28/10/10
Compartilhe

O GATO MEL


Mel Taffarel Laverack Mc-Dougall

Meu gatinho de estimação. Com exceção de um leve distúrbio alimentar e uma mania que-não-cura de só beber água corrente, ele é o bicho mais fofo do mundo.
Ele nasceu dentro de uma gaveta, porque sua mãe malandra cismou de adentrar numa casa qualquer para dar à luz quatro filhotes, que foram bem pouco queridos pela dona das meias.
Enxotada a gata puérpara, os pobrezinhos foram para adoção com menos de um mês de vida. Depois de minha mãe convencer meu pai de que se eu não tivesse um animal de estimação era capaz de eu aparecer grávida, Mel chegou numa caixinha e era menor que a palma da minha mão. Era 1998, eu tinha 18 anos.
Acreditando se tratar de uma fêmea, pois assim encomendei, ganhou o nome de Meg e um vestido do Brasil. Era ano de copa. (depois disso me tornei absolutamente contra animais se vestindo de gente, acho ridículo e o Mel me apóia pois nunca passou tanta vergonha na vida).
Quando finalmente percebemos o gênero do gatinho, ele já respondia por Meg. E virou Mel. O gato mais doce e metido do mundo, como todo gato. Morou comigo enquanto eu ainda morava com meus pais, mudou-se quando eu e Pedro “amigamos” para um pequeno apê e depois para nossa casinha. Curte a casa, mas continua sendo um gato de apartamento, não passeia pelos telhados.
Mel acha que é planta
O ano de 2008 foi especialmente difícil aqui em casa. Apesar de coisas maravilhosas, como meu casamento, tivemos inúmeros problemas de saúde na família, crises e afins. O ano estava acabando e dia 30 de dezembro, meu aniversário, eu estava na varanda de casa tomando café enquanto Pedro tomava banho. Pensava que aquele ano já ia tarde, que estava no fim, que novas coisas viriam e que não via a hora dele acabar, para não correr o risco de mais um pepino aparecer no calendário de 2008.  Subitamente eu vi o raio do gato na garagem da vizinha. Dei um berro “Meeeel” e o maledeto passou pelo portão e saiu ventando pela rua.
Larguei a caneca no chão e saí correndo pelas escadas e informando o Pedro do ocorrido, que de toalhas me seguiu pela rua num plano astuto,”Você vai por baixo e eu por cima.” Demos a volta no quarteirão e nada do gato. Olhei pela rua e nada do gato. Minutos passaram, horas passaram e nada do gato. Fiquei tão em choque que era como se eu estivesse economizando energia para a maré de lágrimas que eu sabia que viria: maldito ano, levou meu gato.
Quando entrei de novo em casa, já desconsolada e imaginando o pobre atropelado na rua, cheguei no quintal e: o gato. Deitado, no sol, lambendo as patas. Olhou para mim com uma cara de “cê é louca, tá chorando por que?”, e virou o pescoço, blasé.
Das duas uma: ou o gato era um gênio e deu o maior rolê na rua e voltou para casa pelos muros do fundo, o que sugeria que ele fazia isso sempre ou havia um clone do felino na vizinhança.
Não me subestime

Com toda essa maratona noturna, Tracy e eu entre tapas e beijos, Pablo com problemas de auto-estima e Joaquim bravamente protestando por seu direito adquirido de mamar a hora que bem lhe entender, quando o pimpolho pega no sono tenho medo até de desabotoar a calça, para não fazer barulho e acordar o nenê.  Aparentemente a família, amigos que nunca ligam e gatos bulímicos pressentem a hora que o Joaquim está dormindo e resolvem me presentear com telefonemas, mensagens, e gritaria na janela.
Outro dia o Mel se pôs a miar, dentro-do-quarto-do-moleque, na janela ao lado do berço. De-ses-pe-ra-do. Eu quase esganei o pobre coitado, eu titrava ele do quarto e ele voltava para a janela. Quando prestei atenção não era um, mas dois gatos miando. Olhei pela outra janela e lá estava: o clone. Uma mistura de siamês com vira-lata, com olhos azuis e a pontinha do rabo quebrada – idêntico ao mel. Com a diferença de que é uma fêmea e parece mais jovem do que o meu velhinho castrado.
Ela tem vindo passear por aqui sempre, e chama o Mel que por sua vez fica doido para ver a gata. Enquanto não abrimos uma porta, ele põe-se a miar, com a felina respondendo.  E os dois ficam de longe se olhando em silêncio. Só. Ninguém faz nada.
O Pedro concluiu que existem duas possibilidades: sendo Mel um gato castrado, ou essa mocinha está devendo algum dinheiro para ele ou ele está perdida e platônicamente apaixonado, tamanha a ansiedade em ver a bigoduda. Românticos que somos, mesmo depois do toque de recolher, temos deixado o Mel flertar com sua cara-metade. Ou estamos só esperando o dia que ela venha sanar suas dívidas com ele.
A propósito, Mel é o brinquedo preferido de Joaquim, que ao que tudo indica também é romântico como os pais. Fazendo a linha “all you need is love” o filhote não ouve a serenata da gataria. Suas noites 2 horas de sono nunca foram perturbadas pelas declarações de Mel.

Na gravidez, já fazendo amizade com o rebento. Será que o nenê ouve o ron ron?