28/10/11
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GRAVIDEZ 1 X GRAVIDEZ 2

Esta gravidez nem se compara com a primeira, em nenhum ponto de vista. Aparentemente.

Peso? Menor
Não engordei tanto, como na primeira. me sinto mais disposta e isso se prova com minhas coxonas, que nunca foram lá um modelo de belezura, ainda habilmente descendo escadas com notebook embaixo de um braço e Joaquim encaixado na lateral da barriga, equilibramdo para não tropeçar no gato, e de chinelinho de dedo. Mobilidade, só na segunda gravidez a gente aprende.

Ansiedade? Menor
Não sei o nome do nenê, não sei o sexo. Não tenho tantas fotos, não fiz tantos ultras, nem tantas visitas ao GO. Minha GO não faz toque, só pede exames de sangue, o outro fazia.
Não tenho medo de perder o bebê, como eu tinha na primeira, não tenho certeza nenhuma sobre o parto, como eu tinha na primeira.

Cansada? Igual, talvez mais nessa.
Canseira em ambas, a combinação calor e último trimestre.
Na última semana do Joaquim eu empipoquei em alergias, ficava horas embebida em toalhas geladinhas para suportar o calor. Ontem notei as primeiras pipocas caloríticas, de novo na barriga. E são meio cocentas, e o calor não ajuda, e o povo não sente o mesmo calor que eu. Eu estou meio podre. E usando a pomada do Joaquim para passar a coceira (ele é um fofo e agora em toda troca de fralda me pede: qué passa quême nenê, ai de mim se não deixar)

Humor? Hum, depende.
Quero dar uma estrangulada em qualquer um que discorda de mim, por mais de 4 argumentos. Mas eu sou assim mesmo não grávida, dificilmente saio do sério, mas estrangulationfeelings constantemente me acompanham. Na primeira gravidez eu só chorava. Nessa virei natural born killer.

Fome? Nenhuma. Na do Joaquim eu era uma draga.
Mas morro de vontade de comer brigadeiro. Bolo de brigadeiro, brigadeiro de colher, na colher, na panela, na colher de pau, na colher de arroz. Pode ser na concha, brigadeiro de concha, com granulado preto, branco, duro, com chocolate belga ou pan.

Expectativas? As normais, de mãe de segunda.
Já sei que muito pouco se controla, mas muito se prepara, se prevê, se participa. Essa gravidez é de longe mais intensa, no sentido de ter me permitido conhecer o que de fato é uma gravidez. Sinto os movimentos diferentes, quase como se o enxergasse por fora. Sei dos braços e pernas do bebê, sei afinal oque é uma placenta, sua forma, o porque. Aprendi a não achar as comedoras de placentas umas loucas excêntricas.
Nessa gravidez eu aprendi muito, muito mais sobre o que importa.

É fácil dizer isso, sendo o segundo filho.
Não estou preocupada com enxoval, visitar maternidades, escolher carrinho, ler sobre amamentação, aprender sobre troca de fraldas, gastar a cabeça em contas de quantas fraldas pedir no chá... Isso é parte do combo de mãe de primeira, não tenho dúvida.

Quase difícil dizer isso, pois eu mesma há um ano ficaria bem puta ao me escutar dizendo: só se aprende de fato sobre maternidade quando se tem o segundo filho.


27/10/11
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BASTIDORES DE UMA BLOGUEIRA SEM EDITOR


Na alimentação diária – ou tentativa de – de um blog muita coisa acontece.

Eu tenho idéias de posts a cada 40 minutos, escrevo milhares de linhas mentalmente, especialmente no banho ou quando durmo. Esqueço uns 89% de tudo.

O que resta, vira post, vira série de post, vira página, vira fotografia, vira vídeo, vira ação. Tem um milhão de coisas começadas, aguardando solução outras tantas prontíssimas, aguardando vontade de eu querer postar.

Depois tem tudo o que vira idéia no Mamatraca, e por lá as coisas são ainda mais intensas! Roteiros, aprovações, reuniões, jargões.

Diário, não para. Infinitas palavras e pensamentos.

Então quando sento meu bundão para escrever para o Super Duper, meu filhinho querido, as teclinhas me dominam e os textos vão saindo. Não me acho nenhuma grande blogueira, mas eu mesma me agrado com meus textos. Tenho muitas leitoras queridas, pouquíssimas chatinhas e mesmo dessas eu gosto. E assim vamos.

Recentemente estou afastada dos comentários, que eram também diários nos blogs amigos. Mas ando lendo – ou tentando – muita coisa boa por aí. E muita coisa chatinha e mesmo dessas eu gosto. E assim vamos.

Então quando meu email anuncia um comentário aqui no blog eu queria que a pessoa estivesse do meu lado, para eu responder olho no olho. Eu queria ter o telefone, eu queria bater papo sobre aquilo. Eu tenho um jeito estranho de me relacionar com gente que não conheço, percebem?

Porque eu sou assim, intensa.

Então milhares de vezes eu me surpreendo: nossa! Essa pessoa captou isso, que bacana! Fico doida quando alguém divide a experiência comigo, acho de uma riqueza louca. Venero essa relação internética bizarra. Problema meu.

Às vezes, vou lá nesses enormes posts – lembrem-se quem tem preguiça de ler deve ir ao Mamatraca, onde tem muita figura, ou me seguir no Twitter, que é altamente editado, yet, cheio de palavrões. (sim, eu uso muitas palavras importadas)

Vou nos posts e começo a re-ler, procurando onde foi que aquela pessoa se tocou com o que eu disse, onde foi que eu compartilhei aquela informaçãoo, como foi que a interpretaçãoo saiu daquele jeito... e vou repensando tudo.

