22/05/13
Compartilhe

PALHAÇADA NA ESCOLA


Recebi um relato de uma conhecida tratando de uma ação publicitária que aconteceu dentro da escola dos filhos dela: uma dupla de palhaços foi apresentar um show com músicas “que as crianças adoram” e todo mundo que participou levou para casa um “presente” com material promocional, dvd, cd e outras curiosidades de conteúdo altamente questionável. Parece bem normal aos olhos mais leigos se não fosse o primeiro indício de que se trata de uma atitude coerciva por parte da dupla de palhaços (e quem os comanda) com anuência da escola: para ficar com o presente em casa os pais deveriam mandar de volta no dia seguinte a quantia de quarenta reais.

Não é a primeira vez que eu ouço contar da ação dessa dupla específica de palhaços dentro da escolas, muito menos que eu vejo ações de cunho publicitário acontecerem nos ambientes que estão “preparando nossos filhos para o futuro”.  Quero lançar aqui um olhar crítico sobre esse tipo de atividade, o papel da escola, o lado dos pais e das crianças.Ee convido vocês para que compartilhem comigo as suas opiniões:

Afinal de contas, qual é a relevância de um show de palhaços em ambiente escolar? E decidindo que essa é uma atividade importante, essa dupla seria mesmo a melhor escolha, uma vez que são pautados em conteúdos vazios de cultura, alienantes e totalmente mercadológicos?

Do ponto de vista da escola há quem diga que a instituição estaria promovendo uma atividade diferente, com um conteúdo lúdico e totalmente ligado ao universo infantil. Isso seria verdade se não fosse o fato de que os palhaços estão ali dentro fazendo propaganda de seu trabalho. A escola permitiria por exemplo que uma montadora de carros fosse levar um teatrinho para a escola e de quebra enviasse para casa uma miniatura para a criança comprar? Isso não é propaganda abusiva do carro?

Impossível que uma criança que tenha visto um show de palhaços na escola não se interesse por assistí-los na televisão. Já fidelizados, aumenta a chance de que queiram consumir todos os tipos de licenciados disponíveis. E se não bastasse isso, o fato singular de entrarem na escola vendendo seus produtos. As crianças já tem contato suficiente com esses conteúdos na televisão, na banca de jornal, no convívio com os amigos. A escola deveria ser ambiente hermético para esse tipo de ação.

Dos diretores até os professores, todos adultos capacitados para orientar nossos filhos, permitir que essas ações aconteçam sob o pretexto de que é legal para as crianças é o cúmulo da falta de conhecimento sobre o universo infantil.  Em alguns segundos consigo pensar em um sem-fim de atividades diferentes que podem ser propostas dentro do ambiente escolar e que não envolvem conteúdo de televisão, produtos licenciados e venda casada.

Há quem diga que os palhaços em si não tem culpa nenhuma. Verdade e mentira. Por trás daquelas fantasias pré-fabricadas existem inúmeros artistas trabalhando, com salários baixíssimos. Quem leva a bolada toda são os criadores da marca, faturando altíssimo com a venda de produtos licenciados. Aparecer na escola é somente uma forma certeira de cativar público, e de quebra ganhar uns trocados com a venda casada. Por outro lado acho difícil que os humanos atrás das máscaras sintam-se causando algum mal para as crianças. Mas isso não muda o fato de que estão envolvidos em uma prática inescrupulosa, lamentavelmente.

E nem muda o fato de que a organização por trás do conglomerado palhacístico sabe muito bem o que está fazendo, age de má fé apoiada pela falta de legislação sobre o tema no nosso país e segue recolhendo lucros enraizados na falta de cultura de escola e famílias.

O que as famílias tem à ver com isso? Só tudo.

Porque se uma única vez esse tipo de ação tivesse ocorrido e a reclamação das famílias fosse em massa, não estaria eu aqui narrando essa história. A primeira vez que eu ouvi contar desse tipo de inserção comercial na escola, já tem mais de dois anos. E isso segue ocorrendo, com cada vez mais frequência e essa última denúncia que eu recebi esclarece ainda que os pais sequer foram informados da aparição da dupla na escola. Surpresa! Hoje ao invés da Educação Física, vimos um show! Mande quarenta reais se quiser manter o brinde em casa!

