Quando uma mulher faz opções por uma carreira, uma tendência da moda, um carro novo dificilmente é inquirida sobre seus motivos. Nunca precisa dar explicações: mas eu virei arquiteta porque.... sabe-se lá porque. Provavelmente ela achava aquilo legal, pensou que se sentiria realizada e que aquela opção era a melhor para a vida dela.
Quando uma mulher faz uma opção para o parto, e aqui me arrisco a estender essa reflexão para toda e qualquer opção que ela tome a respeito da criação e cuidados com o filho, parece natural que o círculo em que convive sinta-se curioso e atraído por seus motivos. Não interessa o que você escolhe, vai ter que explicar o porque.
Mas foi planejado? Você queria mesmo assim tão perto? Vai ser melhor se for menina, né? Oque? Você quer um parto humanizado, tá louca? Como você aguenta não saber o sexo do bebê? Porque não saber o sexo do bebê, a tecnologia está aí para isso? Você é índio? O que você vai fazer com o enxoval? E de que cor será o parto? Você não tem medo de morrer? E se a criança nascer com problema? Espero que dê tudo certo com você, mas que eu saiba, a cesárea é mais segura. Porque alguém gostaria de ter o filho no banheiro? E se vier menino tudo bem, né? Mas você sabe que pode ser que você não consiga, né? Porque a minha cunhada tentou 8h de parto e acabou em cesárea porque o bebê estava.... coloque aqui qualquer coisa que o bebê da cunhada dela tinha...
Não importa, existe uma permissão social declarada para que as pessoas dêem suas opiniões e de alguma forma tirem suas dúvidas, curiosidades ou mesmo projetem suas frustrações, culpas e angústias em uma grávida ou mãe.
Penso que isso pode vir do arquétipo da mãe mesmo, a que tudo explica, a que tudo aguenta, a que se dedica, a que se entrega.
E pode vir da insistência que mães tem em competir umas com as outras. Juro, eu tô fora! Mas se perguntar, vai ouvir.
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Eu estava na manicure, e o tamanho da barriga, minha cara de nunguento e a faxina geral denunciavam que o parto estaria mesmo próximo. No geral, eu tento respostas evasivas. Respostas completas sempre geram mais perguntas, e normalmente essas conversas viram embates de gente que não se compreende, pois curiosamente as pessoas que se interessam em saber os meus motivos para as minhas decisões dificilmente tem o mesmo nível ou qualidade de informação que eu. Óbvio, eu fui me informar, elas não.
Poucas me escutam afim de entender verdadeiramente os motivos, ou sequer traçar uma conversa baseada na troca de aprendizado. A maioria simplesmente entra na conversa na base da resistência, e não raro tentando me convencer a desistir das minhas idéias, ou traçar algum argumento baseado em nada: você é neurótica.
Gente que eu nunca vi, falando comigo sobre como o meu filho e a minha vagina vão sofrer.
Fujo da militância, mas qualquer discurso que envolva as minhas opções para o parto vira um discurso no palanque, ou uma briga.
A manicure encasquetou que não queria passar o esmalte rosa choque que eu escolhi.
- Mas não pode! Não pode! Tem que ser clarinho! Toda grávida que vai ter nenê passa só base.
- Pode ficar tranquilla, eu não tenho essa recomendação, eu quero o rosa mesmo.
- Mas os médicos não deixam.
- A minha deixa, pode passar o rosa.
Nessas o assunto já era comoção da moça do lado que interviu:
- Mas é porque o médico tem que ver a cor das suas unhas durante a cirurgia, pois existem sintomas que eles diagnosticam pelas unhas, e se você estiver de esmalte...
- Então, eu não estou planejando um parto cirúrgico. Eu realmente não tenho essa recomendação. Ademais, eu não sei quando o bebê vai nascer, então não há necessidade de eu ficar de base 3 semanas, né? Eu gostaria de colocar o esmalte rosa, você pode por favor passar o rosa? Sorrisinho...
Eu não disse que dar respostas completas pode ser uma cilada? De repente era o salão inteiro, de manicures e clientes me olhando com olhos de coruja. Com vocês, a sabatina da grávida:
- Você está de quantas semanas?
- Algo entre 37 e 39.
- Mas já pode nascer!
- Pode!
- E é menino ou menina?
- Eu não sei!
- E como você aguenta?
- Sorrisinho
- Não deu para ver ou você não quis?
- Eu preferi não saber.
- Você já tem filhos?
- Um menino.
- E você não agendou?
- Não.
- Mas na hora que chegar no hospital vão tirar o seu esmalte.
- Não está nos meus planos ter que ir ao hospital, mas se eu for podem tirar o esmalte.
- E que dia está previsto.
- Daqui uns dias. Pode ser o rosa mesmo, eu adoro rosa, bonito, né?
- Como assim? Não vai no hospital, via ter o filho em casa?
- Como a Gisele Bunchen.
- É, está na moda ter o filho em casa, agora tem um monte de mulher fazendo essa loucura.
