Wiggle your toe
O
procedimento inteiro – sem a parte da espera – durou pouco pais de 18 minutos,
e Joaquim foi levado, Pedro foi levado e eu fiquei ainda alguns minutos no
centro, já devidamente costurada aguardando alguém me levar para a sala de
recuperação. Sozinha.
Quando
a moça entrou, perguntei se poderia ver o bebê. Ela falou, claro que sim! Já
já! A resposta deles é sempre perfeita para que a gente não enxergue a
gravidade das coisas. É absolutamente anti-natural separar um bebê de sua mãe
por qualquer espaço de tempo que seja, no momento do nascimento. A menos que
ela esteja mesmo à beira da morte, em uma UTI, não fazia sentido. Estamos
condicionados a encarar esse jájá com uma naturalidade questionável.
Para
onde ele foi? No berçário eles dão o primeiro banho e fazem uma série de
procedimentos padrão. Testes, pomadas, picadas. Enquanto eu escrevo esse
resgate eu vivo um dilema. – uma breve pausa para falar dele.
Saber
EXATAMENTE o que é feito com o recém nascido no pós parto é fundamental para a
minha jornada rumo ao parto natural, quem sabe domiciliar. Exatamente porque
sinto que, uma vez que eu descobrir, entender e refletir sobre esses
procedimentos, não haverá mais possibilidade de eu permitir que um filho meu
seja submetido à eles. Ao passo que investiga-los a fundo fará com que eu
encare o maior dos fantasmas: o que aconteceu com Joaquim no berçário pelas 2h
que seguiram seu nascimento até que eu pudesse mexer as pernas?
Essa
cena técnica, assim como todos os aspectos médicos que envolvem as
desnecesáreas, vai ficar de fora desse relato. Certamente referências virão e
nas 10 ou 12 semanas que me restam, esse assunto será elaborado. Mas só com o
que eu sei dessas horas, fruto da observação do Pedro, me sinto chateada o
suficiente para não recomendar o processo cirúrgico como forma de nascimento e
querer a todo custo evitar passar por isso de novo.
Pedro
diz que Joaquim apareceu atrás do vidro do berçário alguns bons minutos depois
que ele já estava lá a sua espera. Calculo que uma meia hora depois, ou seja
aproximadamente 60 minutos depois de ter saído da barriga. 60 minutos nas mão
de algum profissional que o pesava, media, calculava, banhava... não sei ao
certo. Permaneceu por mais de uma hora no berço aquecido, com o pai olhando do
lado de fora. O tempo que ficou no berço, ficou chorando.
Alguns
andares acima ou abaixo, qui-lo-sá? Estava eu na salinha da recuperação. Ali
havia diversas macas, separadas por cortinas, onde todas as pacientes da mesma
cirurgia esperavam, algumas mais outras menos, ansiosamente para poder segurar
seus filhos no colo. Todas sem exceção acabavam de ser separadas da sua maior
companhia, que esteve por ali, do lado de dentro nos últimos 9 meses. Os filhos
de algumas delas certamente descansavam. Eu sei que o meu chorou o tempo todo.
A
parte da recuperação é para mim igualmente se não mais traumática do que a
própria cirurgia. As enfermeiras insistiam, e insistiam que eu aproveitasse o
tempo que eu tinha para dormir, algumas com certa ironia: aproveite agora, você
vai precisar! Entendo a intenção. Mas era um pedido um tanto idiota. Eu acabara
de ter um filho, meu primeiro filho e estava ali imóvel, com soros e
equipamentos ligados ao meu corpo, uma leve e chata dor de cabeça e uma
insuportável coceira no rosto.
O
telefone tocava constantemente, eram maridos e pais conferindo se as recém
paridas estavam bem, quanto tempo faltava para que fossem liberadas, qual era a
perspectiva. A cada ligação, um comentário feminino. Algumas pressionavam as
enfermeiras, outras comentavam o quanto o pai daquela criança era bacana,
outras reclamavam que seus próprios maridos não haviam sequer se incomodado em
ligar. Muitas perguntavam dos filhos e eu me lembro de uma voz completamente
entorpecida dizendo, eu só penso nele... eu só penso nele... ele é lindo....
Chamei
a enfermeira duas vezes. Na primeira, pedi para ir embora, para poder ver o
Joaquim. Ela me dizze que eu precisava me recuperar e descansar. Perguntei se
eu não poderia descansar no quarto e me recuperar com ele no colo. Ela me disse
que eu só sairia dali quando eu conseguisse mexer as pernas, que era o sinal de
que a anestesia estaria passando. Perguntei quanto tempo isso demorava, e ela
respondeu: costuma levar 2h.
O
bip do equipamento que media meus batimentos? Minha pressão? Não sei, um
equipamento que bipa, me parecia algo muito perto de um segundo. Então passei a
contar os segundos, formando minutos. Agrupava-os de quinze em quinze e pensava
que faltava cada vez menos para eu ser liberada. De tempos em tempos fazia uma
força imensa para mexer os pés. Pensava com muita força que precisava me mexer.
Por um tempo, foi bem em vão.
Comecei
a sentir uma coceira insuportável, e foi a segunda vez que chamei a enfermeira.
Ela me disse que me daria algum remédio, se estivesse mesmo insuportável. Eu
fiquei com medo de aquilo ser mais um motivo para que me segurassem ali mais
tempo, e voltei atrás: é só uma coceirinha. Ela me deu uma toalhinha molhada
que foi minha companheira nos minutos que não passavam. Como eu disse, a
coceira era insuportável.
O
telefone do local tocava sem parar, com familiares atrás de notícias das
parturientes. Um deles foi do Pedro, querendo saber qual é? Qual foi? Cadê
minha mulher? A cada vez que a enfermeira desligava vinha até a cama de uma das
recuperandas e avisava: seu marido ligou, avisei que está tudo bem... lembro de
uma mulher que começou a reclamar alto, dizendo estar com raiva do marido,
aquele bandido não me liga, todas receberam ligações aqui menos eu, e alguma
outra respondeu por cima da cortininha. Esse tempo na recuperação é uma cena
tirada de um filme de Saramago. Lamúrias, raiva, gente chorando, gente querendo
ver o filho, gente quieta só esperando à meia luz, enfermeira com o resultado
do big fone e eu: mexe esse dedo, mexe esse dedo. Saída diretamente do filme Kill
Bill.
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