A moça que me escreveu o email disse que o filho estava aos prantos. Como explicar para uma criança que – por mais que a professora, a diretora, a querida escola escolhida pelos pais tenham recebido de braços abertos os dois palhaços, e por mais que aquele presente embrulhado cheio de traquitanas esteja dentro da mochila, e por mais que em tese todos os envolvidos estejam atuando para o bem exclusivo da criança – não! Esse presente não é para você! Não é um presente! Na verdade, temos que pagar! E a sua escola fez uma coisa muito feia quando permitiu que lhe colocassem esse embrulho na mochila!

Eu não consigo ver criança nenhuma compreendendo isso.
Sinceramente, desprezível.

Aos pais que questionem. Aos palhaços, que se toquem. Ao dono da marca, que aguarde uma lei que de fato proteja as crianças de práticas comerciais abusivas. E às escolas: vergonha de vocês.
  

10/05/13
Compartilhe

CUIDANDO DA CASA SOZINHA

Venho por meio desta informar que quase dois anos depois de ter decidido de uma vez por todas que eu não contaria com serviço doméstico terceirizado para cuidar da minha casa, meu grande planou naufragou e imergiu dezenas de vezes!

Foi mais ou menos assim: eu pirei o cabeção lá pelo segundo semestre de gestação do Tomás, e na mesma semana mandei a empregada embora, tirei o Joaquim da escolinha que ele frequentava e pedi demissão do emprego. Dois anos se passaram e eu arrumei outros (muitos outros) empregos, continuo sem empregada e os meninos agora frequentam juntos uma recreação três vezes por semana.

Lá pelo final da gravidez, barriguda demais para passar pano, resolvi chamar uma faxineira, que ficou conosco até há pouco. Agora, totalmente emagrecida e com três manhãs muito livres, tenho ainda uma faxineira que vem para tirar o grosso, mas somente à cada quinzena.

Nesses dois anos já fui de: vou contratar todo o tipo de serviço terceirizado possível e nunca mais colocar a mão numa bucha até vou fazer a reforma do quintal sozinha, afinal de contas se eu sei fazer faxina eu devo saber também fazer reforma. Como vocês sabem, eu sou uma pessoa de polos.

O interessante é que não. Definitivamente ter alguém trabalhando dentro da minha casa não é o formato de vida que me interessa. Por mais que todo o trampo doméstico seja mala e  interminável eu tenho uma sensação de liberdade, mesmo quando estou querendo jogar lixo pela janela.

Outro dia me perguntaram: mas porque você não tem uma empregada? Ah. Eu nem sei dar essa resposta, são muitos, muitos motivos. Acabei dizendo: porque eu gosto de andar pelada pela casa.

No dia a dia o que eu aprendi nos últimos dois anos, e ainda estou aprendendo resume-se a:

- a família inteira é responsável pela casa. aqui não tem divisão de gêneros para tarefa doméstica e as crianças se envolvem nas coisas que tem habilidade para fazer, como por exemplo colocar seus brinquedos nos baldes que usamos para guardá-los. ou colocar sua roupa suja no cesto. coisa simples, mas que ajuda.

- mulher e marido atuam em revezamento. estamos sempre ligados para alguma tarefa pendente, e é interessante reparar como normalmente foi o outro que começou. parece que o serviço se dilui desse jeito e estamos sempre ajudando um ao outro. eu lavo, ele estende, eu dobro, ele guarda, eu uso, ele lava, eu estendo, ele dobra... e assim vai.

- fácil? não é. mas está bem longe de ser impossível. a regra determinante foi que ao longo desses dois anos eu revi muitas e muitas expectativas e padrões que eu tinha com limpeza, organização e coisas do tipo. é natural que a gente repita comportamentos de outras épocas. tomamos um tempo para avaliar exatamente oq ue nos cabia, o que nos faz falta e o que não faz. nessa, passar roupa morreu. morreu e todo mundo aqui em casa segue vivendo, impressionante.