Gente, o que eu acho de erro de ortografia não está escrito. Ou melhor, está escrito – errado! Porque o bundão está sempre com pressa, entre 110 e 345 coisas (eu ia dizer uma coisa e outra, mas ah, se fosse assim simples).

Ando numa fase de escreveu não leu pau comeu. Tá errado mesmo, me perdoem eu sei escrever. Posso ainda perder a sutileza no tom dos posts, e parecer um tanto chatinha, mas adivinhem: eu gosto assim.

Porque é natural, honesto, rápido, do jeito que a vida está.

Esses dias ouvi dizer que o momento de maior lucidez de uma mulher é na gravidez. Acho que concordo. Sabemos que em contra partida, ficamos levemente emburrecidas. E dessa alquimia de hormônios e tempos de crise saem as mal traçadas linhas desse bloguinho, cheio de deslizes.

Em várias línguas, desculpa, tá? Para todos os gostos e para quem quiser.

Sorry,
Pardon,
Vafanculo

 ***

Nem vou re-ler se não eu não publico!

21/10/11
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QUIZ RELÂMPAGO

Eu estava aqui trabalhando e pensando que hoje não haveria postagem.
Meu primogênito de cabelos loiros (que vão escurecer, eu sei pessoal da areia) adentra a sala com o dedo indicador enterrado na narina esquerda até o punho.

- Irrgh! Joaquim, o que você está fazendo?
- Tiaando caca naiz.

Peguei o gutcho, limpei o nariz tipo mãe responsável, com lencinho. Nojo, tinha caca mesmo.

Qual é o próximo passo?

A) Ele aprende a limpar o nariz com lencinho, sozinho.
B) Ele aprende a assoar o nariz na roupa.
C) Ele aprende a pedir para limpar o nariz.
D) Ele aprende a tirar caca do nariz e colar embaixo do sofá.
E) Ele come.

20/10/11
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CANJICA P%$&A!!

- Oi filha, ele ficou ótimo. À tarde comeu meia manga e comeu um monte de canjica da bisa.


- O que?


- Comeu um monte de canjica da bisa.


- Como?


- Comeu, comeu, comeu!! Ele comeu canjica!! Não dá para segurar, ele e a Bisa juntos são um furacão, ela não me obedece e ele fica do lado infernizando, falando canjica, canjica, canjica sem parar!! 


- Mas tinha leite condensado na canjica?



- Tinha, tinha, tinha!! A canjica normal, da Bisa, ele tomou um copo com ela. Não dá! Não dá!!


- E se fosse cerveja você dava?

- Eu sabia que você ia falar isso.

- Eu sabia que canjica seria um problema.

- Ele gosta de canjica.

- Gosta porque vocês dão, se não dessem ele nem saberia o que é.

- É culpa da Bisa.

***

Corte seco, entra o maloca correndo na cozinha.

- Jica! Jica! Jica! Qué Jica! Jica! Jica!


A mãe que se gabava de nunca ter dado açúcar para o menino se joga da ponte. No funeral todos bebem canjica e celebram o fim do império da chata do açúcar.

The End

19/10/11
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JOAQUIM IOS - 5

Ele foi dormir, no dia em que Steve Jobs morreu. A partir do dia seguinte, nunca mais a vida foi a mesma:

No dia seguinte eu estava dando almoço e ele começou o tradicional "suco, suco, suco, qué suco, suco" ad infinitum até o suco aparecer no copo com canudo. Seguiu: "êêê suco! qué súco!" olhou muito sério para mim, e abraçou as mãozinhas ao redor do copo: "qué tomá suzinho". Nunca mais eu pude segurar o copo para ele.

Em outra refeição, estava se deliciando de "pacarrão", com a mamãe ainda lhe levando o garfo à boca, e sua colher sabiamente destinada para a familiarização do indivíduo com o talher, perambulava ali do lado. Do nada, pegou a colher com a mão direita, encheu de comida com alguma destreza e levou à boca. Joaquim comeu sozinho, viva! Mastigou e deu risada com a boca cheia de comida, e continuou. Matou o "pacarrão"em carreira solo.

Ontem a soneca da tarde foi na cama da avó, alta que parece uma montanha, cercado de almofadas como de costume. Eu trabalhando no escritório, minha mãe assistindo sua novela da tarde, só paramos para presenciar o lorinho de cabelo desgrenhado entrando na sala e anunciando "xaquim codô, codô". Desceu sozinho da cama, e não foi de cabeça. E diferente do comum, não acordou de mal humor.

Thank you Steve, por atualizar o software do meu filho. Estou no aguardo daquele das fraldas, que parecia que ia rodar que é uma beleza, mas acho que o sistema operacional recusou. Se der para manter o da cama, também agradeço, dezembro está chegando, vc sabe.

Ah! E um que dê uma facilitada na compreensão da palavra NÃO, para dar uma ajudada...

Bjos


17/10/11
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GANHANDO ÓCULOS

Sabe quando você faz alguma descoberta na vida e fica se questionando - como pude eu viver sem essa informação?

Ou ainda quando você aprende alguma coisa de forma que nunca, nunca mais você vai poder agir de outro modo, pois isso seria contra tudo o que você aprendeu?