- Você não tem medo?
- Tenho. Mas tenho medo de cesárea e barata também.
- Mas você sabe que se o nenê passar do tempo, ele pode morrer?
- E ele pode entalar n canal do parto e pode morrer?
- E você pode ter hemorragia e pode morrer?
É muito comum, mais comum do que a gente imagina uma pessoa que você não conhece colocar em risco a vida do seu filho baseada em... nada.
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As minhas escolhas com relação ao nascimento do meu segundo filho são baseadas nas minhas experiências de vida, e nas informações que eu colhi nos últimos 20 meses, a partir do momento em que percebi que a forma de vir ao mundo do meu precioso primogênito não era aceitável. Em linhas gerais, eu acreditei em algumas premissas.
- De que o parto é um evento fisiológico e natural, e que não pode ser encarado como um evento médico, pelo bem da humanidade.
- De que o bebê tem o direito de vir ao mundo em um ambiente e cercado de pessoas que estejam atuando com amor, por seu bem e exclusivo conforto, em seu tempo e atendendo suas necessidades reais.
- De que nesse momento de transformação intensa, a separação dos dois seres deve ser sutil e amável, e isso não inclui horas, sequer minutos, em um berçário ao cuidado de técnicos, nem injeções, colírios, corte precoce do cordão.
- De que à mãe, cabe o direito de escolha sobre todos os procedimentos aos quais for submetida.
- De que à equipe, sejam médicos, parteiros, enfermeiros, cabe o dever de informar os envolvidos e atuar profissionalmente baseados em evidências, para o conforto e preservação da vida e saúde dos envolvidos, e não em benefício próprio.
- De que os partos cirúrgicos salvam vidas e devem ser amplamente usados, somente quando necessários.
- De que a experiência de tornar-se mãe pelas vias previstas pela natureza originalmente deve ser mais completa do que um nascimento cirúrgico, do ponto de vista simbólico, emocional e espiritual. (já rebatendo um argumento que tenho ouvido muito: ninguém é menos mãe pelo tipo de parto que escolheu. concordo, não existe menos mãe, mas existem experiências mais e menos intensas)
- De que a parturiente deve se entregar ao processo natural do parto e abrir mão do controle do desfecho.
- De que a única forma de garantir que o nascimento de uma criança seja humanizado, é estar cercada de uma equipe humanizada.
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Quem pergunta quer saber. Quando as sabatinas acontecem e eu me vejo horas com vontade, horas sem escolha, de dar explicações sobre toda essa jornada, a maioria das mulheres se sente imediatamente agredida por minhas explicações.
Se voltarmos à arquitetura: Mas por que você resolveu ser arquiteta? Porque eu acho que essa é a profissão mais bacana do mundo! Ah, mas eu fiz engenharia e gostei... Parece conversa de louco.
No entanto é uma conversa absolutamente normal quando falamos de parto.
Por que você não quer anestesia? Porque eu quero passar por essa experiência! Ah, mas eu fiz cesárea e adorei...
Em frente aos argumentos sobre as escolhas que uma mãe tem para seu filho, é inevitável que outras se sintam julgadas, e entrem em uma fantasiosa competição. No ímpeto de protegerem suas culpas e frustrações, podem ser bastante reativas. Para quem está simplesmente relatando, por ter sido inquirida e não por puro esmero (garanto que eu não entro no salão de manicure anunciando: eu prefiro um parto normal e você também deveria!), essas conversas se tornam conversas sem fim, cansativas de fato.
Mas na maioria das vezes só vem a confirmar que informação é fundamental.
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Os argumentos menos interessantes do mundo começam com: mas eu. Isso não é um argumento é um relato de experiência, portanto deve estar locado em uma conversa trivial e não em uma sabatina jornalística, como é o que normalmente acontece com as grávidas e mães.
- Mas eu sempre comi (escreva aqui qualquer porcaria da nossa infância) e não morri.
Tem gente que pula de prédio e não morre, minha gente. Isso não é argumento.
- Mas eu fiquei em trabalho de parto 80 horas e não tive dilatação.
Tem gente que fica em trabalho de parto 4 horas e tem dilatação total.
- Mas eu sempre dei açúcar para meus filhos e eles estão ótimos.
Ah, que bom (enquanto na verdade minha vontade é dizer, tem certeza?)
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Se você chegou aqui, parabéns e obrigada. Espero ter sido algum entretenimento ou informação. Esse relato foi inspirado pela sabatina (real e sem anestesia) na manicure e em um
texto bacana encaminhado pela querida
Priscilla Perlatti. Se tiver um tempinho e algum conhecimento de inglês é um texto altamente recomendável...
"Diga que você planeja um parto sem analgesia e parece que você est;a falando que vai escalar o Kilimanjaro. Diga que você planeja ter seu bebê em casa e vão pensar que você vai subir a montanha sem os aparatos de segurança e kits de sobrevivência. É difícil falar de suas escolhas sem que as pessoas pensem que você está tentando competir com elas...."