- adotamos algumas regras bem rígidas, uma delas é a lei do não acúmulo. nada, nada, nada, quando se trata de serviço doméstico pode acumular. e não acumula. assim, em casa todo dia lava-se roupa, varre-se um ou outro canto da casa, recolhe-se o lixo. são micro tarefas diárias que ocupam minutos entre esperar o computador reiniciar e a água do café ferver.

- perfeito? não mesmo. às vezes deixamos escapar algumas coisas, às vezes nos cansamos. mas tem também uma regra que é: só faça aquilo que você quiser fazer. da vontade genuína de transformar o seu ambiente num lugar maravilhoso. ou da vontade genuína de ver aquele móvel limpo. ou da vontade genuína de ter roupas para usar. é uma forma diferente de encarar o serviço doméstico, não como uma obrigação, mas como parte da vida. e assim o honramos.

- com isso, estou aprendendo muitas coisas. desde o começo reaproveitamos água de lavar roupa para lavar chão. reaproveitamos água do banho para dar descarga, e coisas assim. não conseguimos fazer disso ainda uma regra sistemática - eu sonho com uma casa arquitetada para fazer essas coisas automaticamente, que porcaria de mentalidade de uso mentecapto de recursos que vivemos né? como podem até hoje em dia as casas serem construídas para o desperdício?

- o vegetarianismo nos trouxe uma cozinha mais limpa, mais simples e na mesma medida mais saborosa, porque nosso paladar vai se aprimorando para sentir as mínimas diferenças entre os alimentos. o baixo consumo de industrializados nos fez esse favor. uma cenoura com salsinha e sal pode ser o prato principal, e é até estranho eu estar falando isso, porque eu era a rainha do "não como se não tiver cocacola". não consigo me imaginar tomando um refri hoje. é aquilo, rever os paradigmas para criar uma nova realidade, isso impactou diretamente no serviço de casa.

Virei vegetariana porque amo os animais? Não. Porque é mais fácil cozinhar legume. Ho.

- há dois anos eu era uma pessoa projetada para ter alguém trabalhando para mim. cuidando da minha casa, enquanto eu fazia outras coisas, entre elas, certamente trabalhar. havia um cenário projetado, para que eu entrasse em casa depois das 18h tendo vivenciado outras experiências durante o dia, mas nenhuma delas relacionadas à casa ou aos filhos. hoje eu estou estudando formas de adequar todas essas rotinas, desejos. todas essas personagens. está ficando cada vez mais claro, muito embora seja parte de um processo recheado de esforço.

sabe? eu tenho uma COACH (babem!). e ontem estávamos conversando sobre como nós mulheres olhamos para as roupas de nossas avós: os vestidos de golinha engomada, das mulheres que dedicaram a vida a casa e à família. não queremos vestir essa roupa. depois olhamos para as roupas de nossas mães, terninhos de trabalho, com sapatos lustrados, que para muita de nós se transformavam em avental de cozinha à partir das 18h, quando nossas mães começavam a segunda jornada. não queremos vestir isso também. não nos serve.

estou aqui tentando costurar a roupa que eu quero vestir.

***

me deu vontade de voltar ao trololó perceberam?
tenho um monte de coisa para contar. sobre meus novos projetos, o vegetarianismo, as crises com colocar as crianças na recreação, meu interesse repente por comunicação não violenta e minha queda por história de inglaterra tudor. os mil passeios que fizemos no #umacoisanovaporsemana e que ainda não consegui postar. mas por hoje chega! e vocês, como vão?

08/05/13
Compartilhe

APRENDEM TUDO SOZINHOS. ENSINAM SE A GENTE PERMITIR.


- Mãe: Porque você não nunca mais vai entrar naquela loja que tem as letras iguais a da Bebêchila?

A quantidade de informação que eu preciso elaborar diante dessa pergunta:

O menino me acompanhou num desentendimento por mal (péssimo, deprimente) atendimento na loja Alô Bebê da Av. Ibirapuera há dois meses, rede de lojas na qual jamais adentrarei.