Ou quando você é meio míope, e ganha óculos e sente o maior alívio, ah! Agora sim está fazendo sentido! Eu não conseguia ver isso antes!

***

Para a intensa jornada de optar por um parto humanizado, convidei minha mãe. Sentia que sem ela não poderia seguir em frente, ainda que muitas mulheres assim o façam. Só porque comigo é assim, eu gosto do apoio da minha mãe, e acho que vou gostar para sempre, enquanto eu tiver mãe. 
Não sei o que eu faria se ela se negasse a participar do jogo, mas como isso não aconteceu, paro aqui a hipótese de não sentir o apoio da mulher que me pos no mundo.
Ela não achou lindo de cara, me olhou com uma cara meio estranha, acho que ela também estava sem óculos, e minha melhor idéia foi oferecer para ela o livro que despertou em mim o início de tudo: Parto com Amor.

Alguns dias se passaram e ela me devolveu o livro. Já leu? Não. E nem vou ler. Eu li umas partes, vi as figuras. Eu entendi tudo. Você precisa que seu filho saia de dentro de você. Você está fazendo o que eu gostaria de ter feito. A gente precisa sentir passar o filho, a gente precisa parir, esse foi um direito negado às mulheres. Só agora eu entendi o porque eu me senti tão triste depois que vocês nasceram. Não vi aqueles bebês chegando, não sei de onde vieram, não senti nada. E depois ainda senti falta daquele bebê que estava dentro de mim, não sabia o que fazer com vocês, vocês choravam demais, eu me sentia vazia, eu não entendia de onde vocês vieram.
Eu vou te apoiar no que você quiser fazer, porque agora eu entendi o porque uma mulher precisa parir seu filho. Pode parir no mato se você quiser, eu vou estar lá.

E assim minha mãe ganhou seus óculos.

***

Convidar o marido não foi nem preciso. Ainda que também eu veja muita gente sem apoio por parte do pai da criança,  não foi o caso aqui. Igual minha mãe, achou um pouco estranha essa história de parir em casa. Mas não deu um pio, nem sequer questionou. É o que você quer, então tá bom. Só que nesse momento, ainda sem nenhuma informação. Concordou só porque confia (ou de medo do meu potencial de fazer um xilique, aham)

E as informações naturalmente foram chegando. Pelo livro, vem ler um blog, olha esse texto, sabe no que pensei? E de pouquinho o pai desse bebê tinha assim como eu alguma bagagem para suportar os percalços do caminho, que vieram e virão.

Foi então que fiz a série de relatos da cesárea que trouxe Joaquim ao mundo. Era só meu ponto de vista, nada além. Nenhuma tentativa de defender causa nenhuma, de justificar ou de racionalizar os fatos. Era uma busca terapêutica (ainda que pública, exposta e passível de julgamentos tanto quanto útil para quem pense parecido comigo e tenha ainda alguma chance de escapar do bisturi) de exorcizar meus demônios e tirar a limpo o que passou.

E como leitor fiel desse blog, o pai me acompanhou nos relatos. Tanto na hora de escrevê-los, pois algumas coisas eu não lembrava mais, como na hora de lê-los publicados. Você leu tudo? Não. Eu não queria chorar, tem coisas muito tristes ali.

Um dia, me disse: no próximo parto eu não vou tirar foto nenhuma. Aliás, quando se trata dos nossos filhos, eu nunca mais queria tirar foto nenhuma. Pois quem tira a foto, escolhe não viver o momento para registrar o momento. Eu não gosto da sensação de ter perdido momentos da chegada dele ao mundo, ainda que os tenha visto, não os vivi, pois meus olhos estavam atrás da câmera. Me incomodou também o fato de outras pessoas estarem ali e eu me distrair com a conversa delas. Com papos bobos dos médicos. Porque eu não mandei todo mundo calar a boca, para ouvir só o que importava? Meu filho chegando ao mundo.

Sem querer, como me parecia o momento mais adequado para confirmar para sempre a decisão do parto humanizado, sem competir, mas inevitavelvemte lhe oferecendo o ponto de vista de uma forma um tanto egoísta, eu retruquei: sinto o que você está falando! Conheço de cor essa sensação, de ser privada do momento. Imagina eu, que estava amarrada, morta das pernas para baixo, aberta em 8 camadas e dopada de remédios....

Não consegui nem terminar a comparação e na cara dele apareceram as lentes que lhe fizeram ver o porque aquela forma de trazer um filho ao mundo não é, para a minha família e um dia quem dera para ninguém, nem nunca mais será uma opção.

E assim meu marido ganhou seus óculos.

daqui

14/10/11
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ESTOU VIVA E FUI ALI CONTAR UM CAUSO


Uma vez eu disse que estava esperando a fase caótica do final da gravidez... EI-LA.
Pensa numa zona.

Então eu fui ali, do começo da primeira gravidez. Percebam o rosto lindo e fino.
#saudade

Bjo bom fim de semana

Pensa numa topeira que foi pro PS só pq estava grávida....

11/10/11
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RESULTADO DO SORTEIO #3 - WHAT MOMMY NEEDS

10/10/11
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BACK TO REAL LIFE - ESTOU ATRASADA - O APELIDO INEVITÁVEL

Hello, Civilização.
Obrigada por todos os comments queridos na última semana, ainda que de férias acompanhei tudinho e me emocionei com vocês. Se eu tivesse 1 real para cada comment querido eu teria 102 reais. Obrigada de coração.

