25/02/11
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ENSAIO SOBRE A SUJEIRA IV

TITICA
Um contato inevitável com a sujeira: famílias que prezam atividade ao ar livre, abaixo de árvores. O pai do bebê estava altamente orgulhoso pela aquisição de sua nova câmera fotográfica, profissional, de alta qualidade, com uma enorme seqüência de letras e número que lhe definiam qualidade do zoom, da lente, da abertura e sabe-se lá o que mais define um equipamento do tipo.
O bebê, que até então era fotografado com câmeras de celulares e compactas amadoras compradas por valores em dólar com menos de três casas, virou alvo constante do turbilhão de ensaios fotográficos. Especialmente nos momentos de lazer. Especialmente ao ar livre, quando a luz favorece.
O pai fotografava e checava seus progressos no visor da máquina, e cada detalhe podia ser visto na fabulosa qualidade das imagens: sujeira embaixo das unhas, resto de papa nas sobrancelhas, mancha nas roupas e pés encardidos.
Em uma das fotos, algo estranho na cabeça do bebê. De cor avermelhada no centro e branco nas bordas. Pensou o pai, que tipo de fruta podia ser aquela, uma vez que era tradição do filho lambuzar as mão e esfregá-las nos cabelos nos momentos de refeição.
Uma nova dimensão da sujeira apresentou-se, ao passo que sem se aproximar do bebê, com o excelente poder de zoom de seu novo equipamento, o pai pode comprovar: deitado sobre o cabelinho fino e loiro, com centro avermelhado e bordas brancas, a única fruta que podia ter vindo daquela árvore. A fruta já digerida por um passarinho bom de mira. Sim, era titica de sabiá.

24/02/11
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ENSAIO SOBRE A SUJEIRA III

CACA
Narizes são órgãos do corpo capazes de produzir sujeiras tão peculiares que rendem histórias incríveis. Há relatos de mães que utilizam os mais diversos meios para eliminar esse tipo de sujeira da face de seus filhos, desde a própria roupa até folhas de árvores.
Pela primeira vez o bebê apresentou algo parecido com um resfriado, um nariz entupido e escorrendo em momentos de atividade, a ponto de despertar a curiosidade da língua, que virava e mexia ia checar lá perto da cavidade nasal se existia mais daquele caldinho transparente, que de alguma forma todo mundo no mundo sabe que é salgado, mas ninguém aprova o consumo.
Lenços foram feitos para nos livrar desse tipo de sujeira. Se não o lenço, o papel higiênico. Ou a infinidade de paninhos de boca que se ganha quando anuncia-se uma gravidez. Até mesmo, em último caso, a toalha do banho, que depois corre o risco de esfregar a meleca na face do filho recém lavado. Quiçá no cabelo.
Pois aparentemente lenços e paninhos parecem ter vida própria e nunca estão à mão no momento de evitar o contato da caca com a língua. E assim mães do mundo inteiro acabam por experimentar essa nova relação do contato com a sujeira: limpar os narizes de seus filhos num rápido movimento pinça, com os dedos nus e crus, que invariavelmente, não se sabe se por nojo ou praticidade acabam sendo limpados na calça jeans, na bolsa ou nas costas do sofá da sala. Mãe que é mãe pega caca com as mãos, com uma habilidade fria, cirúrgica, programada.
Esse é um movimento observado somente nos grupos de mães e professoras. Quando uma criança remelenta está prestes a ser devolvida para um pai ou mãe crítico, professoras desesperadas executam sem piscar a técnica da pinça nua e crua. Limpar com as mãos a caca do filho é uma coisa. Limpar com as mãos a caca o filho dos outros: isso é trabalho sujo.