Com isso, aparentemente eu estou ensinando meu filho que como consumidores precisamos estar atentos aos nossos direitos, e vivenciar o exercício pleno de decidir onde, como, em que e porque gastar nosso dinheiro, coisa que está transtornada na nossa sociedade: compra-se tanto que muita empresa anda se comportando como se fossem eles que nos fizessem favores.

A memória e entendimento das crianças é surpreendente.

Tenho uma mochila que da marca Bebechila, que nos acompanha para cima e para baixo, e aqui em casa nos referimos à ela por esse nome mesmo. Essa mala tem uma etiqueta minúscula, com o nome escrito.

Eu não ligo nem um pouco para alfabetização de crianças em idade pré escolar. Sinceramente, por mim, não haveria nenhum contato institucionalizado com palavras antes dos 7 anos. Mas eis que o garoto fez essa associação. Dos ‘Bs’da Alô Bebê, com os ‘Bs’ da Bebêchila.

Há mais coisas entre as duas orelhas dele do que sonha a minha vã filosofia.

Não promover a alfabetização antes dos 7 não significa que eles naturalmente não possam se interessar por esses estímulos (TÃO! TÃO) presentes na nossa cultura.

Olha como é impressionante o contato de uma criança com as marcas, com o mundo que a cerca, com a atitude dos pais!! Olha a responsabilidade que eu tenho de saber quais delas estão de acordo com os meus valores e de minha família, observar minhas atitudes! Permitir!

Olha como eles aprendem só de ser. Só de existir. Só de estar. “Só”.

Por fim: isso não é um publieditorial nem nada. Só queria compartilhar.



02/05/13
Compartilhe

CANTA CÁGENTE

Vou contar um segredo... eu nunca tinha ouvido essa música na minha vida. Mesmo quando foi um hit da internet, eu que sou do contra ~cejura?~ passei batido pelo frisson.



Então recebi um convite para participar de uma homenagem ao dia das mães.
Eu que sou do contra, não sou muito afeita ao dia das mães. Tendo a pensar que se trata de uma data para fazer a gente comprar bugigangas e aquecer o comércio.

Mas daí pensei no tanto que ando agradecida por fazer parte de um grupo de mães - as mães de agora - que de uma forma ou de outra se unem, se afastam, brigam de arrancar os cabelos, se acusam e se afagam, se apoiam na internet e fora dela para tornarem suas próprias vidas e as dos filhos mais ... viva.

Viva!
Esses círculos de mulheres  já são um presente.

Então que seja uma homenagem à elas, não só à mim. Às tuas e não só à minha. 
Um presente para mães que invoca uma das coisas que eu mais gosto na vida (escrever blog? redondamente enganada, colega) EU GOSTO É DE CANTAR!

Fica aqui o convite, das meninas do Vila Mamífera - um novo portal de maternidade ativa, maduro e antenado com necessidades reais de muitos grupos maternos, sem perder a ternura, ainda não conhece? Dá uma olhada! - em parceria com vários outras iniciativas maternas na rede.

Vamos cantar uníssono (mas me dêem um tempinho para aprender a letra).

Veja como participar aqui




25/04/13
Compartilhe

O PRONTUÁRIO

Entro no estacionamento da maternidade quase exatos três anos depois.

Reconheço absolutamente tudo daquele lugar e sinto um frio na espinha lembrando do momento que saí com meu filho recém nascido por aquela porta.

Celebro a minha evolução como ser humano nesse espaço de tempo, mas sem deixar de sentir uma ponta de dó de mim mesma e do meu filho. Pela mãe que saía ferida, pelo filho que saía em um bebê (des) conforto enquanto possivelmente deveria ainda estar no útero.

Penso que já passou e entro no elevador.

Passo pelos corredores decorados da maternidade com um certo desgosto, vendo fotos dos bebês ali nascidos mas mesmas condições. Me imagino encontrando o meu próprio filho entre aquelas carinhas e arrumando encrenca na administração que na minha fantasia me retira do ambiente na marra de dois seguranças me carregando pelas pernas.

