as crianças tomam. Caraca! É muito louco! Cheio de detalhes, cheio de idas e vindas, erros e acertos, opções, desopções...

E pela minha preguiça mortal dupla carpada de fazer links nesse post, se vc quer saber mais sobre a jornada de amamentação dessa vaca que vos fala, clica na tag, ok? Já passamos por um tanto de coisa...

Beijos de Leite (azedo, dependendo da hora do dia)