23/02/11
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ENSAIO SOBRE A SUJEIRA II

COCÔ
Os acidentes com as fraldas já causaram frisson na família. Houve uma vez que o bebê, na fase das fezes explosivas fez seu serviço entre o tirar e o colocar uma nova fralda, atingindo parede, berço, lençóis, travesseiros, roupa da mãe o que mais estivesse no raio de alcance do jato de merda. Dezenas de vezes ele acertou a mãe. Mas a cena da parede é que ficou mesmo na memória, numa alusão à Jackson Pollock. Difícil de esquecer.
Numa outra ocasião, a mãe foi checar pelas laterais a fralda do moleque, na esperança de visualizar pela poupança se havia ali algo a ser retirado. Não foi necessário usar as janelas da alma para chegar a conclusão nenhuma. A sensação táctil quentinha embaixo das unhas dos dedos enfiados pelas coxas lhe confirmavam a suspeita: sim, ele estava sujo. Ela o trocou mas não sem guardar para sempre o ensinamento repetindo para si mesma: jamais checar a fralda pelas laterais.
Mas dizer que aquele tipo de dejeto era sujeira perde todo o sentido, a partir do momento que a criança começa se alimentar. O cocô de um lactente exclusivo é poesia perto do produto de um comedor de carne. A bosta da criança que come: isso sim é sujeira.
A começar pela consistência, uma implacável maçaroca, que combinada com a habilidade do referido infante de se contorcer enquanto alguma pobre alma tenta livrar-lhe do excremento tornam o adjetivo sujo um elogio perto do que pode acontecer caso não se seja firme, ágil e corajoso na troca da fralda.
O aspecto visual é ponto a ressaltar: se existe uma imagem iconográfica para a palavra sujeira, deve ser a visão da fralda do meio manhã, que ainda carrega um tanto da janta e os resquícios da fruta favorita da fase: o mamão, que por motivos inexplicáveis passa por todo o trato digestivo sem perder a cor e aroma.
E por fim, a checagem de fraldas pelas laterais torna-se absolutamente dispensável, uma vez que à distância entre terra e marte é possível com um outro sentido, o olfato, incutir o resultado da checagem. Isso se o observador perdeu a visualização das rugas que se formam na testa do bebê em seu momento de confecção dos sonetos intestinais.
daqui

22/02/11
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ENSAIO SOBRE A SUJEIRA I

BANHO
Quando o bebê era pequeno, muito pequeno para ficar no chão, o tempo era frio e a hora do banho parecia uma convenção social, muito mais do que uma necessidade. Há de se concordar que algumas plumazinhas lhe enroscavam entre os dedos, e ao passar o sabonete nas dobras arrastava-se junto alguns fiapos das roupas que insistiam em desprender. Como usava na maioria das vezes roupas escuras, por puro luxo da mãe, os fiapos podiam ser confundidos com sujeira. Mas eram fiapos.
Ainda assim depois de cada banho,  a banheira era esfregada e desinfetada com álcool. Está claro que o trato com um bebê pequeno requer procedimentos específicos de higiene, mas os fiapos tratados a álcool vieram a parecer chacota perto do tipo de sujeira que se instalou na banheira meses depois.
Com o bebê explorando o mundo de mãos e joelhos no chão o banho se fez mesmo indispensável, guardando para a palavra indispensável a qualidade de “sem o qual se pode até morrer”. Depois de esfregar insistentemente as regiões com uma bucha, (pois passar suavemente o sabonete seria no mínimo uma estupidez) os antigos fiapos, e também melecas do chão, restos de comida, encardidos, poeiras, e sabe-se lá mais que tipo de organismos pode-se contrair esfregando-se sintomaticamente pelo chão, vão se dissolvendo na água, e juntos com o resto de sabão formam a sopa de porqueira mais rica,  mais cinza, que já se viu.
Aquilo sim é sujeira. Ao dispensar a água na descarga alguns podem se sentir mal pelo xixi, que vai embora tão mal acompanhado pelo caldo preto: como pode tanta sujeira estar colada num corpinho tão dengoso? A técnica do álcool permanece ativa, e agora mais útil do que nunca. Só seria melhor se se pudesse atear fogo para de vez acabar com a quantidade de nojeiras invisíveis que devem habitar o líquido turvo e gosmento do fim do banho.