Acordo do sonho e já estou subindo uma rampa igualmente decoradas com fotografias que tentam em vão poetizar a tecnologia e segurança que o hospital oferece. Bebês etiquetados e enfileirados, equipamentos de monitoramento fetal, pinças, centros cirúrgicos, tudo em preto e branco. Como pode o mundo visual dos partos ter sido substituído por esse conjunto de referências vazias?

Penso em como pude eu ignorar esses signos claros de controle e opressão. Revolto-me por um instante com a minha própria ignorância. Reconcilio, aceito e agradeço o meu passado enquanto entro na sala de atendimento ao cliente.

Vazia.

Um funcionário passando me informa que a visita monitorada já começou. Digo que estou ali pelo meu prontuário. Ele sai para procurar alguém enquanto eu me recordo de que naquela mesma sala eu insistia que faria um parto normal para uma outra atendente que me mostrava fotos do centro cirúrgico, e que ao fim da visita se recusou a mostrar a tal sala humanizada que a maternidade divulga. Lenda, é a palavra que hj na minha cabeça.

Uma atendente chega e me trata muito bem. Ela já sabe que eu estou ali pelo prontuário e me informa que só eu mesma poderei retirá-lo, e se eu quiser que alguém o faça por mim é preciso procuração. Por mim não ha problema, se você quiser eu acampo na porta. Ela parece reticente, e sai para buscar "os papéis".

Me distraio com um porta retratos digital que apresenta  em looping o que devem ser as melhores fotos do serviço conveniado da maternidade. Me recordo de mim mesma naquele centro de cirurgia, do meu marido com aquelas roupas, do meu filho com aquela touca. Fotos de cesárea são absolutamente todas iguais, mesmo que eu não tenha contratado o serviço. Me perco em pensamentos de uma única foto do rosto da mãe com olhos distantes e pálidos, com uma lágrima escorrendo pelo olho devidamente maquiado com rímel.

Me pergunto se ela chora de emoção, de medo, de frio, de vazio, de frustração. Fico pensando se ela também achava que teria seu filho por vias normais e caiu no conto da cesárea ou se desde sempre escolheu a cirurgia como forma de nascimento e aquela lágrima e palidez no rosto representam o que são - a emoção cirúrgica, poética, singela, mas nada visceral das imagens de mulheres gritando de amor quando sentem seus filhos nascer pelo corpo. Recomponho do pensamento longe e a moça entra com os papéis.

Ainda me sobra um traço de questionamento sobre como deixamos as imagens de um nascimento mecânico substituir o significado de parto nas nossas cabeças. A moça fala comigo como se eu fosse uma bomba relógio.

Polida e extremamente educada, ela pede meus documentos e entra em nítido êxtase proposital. Seu filho é lindo, como é grande, deve ser esperto e esse cabelo e finaliza a sequencia de elogios com o escabroso: é o que importa né? que eles tenham saúde.

Tendo ido preparada para arrumar qualquer escândalo que fosse preciso, me comporto como a bomba relógio que aparento ser: um sorriso macabro, uma respiração profunda e uma pergunta: eu preciso escrever aqui o motivo da minha solicitação?

A moça revisa comigo os dados óbvios da ficha e responde: sim, informe para a gente porque você quer esses prontuários. o bebê ficou na UTI? é visível a cara de desconforto. 

Não. Não ficou na UTI. Me reservo a escrever os meus motivos enquanto ela suspira. No quadro destinado à isso: "PORQUE É MEU DIREITO." E só. Mas penso intimamente que esse não é o único motivo. Eu pedi os prontuários porque eu preciso de verdade. Encontrar a verdade.

Pego meu canhoto e saio da sala aliviada, refletindo sobre como parece que eu estou vivendo os últimos capítulos de um livro. E como a busca pela verdade é para mim fundamental para o processo de cura e aceitação. Entro no carro feliz, pensando em oque estará escrito nessas folhas que me serão entregues em alguns dias.