***

Agora ao que interessa: estou atrasada para publicar o resultado do Sorteio What Mommy Needs! Isso porque meus neurônios estão em mode férias e eu não consegui ainda fazer o videozinho. Boa notícia? Ainda dá para participar, e o sorteio corre amanhã, ok?

***

Quiz Relâmpago: Uma semana de praia e Joaquim ganhou um apelido inevitável, quem adivinha?



A) Haule
B) Filho da neurótica do 205
C) Alemão
D) Francisco
E) Bicho de goiaba


08/10/11
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O "C" DO VBAC - PARTE 7 - E ÚLTIMA


Mande flores e um cartão

Quando você faz uma cesárea, comodamente agendada pelo seu médico, em uma sexta feira uma das coisas para a qual você precisa estar bastante preparada são as visitas. Todo mundo pode dar um pulinho no hospital durante o fim de semana e se como eu você tem infinitos amigos queridos – todos eles irão.

As visitas são uma questão bastante confusa para mim, eu me sentia dividida. Absolutamente amava o fato de poder dividir a alegria da chegada do meu filho com as pessoas que gostam e de coração amei ver cada um de seus rostos, receber seus sorrisos e passar meu filho por alguns minutos para seus colos. De avós a amigas do trabalho, Joaquim foi muito amado e celebrado por todos. Isso foi muito bacana.

Mas na prática, e me perdoem minhas visitas, por favor não se ofendam: visita em maternidade para mulheres recém operadas deviam ser proibidas. Eu mesma já visitei amigas recém paridas, até mesmo porque hoje em dia parece ser falta de educação não ir vê-las enquanto a sonda ainda está passada e os bem nascidos estão fresquinhos em cima da bancada. Mas honestamente, sou contra.

Eram 9h da manhã, eu havia passado a madrugada em claro, obviamente. Tentando absorver aquele fato, aquela cirurgia. Amando loucamente meu RN, curtindo horrores cada detalhezinho do seu corpo. Prestando atenção na pega, no biquinho, nos barulhinhos, na amamentação, algo para qual eu surpreendentemente estava mais preparada do que para o parto.

Começaram a chegar as visitas. Nos dois dias em que eu estive no hospital eu recebi visitas absolutamente em todos os momentos, das 9h da manhã às 9h da noite. Não houve uma refeição minha ou um banho em que alguém não estivesse no quarto me observando, pegando Joaquim, trocando amenidades com o Pedro ou prestando atenção na TV. E determinados momentos, era tanta gente que o público se revezava dentro e fora do quarto.

Menos de 12h depois do parto, eu já havia levantado, tomado banho, retirado os acessos do braço e a sonda. As enfermeiras me disseram que eu podia sentir um pouco de dificuldade de fazer xixi, mas eu estava ocupada conversando com alguém e não tive interesse em me informar mais sobre o assunto. Burra eu.

As horas iam se passando, eu cheia de sede e amamentando quase non-stop. Quem apareceu  para visitar em algum momento que Joaquim não mamava, deu sorte de poder pegá-lo no colo. Quem apareceu enquanto ele mamava, deu sorte de ver meu peitão cheio de veias roxas, estufado como uma bexiga.

Bexiga né? Lá pelas tantas, eu senti uma certa vontade de fazer xixi. Fui ao banheiro e não consegui. Prossegui no pegou lembrancinha? Não... não está doendo. Que om que você veio, e algum tempo depois a vontade era insuportável, nível, eu achei que a minha bexiga ia explodir. As visitas, ainda que tenham ouvido minha conversa com a enfermeira, não pareciam se incomodar com palavras como sonda de alívio, bolsa de água gelada na genitália e demais gracinhas do universo pós parto cesáreo. E lá permaneceram. Em um dado momento, já desesperada, eu me tranquei no banheiro e me pus a chorar. Passou um tempão até que alguém percebesse que eu não estava mais no quarto. O Pedro veio checar e eu implorei que pedisse para que as pessoas fossem embora, para que chamasse a enfermeira que a coisa era séria.

Esse momento do pós parto é de uma esquisitice sem fim. Sua vida acabou de mudar para sempre, no meu caso, vias uma cirurgia de grande porte cheia de peculiaridades na recuperação – como dificuldade de fazer xixi e facilidade de fazer cocô, que ainda me acometeria no dia seguinte, causando stress maior ou igual na interface visitas X mulher pós operada com RN pendurado ao peito. Mas os demais seres do mundo não estão passando por essa mudança. Nem as enfermeiras, nem os familiares, nem os amigos. Foi ali que eu senti pela primeira vez aquela famosa solidão materna, de quem se sente infinitamente e para sempre incompreendida: como pode alguém permanecer no quarto enquanto vê que eu me ausento de 10 em 10 minutos para ir ao banheiro. Não será essa uma dica suficiente de que aquele momento é íntimo e delicado?

Hoje penso que para a horda de amigas que enfileiradas aguardam o momento de passarem pela chegada de um filho, tenho um plano. Pretendo saber com muita sinceridade se a pessoa espera que eu vá vê-la. Às vezes as pessoas fazem questão e se decepcionam caso não recebam visitas. Se for indispensável visita-las, que seja bem rapidinho. E que durante a visita meus olhos e atenção estejam voltados para a mãe, perguntando a ela se precisa de algo, respeitando os momentos que me parecerem íntimos e tentando ser quase invisível. Nos casos em que visitar não for nada obrigatórios: flores e um cartão. Alternando crises de choro compulsivo e momentos de felicidade extrema – sim, dividida com os queridos, a intensa visitação não foi de todo ruim, eu sobrevivi aos dois dias de hospital. 