daqui


07/02/11
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JAPONÊS

Tá certo que eu não deixaria meu filho engatinhar numa estação do metrô. Mas também zêlo com limpeza não é uma das minhas características mais fortes. Não sou relapsa, mas posso ser ligeiramente tranquila demais, por assim dizer.
Estávamos nós em um restaurante japonês almoçando com amigos queridos e morrendo de vontade de bater papo de gente adulta: falar dos filhos, contar coisas dos filhos, questionar assuntos dos filhos e tal e tal. Joaquim está naquela fase que é necessário mudar o foco da atividade de 5 em 5 minutos caso você queira que ele permaneça sentado no cadeirão. Naquela semana ainda não tínhamos descoberto a técnica do nabo ralado. Extremamente eficaz para restaurantes japoneses e bebês impacientes.
Depois de um tanto se debater, reclamar e resmungar na cadeirinha, eu percebi que nossa mesa estava num ponto excelente para colocá-lo no chão: floreiras cercando o espaço, ele não conseguiria fugir para lugar nenhum. O chão parecia limpo (ok, não existe chão limpo, muito menos de restaurante, mas veja bem: eu queria bater papo) e sem dó nem piedade libertei o rebento e lá se foi sua fraldinha, rodando no metro quadrado que acabara de ganhar.
E foi ótimo, conversamos um monte, comemos peixinhos e Joaquim se divertia a beça lançando os pauzinhos e indo pegar – naquela brincadeira de “go-fetch-auto-inflicted”.
Corte seco. Um minuto de distração e eu olho novamente para ele. O menino está de barriga no chão em posição de pára-quedista, numa felicidade que só dele batendo as duas mãos numa poça horrenda de água. Água de onde, meu deus do céu?
Levantei correndo e resgatei o moleque ensopado, de algo que eu me recusava a querer ver a cor. Só então me dei conta de que naquele cantinho havia uma porta, e que do vão da porta começou a escorrer a aguinha.
Nessa, o pai,os amigos, os garçons se comoveram com o loirinho embebido no caldo preto e começaram a lançar em nossa direção guardanapos que não tinham fim, tentando absorver ao máximo a água que decorava o body fofo “Daddy’s Best friend”.
Na minha cabeça em questão de segundos surgiu a solução: tem alguém lavando o chão atrás dessa maldita porta que eu não vi. E em menos segundos ainda o pânico maior: jesusdocéu tomara que não seja o banheiro! Ele vai pegar um monte de doenças! Ele colocou a mão na boca! Tem coliformes fecais no body do meu filho!
Olhei pálida para o garçom e perguntei:
- Ali é o banheiro?
- Não dona, é a cozinha.
Ah! Tá. Tranqüilo. Cozinha de restaurante japonês é limpinha. Imagina, aquela porta era só o corredor por onde saia o lixo do restaurante. Fiquei bem. Hiperventilei um pouco, mas foi passando. O garçom ainda tentando me acalmar insistia que a água vinha das floreiras, não sem antes dar um esporro finíssimo no condenado que estava lavando o chão do corredor com cliente no restaurante. Eu acabei até concordando para não morrer ali mesmo de desgosto por tanto relapso maternal. E os demais clientes pensavam em uníssono enquanto encaravam o risonho bebê chafurdado no xurume: “Oh céus, que raio de mãe é essa”. Eu podia ler nos seu olhos.
Senhores trabalhadores de restaurantes, favor lavar o corredor do lixo somente quando não houver movimento. Vai que alguma mãe resolveu que precisava bater papo e deixou o bebê no chão na mira do aguaceiro.
Levei o menino no banheiro e lhe dei um banho na pia.
Aguardei ainda um mês para revelar definitivamente essa história, e assim foi confirmado: ele não pegou nenhuma doença não! E viva o leite materno.