22/04/13
Compartilhe

EVENTOS PARA BLOGUEIRAS, EU AINDA NÃO VI DE TUDO

Fiquei estarrecida com minha própria ingenuidade para não dizer burrice, no último sábado.

Eu estou bastante acostumada a receber convites de grandes (médias, pequenas) empresas para participar de seus eventos. O que era há alguns anos motivo de felicidade, porque eu acreditava que haveria alguma coisa de interessante em participar dessas atividades como blogueira, reduziu-se a uma recusa atrás da outra.

No início eu ia porque me fazia sentir importante. Depois percebi que era mais importante para as empresas do que para mim, e me resguardei a participar porque acreditava que de alguma forma poderia aprender alguma coisa. Tendo depois de algum tempo percebido que a grande maioria dos eventos para blogueiras repetem sempre o mesmo formato de "celebridade + especialista" em um palco falando sobre qualquer assunto que a marca julga relevante - e óbvio, atende sua necessidade de promoção, mas raramente atende as minhas necessiadades de troca genuína de informação não comprometida - cansei da parapopéia de gastar meu tempo dando ouvidos a histórias nonsense. Puta chatice ficar ouvindo Dr. Qualquercoisa e Famosete falando que tal produto é essencial para a sua vida de mãe.

Eu achava que já tinha visto de tudo.

Em um determinado evento de uma marca maligna de produtos alimentícios infantis vi um especialista insistindo que a melhor forma de estimular a criança a comer fruta é oferecer com cereal matinal açucarado! Em outro evento de uma marca de fraldas, vi um especialista falando que as fraldas descartáveis tem o mesmo impacto para o meio ambiente do que as de pano "já que gastam água para lavar". Tenho visto marcas de fast food fazendo evento de alimentação saudável, ou marca de refrigerante fazendo evento de esporte é vida... 

Ou seja, marcas falam o que quiserem para celebrar suas egotrips e convidam todo o tipo de gente para suas festinhas privê. 

Daí passei para terceira fase dos atendimentos aos eventos. Só ia se eu achasse que o brinde valeria à pena #prontofalei, ou se o lanchinho fosse bom, ou se eu estivesse nas redondezas, ou se fosse uma boa oportunidade de encontrar gente legal ... é claro que isso levou dois eventos e minha estratégia caiu por terra. Afinal os brindes são sempre um cacareco à mais, eu raramente uso, tenho chances plenas de encontrar amigas em outras freguesias e por fim deslocamento nenhum vale à pena em São Paulo para alguém que cuida de filhos e casa sozinha. 

E eu virei vegetariana né? Não como mais enroladinho de presunto ou mini hot dog.

Mas eis que na semana passada fui convidada para um evento de uma empresa de celulares. Eu sou uma grande entusiasta de tecnologia, usuária de celulares. Muito embora eu tenha muitas críticas com relação ao seu uso desenfreado, vejo as conexões em redes sociais, possibilidade de acesso à web em tempo real e demais "regalias" dos aparelhos modernos como grandes vantagens para meu estilo de vida. Fora que o evento convidava também os meninos e o pai para passarmos todos juntos um dia no Jardim Zoológico. Pensei: ah... vai ser legal. Faz tempo que eu quero levar o Joaquim no Zoo.

E aceitei.

Havia muitos convidados com seus filhos no ponto de encontro determinado, um café bam-bam-bam onde o buffet instalado alimentava a galera na concentração para o grande passeio, enquanto algumas promotoras passavam de mesa em mesa conversando com as famílias e distribuindo envelopes. Editores de revistas renomadas para o público materno, uma ou outra carinha conhecida, mas ninguém de fato da esfera materna que eu frequento.

Foi o tempo de eu pegar um suco de laranja para o Joaquim, e percebo do que se tratava a ação da empresa de celulares, aparentemente lançando novos aparelhos e/ou precisando valorizar o impacto de seus modelos. Em crianças

Acompanhe:

Para cada jornalista/ blogueira/ mãe existia um envelope, com um aparelho dentro. A promotora oferecia o aparelho para que a pessoa passasse o dia no Jardim Zoológico, tirando fotos, compartilhando em suas redes e demais baboseiras utilidades do celular. Tudo previsível se não fosse o fato de que para cada criança havia também um envelope, com um modelo de celular, programado com jogos, aplicativos e outras funcionalidades de acordo com a "faixa etária" do rebento.

