27/12/10
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NOMES

Demorou muito pouco tempo para a gente decidir o nome do bebê que me habitava. Se fosse menina era Maria e menino Joaquim. Sem muitas explicações lógicas, simplesmente parecia certo (por mais que pareça aquele casal de portugueses das piadas). Quando descobrimos o sexo do bebê, nos olhamos e dissemos, “Joaquim, né?”. E saímos mandando mensagens para todo mundo “Joaquim tá na área”.
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Minha mãe conta que na gravidez dela meu pai queria que eu me chamasse Koidola. É isso mesmo, caras coleguinhas, Koidola (lê-se Kôidola). Kôkô para os íntimos, imagino. Esse era o nome de uma famosa poetiza da terra dele, a Estônia. Nas mãos do destino eu escapei.
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Eu tenho uma amigona que tem 5 cachorros: Otávio, Bernardo, Sofia, Sabrina e Rebeca. Reza a lenda que o primeiro filho dela será Rex, se for menino e Bilú, se for menina. Na minha família ainda tem dois cachorros com outros nomes humanos: Filomena e Francisco. E eu tive uma câmera fotográfica que se chamou Martina e uma filmadora que chamou Daphne. Vários lindos nomes potencias dos meus futuros filhos gastos em cachorros e eletroeletrônicos.
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A esposa do motorista do escritório ficou grávida na mesma época que eu. Um dia, conversando com ele eu disse que o nome do bebê seria Joaquim. Ele me olhou com uma cara de desprezo horrível “Joaquim? Esse nome mesmo? Pobrinho?”. Eu falei que sim, que eu gostava de nomes simples e brasileiros. E perguntei do nome do bebê dele: “Eu não sei, quero alguma coisa que combine com o nome da minha primeira filha. Estou pensando em Ashlon.
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Quando minha avó estava grávida da minha mãe decidiram que o bebê se chamaria Gersoni. A irmã mais velha da minha mãe espalhou o nome para a cidade inteira. Meu avô que gostava de surpresas, resolveu mudar o nome na última hora. Ela virou Eliana e Joaquim escapou de ter uma vó de nome esquisito. Desculpem-me Gersonis do meu Brasil, mas como proprietária de um nome esquisito eu me vejo no direito de caçoar do nome dos outros.
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Meu pai nasceu no fim da segunda grande guerra, aqui no Brasil, filho de imigrantes que queriam um nome de sua terra: Karl. Por conta da posição política do país frente aos aliados nomes estrangeiros  eram proibidos no país. Meu pai foi registrado Carlos, assim pobrinho mesmo.
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Eu tive uma bisavó chamada Epp, a mãe do pai do meu pai. Pensam que é um nome estrangeiro? A história conta diferente. Diz que no batizado da menina o pai, um grande apreciador da melhor Vodca Estoniana estava prá lá de Tallin, ou melhor, de Bagdá, e quando o padre perguntou o nome da criança o pai numa tentativa de dizer Emma, lançou um soluço “Epp”. E caiu para trás.
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Muito antes de engravidar eu já pensava como seriam os nomes dos meus filhos. Muito antes tipo, 20 anos antes, quando eu assisti a novela Kananga do Japão e decidi que meus filhos se chamariam Hanna e Henrique. Depois houve a fase Catarina, Tomás, Estela, André. Quando eu perguntava para o Pedro que nomes ele gostava ele dizia “Palha. É unissex e o melhor nome para se dizer – Palha, vai pegar o chinelo do pai.” Eu chorava de ódio quando ele fazia isso. Sério.
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O pai do Pedro chama Ernesto Pedro em homenagem a um padrinho. A irmã dele já namorou um cara que chamava Pedro Ernesto. E tem mais um pimpolho na família, que é Ernesto e é Pedro também. Quando o Pedro nasceu era pra ser só Pedro. Mas o pai foi registrar e resolveu se auto-homenagear, e colocou Ernesto Pedro. Na hora da chamada da escola os professores diziam “Ernesto” e ele respondia “Presente, mas pode me chamar de Pedro.
