Depois de infinitos emails, telefonemas, fax, msn, tuits e sinais de fumaça querendo saber qual é o grande problema de pintar a criança de coelho, segue texto monstruoso. Sugiro que só leia se estiver mesmo afins de saber, para não me julgar mal. Esse texto não quer defender nada, acusar nenhuma escola ou ofender ninguém, é como tudo aqui no blog um relato da minha opinião e crise com as coisas da maternidade e educação: direito a mim conferido a partir do momento que tive um filho e decidi ficar aqui de trololó na internê...
A parte burra mãe ficou eufórica. Lamentou não ter a máquina para tirar uma foto do primeiro bigodinho de coelho. Quase teve um AVC ao ver aquela linda garatuja rabiscada na caixa de leite forrada de papel e já previu construir uma estante na maior parede da sala onde pudessem ficar para sempre preservadas essas preciosidades das “aulas de artes” infantis.
A parte inteligente chata bagarai imediatamente pensou: eu sabia que isso ia acontecer!! Construtivista my ass!
Isso porque passei o dia me questionando, vão mandar para casa de índio ou de coelho? Havia uma luz de esperança que dizia, de nada! Elas não vão perder tempo confeccionando badulaques completamente incoerentes para as crianças só para agradar os pais bobos. Calma, não me abandonem, não me unfolem, eu só quero o bem da humanidade partindo da construção de indivíduos questionadores: nossos filhos... ainda me amam?
A princípio eu sou contra essas comemorações de datas nas escolas. Qualquer data, diga-se de passagem. A páscoa é um feriado religioso, o estado é laico, as instituições de ensino também deveriam ser. (Calma, no fim vai ficar tudo fofo e educativo, juro!)
Não vejo sentido comemorar o dia do índio, da árvore, do soldado, tudo me faz lembrar modelos antigos de educação, americanizados, engessados, militares. E são duas vertentes: A necessidade de se comemorar na escola e as atividades que são propostas em prol dessa “comemoração”.
Precisa celebrar o dia das mães na escola? E quem não tem mãe? Por que se celebra o dia das mães, anyway? É mesmo para homenagear a gente que se mata pelos filhos ou é para vender bolsa, sapato e chocolate? A gente não vive dizendo que um sorriso deles paga tudo, é necessário mesmo celebrar essa data na escola?
Como conteúdo o tema “mãe” é incrivelmente adequado para a educação infantil. Quem é sua mãe, o que ela faz, qual o nome dela...Qual é o conjunto de atividades que pode ser proposto para que esse conteúdo seja significativo? Estão propondo isso na escola do meu filho ou simplesmente mandando ele colorir um laço com canetinha e grampeando um bom-bom (pelo qual me cobraram na matrícula)?
A questão tem que ser, dentro de uma instituição de ensino qual é a abordagem coerente para tais celebrações, e ainda, qual é a necessidade disso.
Avaliemos o exemplo do Índio: é fundamental conhecer um pouco da cultura, saber da existência pelo menos, quem sabe visitar uma aldeia, assistir um bom vídeo, aprender canções. Mas até que ponto isso faz sentido para a criança em um dia específico? Como esse conteúdo deve ser abordado na educação infantil?
“Bom dia crianças, eu sou a Tia Fulana e hoje vamos cantar 1, 2, 3 indiozinhos, porque é dia do índio. Aí todo mundo vai colar essa peninha fake na cabeça desse indiozinho xerocado que eu trouxe para vocês e vamos fazer um colar de macarrão com EVA* . Dúvidas?”
*obrigada DEA pelo exemplo
Cansei de ver crianças saindo da escola com durex colorido colado no rosto.
Estive no backstage: muitas vezes colados às pressas na hora da saída enquanto dois se matam, uma chora a professora termina de escrever agenda e a assistente tenta picar os durex com os dentes, e descolar o rolo do cabelo da fulana e tirar a caca do nariz da beltrana antes de devolver para a mãe. (e por isso também não gosto da agenda de papel, rouba uma pessoa ativa da sala de aula, além de ser anti ecológica e entulhar a casa da gente!)