Acompanhei estarrecida, com um nó na garganta uma promotora que apresentava para um menino que não devia ter 7 anos um aparelho determinado, mostrando onde estavam os joguinhos, onde ele podia tirar foto, onde isso e aquilo, seguido de um "se eu soubesse que você gostava do Bob Esponja eu teria colocado a foto dele no template para você..."

Os pais da criança, cada um com seu próprio aparelho na mão pareciam muito confortáveis com a situação, bem como todos os outros adultos do evento. À essa altura eu já estava na porta, com o Tomás no colo, confirmando o óbvio: havia um envelope para Joaquim, e ele seria "treinado" pela promotora a operar o treco para nosso "dia especial" no Zoológico. Para quem não sabe, Joaquim tem três anos.

Eu tenho a seguinte política com relação ao uso de telas dos meus filhos: Tomás tem acesso restrito à tudo e Joaquim pode ver um pouco de televisão com moderação rígida de conteúdo e horas, não está autorizado a usar celulares em nenhuma circunstância se não para falar com família e amigos com supervisão, e pode brincar no tablet somente junto com os adultos, em jogos musicais e de "memória", por enquanto. Para alguns pode soar bastante radical. Claro que para mim é a expressõa genuína do meu bom senso, o que eu tenho de melhor.

Fora o absurdo de se apresentar celulares para crianças com a naturalidade em que se apresentaria um cavalinho de pau, eu fiquei absolutamente perplexa com o fato de uma empresa, um departamento de marketing, uma agência de promoções e por fim um ser humano - personificado na figura da mocinha que fez contato comigo, acharem normal usar as crianças como público alvo direto de seus aparelhos. E teria ficado maluca mesmo se fossem cavalinhos de pau: não curto propaganda dirigida para crianças. Meus filhos não são consumidores, falem comigo.

Fiz o Joaquim largar o suco de laranja que estava tomando sob protestos, e com ajuda total do meu marido, que à essa altura já pedia o carro de volta ao manobrista e me dirigi à saída, onde uma das promotoras não queria me deixar partir.

- Obrigada, esse evento não está de acordo com meus valores. Não só vocês estão estimulando o uso de celulares por crianças, como mais grave ainda, estão usando-as como público alvo de sua ação de marketing. - enquanto isso eu pensava, que ingenuidade ter imaginado que a ação seria voltada somente aos adultos! O que eu tenho na cabeça? Como pude trazer meus meninos aqui?

- Mas senhora! Não é para o seu pequeno! É para o mais velho!

- O mais velho tem três anos. Ele não usa celulares e nem eu vou permitir que vocês o usem diretamente para fazer propaganda de seus aparelhos. Por favor, me deixe passar.

Enquanto eu batia boca coma a mulher que aparentemente não compreendia o porque da minha ânsia de ir embora uma fotógrafa desavisada tirava fotos minhas, como se fosse normal. Olha como são os eventos dessas grandes marcas: um show de horror. A mulher insitiu:

- O celular não é presente, você vai devolver no fim do dia.

- Eu agradeço o convite, mas não estou disposta a deixar que vocês usem meu filho para fazer propaganda dos seus aparelhos. Não acredito que crianças devam ser alvo direto de campanha publicitária e muito menos consumidores de celulares.

- Mas o celular dele está programado com joguinhos. O "kids corner", eles vão usando no ônibus.... 

Ela insistiu algumas vezes nesse kids corner, enquanto eu ia andando e tentando sair dali. Algumas outras promotoras insistiam para que eu pelo menos tomasse um café, felizes, genuinamente ignorantes ao fato de celulares não serem produtos adequados às crianças e MUITO MENOS ao fato de uma ação para jornalistas/ blogueiros/ mães que envolva levar seus filhos ao zoológico para serem alvo direto da divulgação desses troços não estar de acordo com nenhum valor de respeito à infância.