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E depois de muito tentar um nome que combinasse com o da primeira filha, o motorista do escritório desistiu. O menino se chama Bernardo, mesmo nome do cachorro da minha amiga. A filha é Ashley. Não ia ter mesmo um nome que combinasse, Ashley é muito exclusivo.
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Quando foi destituído da idéia de Kôidola, meus pais assistindo  um Miss Brasil decidiram que eu me chamaria Annelise. E assim foi até o momento do registro. Meu pai decidiu inovar e me registrou Marie Anne. Minha mãe só ficou sabendo que esse era meu nome quando ele preencheu o enfeite da porta do hospital. Suspeito que ele pretendia manter segredo.
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Nem toda mãe de Joaquim copiou a Angélica. Nem toda mãe de Benjamim copiou a Giselle. Existe alguma coisa que paira no ar com respeito aos nomes dos infantes e estes vem em onda, sem necessariamente que as mães se copiem. Quando eu era criança, tinha pelo menos 4 Danielas por sala na escola. Nunca conheci nenhum bebê nascido depois de 1990 chamado Patrícia. Aqui na blogsfera 49% das mães são Carolinas. Quer nome mais bonito que Carolina? Existe nome mais cantado que Carolina?
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O nome da minha avó também é música Madalena. Mas o pai dela quis fazer um charme e colocou um “g-zinho” no meio: Magdalena. Quando minha mãe estava grávida de minha irmã meu pai anunciou: “vamos agora colocar Annelise”. Foi destituído da idéia, afinal já existia uma Anne na mesma casa, ficou só Lise. Na hora do registro, quis fazer também um charme e colocou um “e-zinho” no meio: Liese. E para combinar com a irmã tascou-lhe também um Marie. Escreve Liese, mas fala Lise.
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Joca, Joaca, Joa, Quim, Quinzinho, Zinho, Kiko, Jô, Joey. Como eu posso chamar seu filho?” Chame de Joaquim, que esse foi o nome que eu escolhi para ele. Se eu quisesse que fosse exclusivo, escolheria um nome que combinasse com Ashley. Apelidos virão, mas por enquanto só gostamos de Pedaccio de Bolo, Joaquino, Minhoca, Filhoto e Dotoso da Mamain. Se você se adaptar com algum desses fique à vontade.
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Meu nome se pronuncia como se escreve. Mas passei a vida corrigindo os outros. Marie é Marie mesmo, não Marri. Anne é Á-nne e não Ânne. Com A de Abacaxi e não  de Anta. Depois de um tempo desisti de corrigir e fui Marry, Merys, Ânne, tanto faz, não ligo. Quando o médico do pronto socorro aparece na porta e começa a engasgar tentando um esquisito Meire, Méri, Mári, já sei que sou eu. Na porta das baladas sempre falava falo Âne, pra facilitar. Sempre escrevem Any, que aparentemente é mais exclusivo. Quando eu tento soletrar, A – N... sempre escrevem Aene. Any é melhor. Quando eu estava sem paciência falava que eu era Heloisa, que é outro nome que eu adoro. Quem me conhece bem me chama de Anne. Ánne.
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E com todo histórico de pais inovadores e querendo fazer charminho na hora do registro eu confesso que fiquei com medo de deixar o Pedro ir sozinho. Mas nem precisava, Joaquim já veio com nome escrito em pedra, perfeito e rimado. Fácil de ler e escrever. Simples, combinando um pouquinho com os portugueses. Decepcionando um pouco os arroubos estonianos que sonhavam com um “ch”. Bem no meio da chamada, tanto no crescente quanto no decrescente, dá tempo de completar as lacunas correndo. Nem tão exclusivo, nem tão comum. Super comum, lindo, a cara dele.