Meu médico, passou por duas vezes no meu quarto em um período que somado não deve ter ultrapassado 5 minutos. A última coisa que ele me disse foi – passe no consultório em alguns dias, para retirarmos os pontos e eu te prescrever um anticoncepcional. Eu nunca mais vi a cara daquele médico.

Outro dia, li que quando a gente confia a saúde a um médico de convênio, que chega a receber algo em torno de 25 reais por consulta, sabemos que dele não se pode esperar muito. Não se pode esperar muito de alguém que receber pela consulta o valor de uma manicure.

Ontem eu fui fazer as unhas, ela levou 30 minutos. Ponto para as manicures.

Cumprindo o papel de ainda estar dentro da barriga.

07/10/11
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O "C" DO VBAC - PARTE 6


E foi ali que ele nasceu

Finalmente comecei a sentir alguma coisa nas pernas. Perguntei para a enfermeira ha quanto tempo eu estava lá e ela disse: ainda não deram duas horas. Porque você não aproveita e dorme? Você vai precisar. Hoje se eu ouvisse isso, provavelmente responderia alguma coisa cheia de palavrões para a moça, que não falava de maldade, mas de pura insensibilidade frente a uma triste realidade: os partos são muito desumanos e está todo mundo bem acostumado com isso.

E quanto mais a sensação das pernas voltava, mais a tal coceira diminuía e mais eu tentava mexer as pernas e ia ficando ansiosa. Nessa hora senti uma fome montra, já estava em jejum ha um tempão, não lembro o quanto. Foi a primeira coisa que eu senti que me fez tirar a cabeça do Joaquim e da vontade de vê-lo e de sair logo dali. Nessa hora eu queria ver o Joaquim, se possível com um x-salada na outra mão. Abafa.

Eis que minhas pernas mexeram e a dona do presídio assinou meu habeas corpus e de maca eu fui... para o quarto. Lá já estava o Pedro, com uma cara de perdido que só vendo. E na hora eu perguntei para ele, cadê o Joaquim? Ele me disse que acabara de subir para o quarto, pois já era madrugada e não permitiam mais que os acompanhantes ficassem circulando pelo hospital. Eram 1h30 da manhã.

Me serviram um lanche – torrada com chá. E nada do meu bebê. É impossível naquele momento insistir mais do que um simples: tragam ele por favor? Eu quero vê-lo. Como ele está? Ele chorou muito? Toda a equipe envolvida em um parto hospitalar parece ser treinada para dar respostas-manteiga, com um sorrisinho na boca e laços de fita no cabelo, sempre com um remedinho, uma injeçãozinha, uma bolachinha, uma coisinha antes de qualquer coisa que você queira ou precise fazer. Eu precisava ver meu filho. Ele já vem, ele já vem... coma um pouco!

E antes da última torrada ele chegou. Aquele momento, se eu posso ter a honra de sentir algo mais próximo de um nascimento sem tantas interferências médicas e cirúrgicas, foi o momento que ele nasceu para mim. Veio quietinho na roupa azul marinho que eu tinha separado, com as duas mãos descansando em cima do peito, meio dormindinho. Eu quase morri quando finalmente a enfermeira o colocou no meu colo. Eu queria apertar ele tanto, eu queria comer aquela cabecinha de tanto amor. Algumas pessoas descrevem a formação do vínculo, a descoberta do amor no pós parto como um trabalho intenso, que leva tempo. Muitas mulheres não se sentem amando as crias tão logo elas chegam, e é algo bem normal. Mas comigo não foi assim. Tive a sorte de ainda que operada, entupida de remédios e hormônios artificiais os caminhos do amor entre o Joaquim e eu estavam bem abertos, e o sangue correu por ali rapidinho: meu coração bateu mais rápido, e eu senti meus peitos encherem. Não era leite ainda, e eu nunca soube o que é apojadura, mas em poucos minutos de colinho, depois de um olho no olho que eu nunca poderei esquecer, e que me leva a lágrimas compulsivas nesse momento, ele abriu a boquinha perfeita para mamar, e começou no seu chup chup chup.... como faz até hoje.

Foi ali que ele nasceu para mim.

Me olhava com tanto amor, não tinha mais a cara de susto da sala do parto. E ficamos na madrugada só nós três, eu curtindo cada centímetro, curiosa para ver o resto do corpo, já vestido. Com medo de despí-lo – e se quebrar? E se não puder? Será que as enfermeiras deixam?

As cesariadas (com o agravante se forem pessoas altamente preocupadas com as regras das instituições, como eu sou) podem se colocar em um estado total de subjulgamento. Era meu filho, eu poderia tê-lo despido se quisesse. Fui conhecer suas perninhas tortas, seu umbigo feioso e o resto daquele corpitcho que foi inteiramente construído dentro de mim, desde a primeira célula, somente no dia seguinte. O dia seguinte. Uma experiência e tanto.

Ele puxava os cabelinhos enquanto a gente se conhecia: ai caramba é ESSA minha mãe?

06/10/11
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O "C" DO VBAC - PARTE 5


Wiggle your toe

O procedimento inteiro – sem a parte da espera – durou pouco pais de 18 minutos, e Joaquim foi levado, Pedro foi levado e eu fiquei ainda alguns minutos no centro, já devidamente costurada aguardando alguém me levar para a sala de recuperação. Sozinha.

