Eu sou a melhor aluna da sala quando tem que fazer prova, sentada em silêncio. Quieta na minha. Eu nunca tirei uma nota vermelha na vida e sempre fechava as notas no terceiro bimestre. Nem ganhava muitos parabéns por isso, não fazia mais do que a obrigação.
Quando o assunto era trabalho em grupo, eu era excelente aos olhos dos menos atentos. A verdade é que eu nunca gostei muito de trabalhar em grupo. Quando via, já estava tirando dos outros a chance de fazer alguma coisa, e fazendo o trabalho sozinha, porque sempre fui uma chata exigente que preferia a minha "perfeição" às coisas "mal feitas"pelos outros. Ou seja, o trabalho nunca era em grupo, e algumas pessoas sabiam que podiam só pedir para colocar o nome no meu trabalho que eu deixava, contanto que a pessoa não me atrapalhasse, não desse pitaco. Uma leve tirana, nada legal.
Claro que com o tempo a vida me ensinou que as coisas não são bem assim, e fui aprendendo a viver em comunidade, trabalhar delegando, atender demandas e tudo ficou muito bem. Eu me esforço.
Maaaassss... tem uma coisa que me tira do sério: dinâmica de grupo.
Sabe aquela história: agora vire para o colega do lado e compartilhe a experiência blá blá blá?
Então, odeio. Eu não quero nem ver a cara do colega do lado, o que dirá compartilhar?
E aquele lance, se joga para trás que o amigo pega, vamos exercitar a confiança da equipe? Morro. E aquele lance biodança, que faz todo mundo girar em torno de si própios de olhos fechados e experimentar os medos, as tristezas, aí todo mundo chora e compartilha na rodinha? De-tes-to.
Então a bicha-do-mato engravida e aprende que muito, muito pouco se faz sozinha. Ontem eu dizia que estamos todos sós, hoje eu afirmo - não há como passar por essa experiência sozinha.
Especialmente em se tratando do caminho para o Parto Humanizado, é necessário apoio. O marido, um grupo de amigas, uma tribo. E também é necessário sijogar na colega do lado, abraçar a biodança e sapatear na dinâmica de grupo.
Porque maternidade é entrega.
Então eu fui numa dinâmica de grupo, sobre a DOR E O MEDO DA DOR.
A sala estava abarrotada de gestantes e alguns maridos, que pobrezinhos foram excluídos da atividade por falta de espaço, então ficaram como espectadores.
A proposta era trabalhar a imagem que fazemos da dor, tentando acessar o nosso centro de consciência através de atividades de meditação e relaxamento para trazer à tona concretamente como vemos a dor.
Foi simples, em poucos segundos depois do relaxamento conduzido, a mediadora solicitou que a gente transformasse aquela sensação que temos, ou imaginamos que temos da dor em um elemento do mundo animal, vegetal ou mineral: voilá, a minha dor são garras de um felino.
Desenhamos, eu desenho bem. Se minha dor tivesse vida teria matado todas as coleguinhas da sala. Eram garras fortes e tensas.
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| Em muitos anos de análise em terapia Junguiana, esses leões e felinos me aparecem com muita frequencia, em sonho. Dazia muito tempo que eu não os encontrava, mas sei que minha sombra é em forma de felino feroz. Que não à toa é também um símbolo do feminino. |
Relaxamos novamente e ela nos levou a pensar no oposto da dor. Se a não-dor fosse algo do mundo natural, o que seria?
Para mim veio o vento. Fresco e geladinho, quase como um tecido, voando suave e muito silêncio.
Mas com gosto de hortelã.
Desenhamos. Se minha não dor tivesse vida, todo mundo estaria em um estado de transe, de êxtase, de calma e paz. Era como ser embalada no colo do vendo, com gostinho de chiclete fresco.
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| Essa foi a primeira imagem da não dor, o véu no vento da Cyd Charisse em Cantando na Chuva. Não é lá do reino vegetal, animal ou mineral... e minha não dor é azulzinha, como a cor do feminino, de novo. |
Então ela pediu que comparássemos a dor e a não dor.
Elas ocupavam a mesma proporção do papel. Enormes e centrais.
Elas eram ambas orgânicas.
Elas eram bicolores. Uma preta e marrom, a outra em tons de azul.
Elas eram expressivas, e fortes. Igualmente.
O foco da dinâmica era ver, nitidamente que a dor e a não dor moram dentro da gente. São similares, se neutralizam. Temos, como parturientes a missão de encarar as garras do bicho, mas o vento geladinho está lá também. Basta ter a inteligência (e a orientação, a doula, o marido ou a sorte) de acessar esse conhecimento - que é nato, toda mulher sabe parir, toda criança sabe nascer - no momento do parto.
Aí veio a parte cocô. Vamos dançar a dor?
Oque? Na frente desse mondepai aí? Eu não.
Mas maternidade é entrega, ela disse. Você vai ter que parir, não vai? Quando chegar a sua hora, você vai colocar essa dor para fora ou vai tentar segurá-la? Por vergonha de gritar? Por medo de parecer ridícula?
Se você fugir da dor, o seu bebê não nasce.
Em alguns minutos lá estava eu gordona, dançando as minhas garras de leão. Eu podia ter me entregue mais, mas também sou malandrinha para burlar as regras... pretendo parir na frente do meu marido e só. Então fiz minha parte, e tá bom. Juro que na minha hora eu vou ser melhor em deixar essas garras me dilacerarem, sabendo que em pouco tempo vem em troca o vento do hortelã, em forma de filho.
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Para um final bem cafonão, a galera deu as mãos na roda. Eu sei, eu sei, eu sei... somos tribo. Mas dinâmica de grupo é cafona, ainda mais quando a atividade é: vamos cantar todos juntos!
Eis que começa a canção, que eu não conhecia: Hey dor, eu não te escuto mais... você não me leva a nada...
Nessa hora, meu marido estava ali na rodinha comigo. Foi cafna e legal. Gente sijogando na emoção, gente olhando para o chão.
Eram 10h30 da noite de um dia de filho, reunião, ensaio, yoga... sem janta ainda.
E-se-qui-ser-saber-pra-ondeu-vo-ou? Para onde haja sol! É para lá que eu vou!!
Eu e meu cúmplice cantávamos: para onde haja janta!! É para lá que eu vou!
Porque a gente se entrega, mas diversão é fundamental.
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Não vejo a hora de esse bebê nascer. Mas aprendi umas coisas muito legais essa semana. Pode parecer bobagem, mas sei a cara que ela tem. Tenho medo de não poder superá-la mas conheço também o que posso fazer para transformar. Não custa nada prever uma água geladinha com hortelã, para a hora do TP.
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Essa vivência foi feita na
Casa Moara.
A terapeuta transacional é a
Cláudia Xavier, que também realiza dinâmicas individuais, para minha sorte!
As imagens vieram do Google, pois eu não quis compartilhar no blog meus desenhos. Isso sim seria parir em público e a ocitocina é um hormônio tímido. Assim como eu, gosta de trabalhar sozinho.