A TÉCNICA DO NABO RALADO
Sabe aquele nabinho que vem ralado nos pratos altamente decorados dos restaurantes japoneses? Eu achava um desperdício horroroso até que descobri sua verdadeira função: entreter o Joaquim.
Quando o prato chega eu logo arranco uns fiapos e enrosco nos dedos dele. Ele acha que é a coisa mais interessante do mundo e perde minutos a fio tentando desenroscar os fiozinhos, apertar, pinçar, chacoalhar até finalmente jogá-los no chão, ou no cabelo de alguma moça passante (desculpe moça).
Depois de terminar a porção é só repetir o processo. Vale também para o alface, gengibre, pepino e demais decorativos. Não recomendo o wasabi. No final basta dar aquela limpada geral no chão, pedir desculpas caso algum garçom tenha escorregado, pagar a conta e ir embora; satisfeito! Você conseguiu comer!
Rende de 10 a 15 minutos por porção.
Serve até 1 casal.
DAQUI

03/02/11
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AFRICAN LULLABY

Um texto não publicado escrito em novembro do ano passado e que ainda faz todo sentido, apesar da piora considerável das noites de sono de lá para cá...

***

Madrugada passada atravessei em claro. Joaquim? Não. Esse dormiu bem até. Acordou só 2x. O problema era eu mesmo. Acho que meu corpo acostumou a não dormir e desencanou forever. Corujão na madrugada, assisti Dexter, House e levei um longo e necessário papo com maridón, outro zumbi.
Ontem, depois de um longo e calorento dia que não teve noite chegou a hora de colocar meu bichinho para dormir. Eu sou uma criatura muito estranha. Tenho uma micro ansiedade de separação nesse momento. Um misto de quero que vá dormir logo e por favor, me dê trabalho para eu ficar te segurando.
Isso porque eu sou definitivamente habitada por duas pessoas. Uma delas diz: mas se você é ansiosa e confusa está explicado porque toda essa dificuldade para dormir. E a outra responde: cala essa boca que o tema não é esse, ninguém te perguntou. A bruaca e a nem aí. Uma é cheia das regras a outra faz o que der na telha. Uma é polida e correta a outra não tem um pingo de educação e age por instinto quase sempre.
Eu amo fazer meu filho dormir no colo. Às vezes esqueço o quanto é gostoso ninar aquele corpo fofo e suadinho, sentindo a ponta dos pezinhos baterem no meu lombo e aquela mãozinha nada delicada me estapeando o colo, me arranhando com unhinhas finas, me olhando e fazendo barulhinhos. E vai fechando olhinhos, e enfiando mais e mais a cara bochechuda na concha macia que meu braço roliço faz. Às vezes eu me apresso e vou colocando no berço, pois a bruaca muitas vezes ganha as discussões com seu argumento: ele deve aprender a dormir sozinho.
Mas às vezes a dona caga-regra perde, e as decisões que envolvem meu bebê vão ficando tão mais doces, tão mais quentinhas, tão mais gostosas. Instintivas e mal educadas. Nem aí. E nino para dormir mesmo, e se resmungar pode mamar mais um pouquinho. Seguro por um tempão, cheiro e beijo e fico fitando a carinha que vai desligando. É aí que já vai batendo a saudade, e a sem noção pensa: quero que ele acorde logo, porque ele me faz falta. Porque se ele é viciado em colo (Mariiii), em peito, em mimo, eu viciei nele, em olhá-lo, em tirar foto, em falar sobre ele, em escrever suas histórias.
E ontem largada na poltrona, com o pacotinho já dormindo o quadragésimo sono, eu me aproveitava da gostosura que é segurá-lo e ouvia junto com ele as músicas de ninar que o levam ao nirvana. Musicas tribais, maravilhosas de pais e mães para filhos. Hábitos milenares de cantar, acalentar, embalar. Cantadas em outra língua mas qualquer um consegue entender que são músicas de amor. E sentia uma paz naquele quarto, naquele ato. Até a bruaca se rendeu.
É tudo uma questão de prisma. É tão gostoso o tempo que eu levo ninando, cantando, cafungando quanto o sossego que impera depois que ele dorme.

***

Vejam esse video e mostrem para seus bebês. É a coisa mais adorável do mundo, do mundo!!
Pois então estão erradas todas as mães da história, todos os bichos da terra, todas as cantigas de ninar que nos acompanham a séculos e séculos? O certo é colocar no berço, deixar chorar?
Entre as opções, vou fazer como as africaninhas e carregar até que me carregue.