07/02/11
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JAPONÊS

Tá certo que eu não deixaria meu filho engatinhar numa estação do metrô. Mas também zêlo com limpeza não é uma das minhas características mais fortes. Não sou relapsa, mas posso ser ligeiramente tranquila demais, por assim dizer.
Estávamos nós em um restaurante japonês almoçando com amigos queridos e morrendo de vontade de bater papo de gente adulta: falar dos filhos, contar coisas dos filhos, questionar assuntos dos filhos e tal e tal. Joaquim está naquela fase que é necessário mudar o foco da atividade de 5 em 5 minutos caso você queira que ele permaneça sentado no cadeirão. Naquela semana ainda não tínhamos descoberto a técnica do nabo ralado. Extremamente eficaz para restaurantes japoneses e bebês impacientes.
Depois de um tanto se debater, reclamar e resmungar na cadeirinha, eu percebi que nossa mesa estava num ponto excelente para colocá-lo no chão: floreiras cercando o espaço, ele não conseguiria fugir para lugar nenhum. O chão parecia limpo (ok, não existe chão limpo, muito menos de restaurante, mas veja bem: eu queria bater papo) e sem dó nem piedade libertei o rebento e lá se foi sua fraldinha, rodando no metro quadrado que acabara de ganhar.
E foi ótimo, conversamos um monte, comemos peixinhos e Joaquim se divertia a beça lançando os pauzinhos e indo pegar – naquela brincadeira de “go-fetch-auto-inflicted”.
Corte seco. Um minuto de distração e eu olho novamente para ele. O menino está de barriga no chão em posição de pára-quedista, numa felicidade que só dele batendo as duas mãos numa poça horrenda de água. Água de onde, meu deus do céu?
Levantei correndo e resgatei o moleque ensopado, de algo que eu me recusava a querer ver a cor. Só então me dei conta de que naquele cantinho havia uma porta, e que do vão da porta começou a escorrer a aguinha.
Nessa, o pai,os amigos, os garçons se comoveram com o loirinho embebido no caldo preto e começaram a lançar em nossa direção guardanapos que não tinham fim, tentando absorver ao máximo a água que decorava o body fofo “Daddy’s Best friend”.
Na minha cabeça em questão de segundos surgiu a solução: tem alguém lavando o chão atrás dessa maldita porta que eu não vi. E em menos segundos ainda o pânico maior: jesusdocéu tomara que não seja o banheiro! Ele vai pegar um monte de doenças! Ele colocou a mão na boca! Tem coliformes fecais no body do meu filho!
Olhei pálida para o garçom e perguntei:
- Ali é o banheiro?
- Não dona, é a cozinha.
Ah! Tá. Tranqüilo. Cozinha de restaurante japonês é limpinha. Imagina, aquela porta era só o corredor por onde saia o lixo do restaurante. Fiquei bem. Hiperventilei um pouco, mas foi passando. O garçom ainda tentando me acalmar insistia que a água vinha das floreiras, não sem antes dar um esporro finíssimo no condenado que estava lavando o chão do corredor com cliente no restaurante. Eu acabei até concordando para não morrer ali mesmo de desgosto por tanto relapso maternal. E os demais clientes pensavam em uníssono enquanto encaravam o risonho bebê chafurdado no xurume: “Oh céus, que raio de mãe é essa”. Eu podia ler nos seu olhos.
Senhores trabalhadores de restaurantes, favor lavar o corredor do lixo somente quando não houver movimento. Vai que alguma mãe resolveu que precisava bater papo e deixou o bebê no chão na mira do aguaceiro.
Levei o menino no banheiro e lhe dei um banho na pia.
Aguardei ainda um mês para revelar definitivamente essa história, e assim foi confirmado: ele não pegou nenhuma doença não! E viva o leite materno.



A TÉCNICA DO NABO RALADO
Sabe aquele nabinho que vem ralado nos pratos altamente decorados dos restaurantes japoneses? Eu achava um desperdício horroroso até que descobri sua verdadeira função: entreter o Joaquim.
Quando o prato chega eu logo arranco uns fiapos e enrosco nos dedos dele. Ele acha que é a coisa mais interessante do mundo e perde minutos a fio tentando desenroscar os fiozinhos, apertar, pinçar, chacoalhar até finalmente jogá-los no chão, ou no cabelo de alguma moça passante (desculpe moça).
Depois de terminar a porção é só repetir o processo. Vale também para o alface, gengibre, pepino e demais decorativos. Não recomendo o wasabi. No final basta dar aquela limpada geral no chão, pedir desculpas caso algum garçom tenha escorregado, pagar a conta e ir embora; satisfeito! Você conseguiu comer!
Rende de 10 a 15 minutos por porção.
Serve até 1 casal.
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