Estava conversando com queridas amigas, do mundo
dos átomos, amigas reais (sim, mesmo sendo mãe e blogueira, eu ainda tenho
amigas reais!) que me contavam de uma criança que estuda em uma escola da
pedagogia Waldorf.
Meus olhos brilhavam enquanto eu ouvia que as
mochilas das crianças são confeccionadas de tecido, sempre as mesmas, todos os anos. Nos estojos, só existem
lápis de cera. A flauta é de madeira, de uma aula de marcenaria de aluno e pai.
A capa da flauta é costurada pela mãe. E minha cabeça viajava em possibilidades.
Entre um acordo e um desacordo sobre o método, a
forma, as importâncias na fase da educação infantil uma de nós se lembrou que
hoje em dia anda difícil convencer a garotada de que não, não é necessário
trocar a mochila escolar de acordo com o último lançamento dos estúdios Pixar.
Não, seu filho não precisa comer 30 vezes o mesmo lanche para conseguir
completar a reedição de uma viagem à base de drogas ilícitas do Gargamel. Não,
ele não vai morrer se for o único da turma que não puder ir e voltar trimestralmente
do mundo encantado do Walt, do Beto, dos Golfinhos adestrados enlouquecidos e
focas que interpretam zeladores de hotel. Nunca entendi fazer animais de
atores, mas pois bem.
Então uma das queridas pessoas físicas da conversa
concluiu: é a vida descartável. Tudo tem que ser trocado numa pressa que me
assusta.
Compramos muita coisa dispensável. Eles até
precisam, mas em pouco tempo perdem, porque crescem. Eles até gostam, mas em
pouco tempo não querem mais, porque perdem o interesse. Eles até querem, mas
enquanto você tira da loja já tem alguém pensando em como fazer você comprar o
segundo modelo da coleção. Maior, melhor, mais colorido.
Não importa o quanto eles precisem, gostem ou
queiram ter as coisas. Todas elas são passageiras e não vem com botão de auto
destruição – dependendo da sua iniciativa como consumidor é possível que muitos
desses bens padeçam por muitos anos abandonados em algum canto da casa. Descartados ao nada.
Você pode depois doá-los – para alguns que
igualmente precisam, gostam e querem os cacarecos inatingíveis. Ou aproveitar
seu próprio investimento para revende-los em segunda mão – para quem não tem
apego às caixas e cheirinhos de produto novo.
Ou você pode não querer mais ter as coisas.
Esqueçam, não estou sugerindo um desapego total ao
capitalismo. Quero que meu filho brinque
tanto com as pedras e galhos quanto com os botões de luz e cor. Mas não quero
mais propriedade das coisas. Dessas coisas. Essas que vão inevitavelmente virar
descartáveis.
Temos pensado aqui em casa – para a parte dos brinquedos
e o que mais nos for do alcance– em usar, não ter. Um primo tem? Quer
emprestar? Vem aqui em casa, leva esse outro que eu ganhei. Depois eu troco com
outro primo. Ele vai gostar desse caminhão que eu vi na loja? Quero muito que
ele brinque com isso? Procuro primeiro na melhor solução que eu conheço para me
ajudar nesse pensamento – alugar os brinquedos.
Em 16 meses de existência usou muitos, muitos,
muitos brinquedos. Depois da saída das minhas amigas, olhei em volta e comecei
a contabilidade. Dos que viraram herança para troca, venda, doação, nenhum foi
comprado pela gente. São brinquedos que ganhou ao longo do tempo, com aquele
carinho bem intencionado de quem o quer bem,
mas ainda não compartilha muito dos nossos ideais.
Dos que ele está brincando atualmente, todos são
alugados. E vão embora na hora que o interesse desaparecer. Ou quando ele se
render à Pixar. E gostar, quiser, precisar desesperadamente brincar – e não ter
posse de – alguma coleção de personagens apaixonantes.
Para depois dar lugar para outras peças, que ele
possa usar, sugar, respeitar - pois tem que devolver – e depois trocar por
outro. Sem possuir, sem acumular.
Nada fica descartável. É tudo reutilizado à
exaustão!
| Joaquim só anda de carro alugado. |