Na minha cabeça era como se eu tivesse os levado à uma festa e deixasse que alguém desse um pouquinho de champagne para experimentar. Só um pouquinho. Só hoje. Depois você devolve. Mas nós vamos usar sua imagem, a do seu filho para divulgar essa ação bizarra. E esperamos que você divulgue nas suas redes. Minha permanência no evento deve ter batido o recorde de 5 minutos.

Eu não faço parte desse mundo, sorry.

No carro, algumas conclusões do bom senso da minha família:

- No dia em que os meninos não souberem mais brincar com brinquedos, nós adotaremos os celulares como forma de diversão.

- No dia em que eu precisar da Nokia para fazer um dia feliz com a minha família, eu aceito participar de uma esquizofrenia dessa.

- No dia em que alguém souber de um evento para blogueiras que não seja no mínimo uma total perda de tempo e no máximo absoluta falta de valores como foi o caso desse aí, me dê um toque. 

Por hora, me recuso a ser parte dessas festas sem sentido, para promover produtos dos quais eu não preciso, sem minimamente respeitar a minha inteligência.

Depois eu mandei um email para a moça. Numas de: você nunca leu meu blog? 
Lição aprendida para mim. 

Não tive resposta, claro. Para as empresas basta ajustar o público, e da próxima vez mandar o convite para alguém que não fique transtornada e saia ventando, com o filho protestando porque queria terminar o copo de suco de laranja. 

A braveza dele não durou muito.

Acabamos a manhã na Horta das Corujas. Quando cheguei ali senti um negócio maravilhoso, chama liberdade. Um espaço comunitário, com bom papo e gente boa. Revirei a composteira, os meninos regaram algumas ervas. Brincaram nos montes de folhas, fingiram pescar na cacimba.

Encontrei a Cláudia Visoni e contei para ela da minha ingenuidade. Ela me alertou, além de todo o abuso que a ação representava, de estudos recentes sobre os perigos do uso de aparelhos celulares com crianças, para desenvolvimento da visão periférica. 

Visão, adultos que não enxergam podem roubar o direito das crianças de desenvolverem seus próprios horizontes.

***

Falta só um último pensamento para eu encerrar esse desabafo.

A influência de grandes grupos na humanidade pode ser medida pelo tamanho de seus prédios, eu vi naquele filme.

Antes eram as igrejas. Monumentais igrejas que detinham o poder, por quem e para quem o povo vivia.  Depois vieram os castelos, os reis. O poder foi para as mãos das monarquias e suas grandes edificações eram símbolos de quem mandava no mundo. E de quem obedecia. Hoje são as corporações. Seus prédios são maiores do que qualquer igreja. Seus conglomerados colocam qualquer castelo no chinelo. E seus súditos permanecem os mesmos... aqueles que querem sentir-se importantes, por terem sido convidados à festa na corte.






17/04/13
Compartilhe

SÓ PARA CONTAR QUE...

Agora eu tenho uma coluna fixa através do trabalho árduo de MAMATRACA no site do UOL.
Venham e contribuam com seus assuntos, mi casa su casa.
Você confere também a linda Roberta às segundas feiras e a gloriosa Priscilla às sextas.
Não vai perder.



***

Eu li um texto da Elba, no conversas ao meio dia e tomei coragem de pedir o prontuário médico da minha cesárea na Pró Matre, bem como encaminhei DE VERDADE a carta ao mei GO, Dr. Mauro. Quandoo barulhinho do email soou no computador minah espinha gelou, meus dedos gelaram tudo gelou. Isso chama medão.

Conto as repercussões em breve, em tempo real.

***

Tenho um monte de novidade, uma delas é que balançar faz bem!
Obrigada por serem leitores queridos.
Só gente boa vinga nessa vida, muito embora às vezes pareça o contrário!

Para celebrar, um pouquinho de Maternidade Radical para vocês - THE CORPORATION
Imperdível para quem quer ser um consumidor crítico! (da vida, dos médicos, da coca cola, do que come, veste, lê, pensa, sente, compra, ganha...)