Quando a moça entrou, perguntei se poderia ver o bebê. Ela falou, claro que sim! Já já! A resposta deles é sempre perfeita para que a gente não enxergue a gravidade das coisas. É absolutamente anti-natural separar um bebê de sua mãe por qualquer espaço de tempo que seja, no momento do nascimento. A menos que ela esteja mesmo à beira da morte, em uma UTI, não fazia sentido. Estamos condicionados a encarar esse jájá com uma naturalidade questionável.

Para onde ele foi? No berçário eles dão o primeiro banho e fazem uma série de procedimentos padrão. Testes, pomadas, picadas. Enquanto eu escrevo esse resgate eu vivo um dilema. – uma breve pausa para falar dele.

Saber EXATAMENTE o que é feito com o recém nascido no pós parto é fundamental para a minha jornada rumo ao parto natural, quem sabe domiciliar. Exatamente porque sinto que, uma vez que eu descobrir, entender e refletir sobre esses procedimentos, não haverá mais possibilidade de eu permitir que um filho meu seja submetido à eles. Ao passo que investiga-los a fundo fará com que eu encare o maior dos fantasmas: o que aconteceu com Joaquim no berçário pelas 2h que seguiram seu nascimento até que eu pudesse mexer as pernas?

Essa cena técnica, assim como todos os aspectos médicos que envolvem as desnecesáreas, vai ficar de fora desse relato. Certamente referências virão e nas 10 ou 12 semanas que me restam, esse assunto será elaborado. Mas só com o que eu sei dessas horas, fruto da observação do Pedro, me sinto chateada o suficiente para não recomendar o processo cirúrgico como forma de nascimento e querer a todo custo evitar passar por isso de novo.

Pedro diz que Joaquim apareceu atrás do vidro do berçário alguns bons minutos depois que ele já estava lá a sua espera. Calculo que uma meia hora depois, ou seja aproximadamente 60 minutos depois de ter saído da barriga. 60 minutos nas mão de algum profissional que o pesava, media, calculava, banhava... não sei ao certo. Permaneceu por mais de uma hora no berço aquecido, com o pai olhando do lado de fora. O tempo que ficou no berço, ficou chorando.

Alguns andares acima ou abaixo, qui-lo-sá? Estava eu na salinha da recuperação. Ali havia diversas macas, separadas por cortinas, onde todas as pacientes da mesma cirurgia esperavam, algumas mais outras menos, ansiosamente para poder segurar seus filhos no colo. Todas sem exceção acabavam de ser separadas da sua maior companhia, que esteve por ali, do lado de dentro nos últimos 9 meses. Os filhos de algumas delas certamente descansavam. Eu sei que o meu chorou o tempo todo.

A parte da recuperação é para mim igualmente se não mais traumática do que a própria cirurgia. As enfermeiras insistiam, e insistiam que eu aproveitasse o tempo que eu tinha para dormir, algumas com certa ironia: aproveite agora, você vai precisar! Entendo a intenção. Mas era um pedido um tanto idiota. Eu acabara de ter um filho, meu primeiro filho e estava ali imóvel, com soros e equipamentos ligados ao meu corpo, uma leve e chata dor de cabeça e uma insuportável coceira no rosto.

O telefone tocava constantemente, eram maridos e pais conferindo se as recém paridas estavam bem, quanto tempo faltava para que fossem liberadas, qual era a perspectiva. A cada ligação, um comentário feminino. Algumas pressionavam as enfermeiras, outras comentavam o quanto o pai daquela criança era bacana, outras reclamavam que seus próprios maridos não haviam sequer se incomodado em ligar. Muitas perguntavam dos filhos e eu me lembro de uma voz completamente entorpecida dizendo, eu só penso nele... eu só penso nele... ele é lindo....

Chamei a enfermeira duas vezes. Na primeira, pedi para ir embora, para poder ver o Joaquim. Ela me dizze que eu precisava me recuperar e descansar. Perguntei se eu não poderia descansar no quarto e me recuperar com ele no colo. Ela me disse que eu só sairia dali quando eu conseguisse mexer as pernas, que era o sinal de que a anestesia estaria passando. Perguntei quanto tempo isso demorava, e ela respondeu: costuma levar 2h.

O bip do equipamento que media meus batimentos? Minha pressão? Não sei, um equipamento que bipa, me parecia algo muito perto de um segundo. Então passei a contar os segundos, formando minutos. Agrupava-os de quinze em quinze e pensava que faltava cada vez menos para eu ser liberada. De tempos em tempos fazia uma força imensa para mexer os pés. Pensava com muita força que precisava me mexer. Por um tempo, foi bem em vão.

Comecei a sentir uma coceira insuportável, e foi a segunda vez que chamei a enfermeira. Ela me disse que me daria algum remédio, se estivesse mesmo insuportável. Eu fiquei com medo de aquilo ser mais um motivo para que me segurassem ali mais tempo, e voltei atrás: é só uma coceirinha. Ela me deu uma toalhinha molhada que foi minha companheira nos minutos que não passavam. Como eu disse, a coceira era insuportável.