E nos livros um indiozinho clichê, de cabeça de cuia com uma pena e uma tanguinha meio índio americano, meio tupi guarani... sabe-se lá. As crianças pouco sabem do real significado das coisas. Não são apresentadas significativamente aos conteúdos, não entendem o porque daquelas pinturas no corpo e muito menos o porque do durex. É vago, é fake. É para cumprir tabela e agradar os pais... estou aqui pintando um cenário xiita.
Maaaaaasssss, que mal tem?
É lúdico! Que criança não gosta de pintar a cara? É engraçadinho fazer um cocar e brincar de índio. Pode ser bobo, mas crianças gostam de bobeira... será que temos que ser tão sérios com esse critério sobre as comemorações nas escolas (e por temos, leia-se eu tenho)?
Se por um lado tudo o que eu conheço aponta contra, por outro a bestinha mãe que sou achou uma fofura ver o menino limpando os bigodes na minha blusa.
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Minha proposta será sempre achar o caminho do meio. Ainda que discorde das comemorações estou de olho para ver se o material produzido está realmente de acordo com as capacidade dele. Quero ver se ele está participando, se faz sentido, se é instigante e realmente propõe a construção do aprendizado.
Estou de olho para ver se não são atividades produzidas com o maior carinho errôneo das professoras, aquele tipo de amor que quer ajudar, mas acaba atrapalhando. Uma delas a semana toda recortando orelhas enquanto poderia estar mediando atividades mais edificantes. Quanto maior a participação da criança e menor a participação do professor melhor é a qualidade atividade.
Aqui na minha cabeça (não tenho certeza de que foi feito assim, mas rezo imagino) consigo ver um caminho pedagógico para as coisas que vi ontem:
A colagem de algodão: Na fase de Joaquim tudo é sensibilidade táctil especialmente. O coelho de verdade esteve na escola, ampliar o conhecimento sobre os bichinhos é um tema interessante para a fase. Passar a mão no coelhinho macio, brincar com o algodão macio, colar o algodão macio... enfim, está aí um caminho. Um conteúdo interessante. Só poderia ter sido colado em papel, não EVA (que é um material bem menos ecofriendly).
O coelho de prato de papel: é bem bacana oferecer suportes diferentes para a criançada pintar. O prato de papel é top10 na educação infantil, ondulado, redondo, áspero. Bem diferente do sulfitão. A proposta é bacana, mas nem precisava vir disfarçada de coelho. Para mim é o cúmulo da poesia assim, redondo e sem nada mesmo.
O coelho de caixa de leite: esse achei uma grande merda. O papel que forra a caixa é um camurça desenhado pelo meu filho. Lindo, lindo rabiscou louco, diga-se de passagem... Mas eu queria o desenho, por que raios colaram numa caixa de leite e disfarçaram de coelho? A parte boa é que ele é tipo um fantoche, e Joaquim gostou de brincar com ele. Então ponto para esse cacareco, pensando que aqui em casa a gente curte brincar com sucata e ele nada mais é do que uma sucata refinada com participação especial das garatujas do Joaquim.
Continuo pensando que essas propostas vieram no limite da interferência do adulto, ainda assim tiveram participação dele e se transformaram em brinquedinhos aqui em casa, o que salvou a pátria.
A conclusão? Estou de olho no caminho do meio, sempre. Que comemorem, que se apropriem das datas. Mas que aproveitem para propor atividades com significado e a maior participação das criançada possível. Sem pena fake! Sem colar de EVA! Sem largar a criançada no parquinho para recortar orelha!
E aí, me redimi?
Em tempo: estou gostando muito da escola e agradecidíssima por todo o carinho e atenção que lá é dispensado ao meu filho no tempo em que eu não quis pude ficar com ele. Porém me vejo no dever de questionar sempre, avaliar sempre, levantar discussões sempre. That’s Just me.