O telefone do local tocava sem parar, com familiares atrás de notícias das parturientes. Um deles foi do Pedro, querendo saber qual é? Qual foi? Cadê minha mulher? A cada vez que a enfermeira desligava vinha até a cama de uma das recuperandas e avisava: seu marido ligou, avisei que está tudo bem... lembro de uma mulher que começou a reclamar alto, dizendo estar com raiva do marido, aquele bandido não me liga, todas receberam ligações aqui menos eu, e alguma outra respondeu por cima da cortininha. Esse tempo na recuperação é uma cena tirada de um filme de Saramago. Lamúrias, raiva, gente chorando, gente querendo ver o filho, gente quieta só esperando à meia luz, enfermeira com o resultado do big fone e eu: mexe esse dedo, mexe esse dedo. Saída diretamente do filme Kill Bill.

Judiação...

05/10/11
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O "C" DO VBAC - PARTE 4


O centro cirúrgico

Fiquei no centro cirúrgico já com acesso no braço, onde me davam não sei o que na veia por mais de 1h. O médico estava atrasado, pois estava atendendo um parto normal. Provavelmente alguma sortuda que entrou em TP antes de ser encaminhada para  faca. Azar meu, que queria pelo menos ter sentido os sinais que o corpo dá para parir um filho. Esperei o médico chegar, não havia outra opção. Talvez essa fosse mais uma oportunidade para escapar de lá. Mas meu braço já estava amarrado em um dos suportes.

A cena do nascimento de um bebê via cesariana não parece nem de longe o que eu sinto que deve ser a chegada de um bebê ao mundo. O ambiente é hiper iluminado e frio, gelado. Todos os envolvidos são profissionais de saúde, acostumados com esse procedimento e por isso bastante descolados. Conversam sobre carros, assassinatos de o líder do BBB durante todo o tempo. No meu dia conversavam sobre a condenação do casal Nardoni, falavam de como seria o fim de semana e entre um papo e outro me orientavam sobre o que fazer.

Parece ser obrigação do anestesista informar quais serão as sensações depois da picada – dor, ardor, dormência, falta de ar, náuseas. Tive tudo, totalmente suportável. Mas novamente, dá medo. A tal da picada horrível na coluna nem senti.

Nessa hora me pediram para deitar e o Pedro chegou. Estenderam um pano azul na minha frente e amarraram meu outro braço. Quando eu digo amarraram é assim, posição de crucifixo. Em um braço o acesso aos medicamentos, sabe-la-o-que e no outro o monitor de pressão. Em um dos dedos o dos batimentos cardíacos e diversos eletrodos pelo corpo. A mãe fica totalmente imobilizada. Ela não pode enxergar nada do parto. Costumo dizer que o momento mais feliz da minha vida eu não vi. Eu só ouvi. A partir daí eu só conseguia mexer a cabeça e avaliava o que estava acontecendo pelos olhos da minha mãe, do lado de trás do vidro e pelos gritos do meu marido.

A mãe que opta pela cesárea, dentro dos mesmos modelos que eu – na rede particular, de um hospital bastante frequentado e conhecido por bom atendimento às parturientes e com um excelente centro de apoio e UTI neonatal – deve saber que quando o bebê finalmente sair da barriga, ela não vai poder segurá-lo, no máximo consegue cheirar, beijar e encostar as pontas dos dedos no corpo já embrulhado em lençóis e com uma touquinha.

O médico, minutos antes dessa estreia, movimenta loucamente o bebê por fora da barriga. Eu fiquei me questionando se as dores que eu sentia depois eram do corte ou dessa leve “surra” que a gente toma para que eles posicionem o bebê. Todo o procedimento de cortes dura menos de 8 minutos. E dependendo do humor do médico, ele pode ir explicando para o pai da criança quais são os nomes das camadas que ele disseca. Foi assim na minha cirurgia.

É silencioso e esquisito, quando o bebê chega. O marido normalmente grita, e as pessoas atrás do vidro vibram e choram. Eu fiquei esperando para ver o que se sucedia depois. Eu via um pano azul, todos de costas se abraçando e o topo das cabeças dos envolvidos. Se eu tentasse me levantar, o anestesista me segurava.

E a equipe narrava que o bebê chegou. Não sei o que acontece ali em baixo, mas julgo que eles cortam o cordão, dão uma geral com panos no bebê, já vi na televisão que aspiram suas vias aéreas e demais procedimentos. Em uma fração de segundo o médico trouxe o Joaquim para perto de mim, para me mostrar. Essa cena é mais uma que muito me chateia: me mostrar?

Ele  segurava com uma mão o pescoço e com outra as duas pernas entre os dedos. Joaquim tinha cara amassadinha e quase chorando, mas ainda só resmungava. Os braços esticados e os dedinhos tensos. Imagino que essa pressa em trazê-lo para eu ver e depois mostrando no vidro para a família, para depois coloca-lo sozinho na balança, voando em questão de segundos pelo ar deve ser algo mais do que agoniante. Entendo que em um parto natural, ou normal que seja o bebê deve passar por diversas sensações esquisitas, quiçá de medo e tensão. Mas o vôo livre, do corpinho desprotegido pela sala fria me parece um tanto mais cruel. Aquele bebê não imaginava tamanha aventura, nem mesmo com toda a minha boa intenção em alerta-lo de que algo inédito estava para acontecer.

Quando foi colocado na balança passou a chorar muito. Eu só ouvia, só ouvia. Pedi algumas vezes para que me devolvessem. Mas a condição da mãe numa cesárea é de fato a menos favorecida. O que se espera de uma mulher amarrada, inerte das pernas para baixo, aberta em 8 camadas, nua e gelada e completamente grogue de anestesia? Que ela se reduza à sua condição de paciente e espere o curso natural das coisas.

Ele voltou voando, dessa vez todo enrolado para um pouco mais de reconhecimento. Dessa vez consegui olhar, ele tinha os olhos abertos e me viu, piscou, piscou e fazia uns barulhinhos com a boca que eu jamais vou esquecer. Eu lembro do cheiro e como pude tentei acaricia-lo. Com as pontas dos dedos e com a boca, senti seu gostinho salgado, que ficou comigo por muitos minutos depois. Foi imediata a cumplicidade, ele sabia que eu não pude fazer melhor por ele. Que eu permiti que todos os procedimentos que se seguiriam fossem feitos. Mas me olhava com intimidade, entendendo que ainda que eu não pudesse consolar seu choro, oferecer o peito, calar a equipe médica que não respeitava seu primeiro momento comigo, eu estaria por ele dali para o resto da vida. E tentaria fazer melhor. Mas teria ainda que aguardar um pouco. 


04/10/11
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O "C" DO VBAC - PARTE 3


Hoje meu filho chega às 21h

Não vou me estender aqui, e nem é meu objetivo (lembrem-se não sou militante de nada) sobre o que seriam causas reais e causas não reais para se indicar uma cesárea às 38 semanas. Existem infinitos blogs, sites e referencias na internet que podem delinear esses limites.

Vou me limitar a dizer que na minha gestação – com todos os sinais vitais do bebê normais, eu saudável e sem nenhum sinal de trabalho de parto, o Joaquim foi trazido ao mundo prematuramente, às 38 semanas de gestação, baseadas na DUM – data da última menstruação. Depois de nascer, quando eles conseguem determinar a verdadeira “idade” do bebê, baseado numa sequência de sinais e reflexos do recém nascido, foi constatado que Joaquim nasceu de 37 semanas.
Não tivemos por sorte nenhum problema. Ele veio ao mundo saudável, e muito lindo.  Foi amado e celebrado por toda a família, que pode assistir a cirurgia através do vidro da sala. Confesso que sinto uma pontinha de orgulho de ter podido dividir com minha mãe a sua chegada, minha mãe especialmente. Mas hoje sei que isso é possível, de uma forma mais humana. Essa é a lembrança que eu tenho da cesárea: espero não ser ofensiva para aquelas que não se importaram em passar por esse procedimento, mas acima de tudo que quem ainda está no momento de decidir e avaliar como será a chegada de seu filho ao mundo, possa ver do meu ponto de vista como é o procedimento.

Cheguei no hospital com hora marcada, e isso me incomodava demais, porque eu pensava que o bebê estava ali dentro, dormindo e que em algumas horas seria tirado de lá sem aviso. Mentalmente conversava com ele e tentava explicar, que algo muito surpreendente aconteceria, que ele passaria por uma transformação, que ele sentiria novos gostos, cheiros, veria um novo mundo.

Assinei uma infinidade de papéis que diziam em suam que eu isentava o Hospital e a Equipe Médica de qualquer responsabilidade civil caso algum imprevisto viesse a acontecer no parto e eu, o bebê ou eu e o bebê tivéssemos alguma sequela ou viéssemos a óbito. Sim, você tem que assinar isso aí.

Perguntei para a aeromoça – ou melhor, recepcionista do hotel – ou melhor, da maternidade o que aconteceria se eu não assinasse aquela tralha. Ela me avisou: a gente não te interna. Tava aí a minha deixa para ir embora, mas não estou aqui a questionar o que já passou,  e sim somente narrando os fatos e as sensações reais do dia do nascimento do Joaquim.

Depois de instalada me deram uma roupinha de cirurgia, dessas transparentes e vexatórias, com as costas abertas com cordinhas e a frente transparente. Tinha touca e acho que um sapatinho também. Me disseram, sua cesárea está agendada para as 9h. Vista-se às 8h, que viremos te buscar.

Passava das 8h30 e eu já com a roupinha deprimente, esperava. Veio uma enfermeira e fez um questionário incrível. Coisa de louco, um milhão de perguntas, algumas sem pé nem cabeça. Alguém concorda comigo que participar do Show do Milhão minutos antes de ver a carinha do seu filho não combina?

Novamente me incomodei. Quantas, perguntas! Depois veio outra moça, e perguntou mais coisas. Algumas eu já havia respondido e perdi a paciência. Ela me explicou que a primeira era novata. Tentei relaxar.

Era 9h15 e me levaram para o Centro cirúrgico. O Pedro me acompanhou até a porta e eu estava simplesmente morrendo de medo. Sem grandes dramas, nada aconteceu a cirurgia foi um sucesso, a recuperação não tem nada demais, nem lembro de ter sentido dor na anestesia. Mas essa visão tão lindinha da cesárea é o que leva muitas mulheres a se deixarem levar para a mesa. A verdade verdadeira é que não há como não sentir medo naquele momento, seja indo para a faca, seja parindo naturalmente: a gente sabe que o filho está vindo, a gente sabe que está entrando em território desconhecido. Medo do desconhecido é natural. Agendar uma cesárea por medo do parto normal, não confere.

Ser levada de maca, com sua mãe te olhando, pelos corredores de um hospital, sabendo que seu bebê será retirado de dentro de você depois de um processo de corte de diversas camadas.... dá medo. Eu quase disse para a minha mãe: se eu morrer você cuida dele? Mas achei sacanagem de se dizer uma coisa dessas para uma mãe.