23/12/13
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10 DICAS PARA ESCOLHER BONS PRESENTES

Chá de Bebê, Aniversários, Amigos Secreto, Natal e outras datas comemorativas: como escapar da orgia do consumo sem sentido? 

Vivemos uma sociedade direcionada ao consumo máximo, isso não é novidade. Minha mãe conta de um tempo em que presente era um só. E só no Natal. E olhe lá. Meu pai conta que teve dois pares de sapato durante toda a infância, que eram comprados muitos números maiores e usados com enchimento na ponta por anos à fio.

Está certo que ambos viviam um cenário social diferente, filhos de imigrantes, no melhor estilo Terra Nostra, teoricamente com menos recursos. Mas é indiscutível que no nosso cenário, consumo não está diretamente relacionado a poder aquisitivo: e é sinal de sucesso, saúde e poder consumir cada vez mais, independente do que diz a conta bancária.

E quando pinta uma criança na cena, a coisa pode descambar de vez. Públicos vulneráveis como os pimpolhos e as mães, pais, tios e tias que os cercam são alvo muito certeiro para a indústria do "vamos comprar mais"!!

Observando as nossas próprias relações de consumo aqui em casa e de outras pessoas que ando acompanhado - que assim como eu tem o mínimo de vontade de melhorar as condições do nosso planeta e semear essa consciência nos filhos - pensei em algumas ideias que mantém a tradição do "doar e receber" tão presentes nas efemérides que celebramos tantas vezes na primeira infância dos filhos, mas questionam as compras inconscientes, que muitas vezes nos levam a comprar só por comprar, sem sequer pensar sobre aquele produto. Olha como ficou a lista. E se tiver mais alguma ideia ou prática da sua vida, conte nos comentários.

1) Escolha suas datas!
Dia disso e dia daquilo. Você já se questionou o porque celebramos essas datas especificamente? Fazendo um levantamento empírico, considerando que você tem dois filhos que certamente vão ganhar um presente no Natal e no aniversário. E que eles convivem com pelo menos 30 crianças. E na sua lista pessoal de amigos e família existem pelo menos 10 a quem você presenteará pelo menos uma vez ao longo do ano. E somando com o dia da secretária, os dia dos avós, os dia dos professores, das mães, dos pais e das crianças, a matemática aponta que você vai comprar 2452890 presentes em um ano. Pois bem, vale à pena o questionamento: quando e porque presenteamos? E mais, existe data certa para presentear?

Aqui em casa, estamos elaborando essa resposta. Mas já adianto, venho escapando completamente das datas comemorativas com impulsos de consumo e sem significado para a minha família. Um exercício e tanto.

2) Compre Nacional!
Esse é um pensamento que deveria nortear todo o nosso consumo. Não só estimula a indústria local como também é uma atitude muito mais sustentável. Muito embora muita coisa importada pareça um grande negócio, a economia, o meio ambiente e as próprias pessoas envolvidas nesse tipo de comércio é que pagam a conta dos precinhos camaradas.



Passei por uma epopéia recente para comprar um tênis para o meu filho mais velho que não tivesse sido feito no exterior, em condições que sabemos, não favorecem a condição humana dos trabalhadores. A lógica é simples: se está barato, é porque tem alguém pagando por aquele preço. Se não sou eu pagando, quem paga?? Isso sem contar os produtos feitos na China, Índia, México e por aí vai que são absurdamente caros. Ou seja, você paga e o coitado do menino da Indonésia (pouquinho mais velho que meu filho que trabalha numa fábrica sem janela para costurar duzentas solas de sapato por dia) paga também. Pessoal, andamos fugindo desses produtos.

3) Escolha os pequenos
Esqueça os mega shoppings, mega marcas, mega corporações. Faça compras no seu bairro, na loja da esquina, dos pequenos produtores. Vale considerar também os artesãos, as cooperativas. Uma amiga sua que faz bonecos, uma tia que faz sabonetes, a confecção de família na rua do seu trabalho. Algo que mantenha o dinheiro circulando na pequena economia, que estimule o comércio local da sua cidade. Tenho me sentido sempre mais coerente fazendo escolhas locais e pequenas do que optando por qualquer coisa vinda do universo "mega".

4) Proponha permutas e trocas
Uma boa amiga me contou que leva a vida exatamente assim: "eu pretendo usar dinheiro o mínimo possível. troco minhas humanidades, só pago alguma coisa para você se não houver nada que eu tenha que não possa te interessar". A ideia é simples: tem alguma coisa que eu posso te oferecer em troca? Acho um desafio pensar na vida desta maneira, mas tenho me esforçado para enxergar isso como possibilidade real. Eu faço comida para fora, você vende bolsas de pano, vamos trocar. Eu quero sua linha nova de produtos para cabelo e em troca te ofereço vales da minha loja virtual de qualquer coisa, vamos trocar! E também para os prestadores de serviço, pessoal da agência de publicidade, troca com a assessoria de imprensa, que troca com o dono do comércio local... e por aí vai.



Aqui isso tem rolado especialmente por causa do blog. Se eu puder comprar um produto, que atenda as condições ali em cima, e que possa ser retribuído com aquilo que eu posso oferecer: divulgação, muito bem! As trocas de produtos e serviços já são uma realidade para muitas pessoas. Nessa foto você vê a minha querida amiga gravidona do seu terceiro filho. Eu queria dar de presente algo que fosse supimpa, para um bebê que "já tem tudo" (e a verdade é que ele tem tudo mesmo, começando pela família amada que vai recebê-lo). Propus a troca para a Ligia de Sica, outra amiga querida, empreendedora materna da Bebebchila. Voilá, o pequeno André agora tem tudo e mais um pouco, com coisas úteis, trocas entre mães e produtos nacionais e #merchandobem !! ;)

5) Pense em presentear USADO!
Calma, não caia da cadeira. Mas quem disse que presente tem que ser novinho? Minha amada avó era rainha de fazer esses agrados sem preço, e por muitos anos em todo Natal eu ganhava alguma coisa dela, inestimável. Uma lata cheia de botões, uma boneca antiga da sua terra natal. No aniversário do meu filho mais novo eu pedi que as pessoas que quisessem presentear com usados, ficasse à vontade. Para quem tem filhos, é uma maravilha de iniciativa. Passar um brinquedo para frente, que ainda vai divertir outra e outra criança por muito tempo, economizar uma graninha e ainda pensar nos grandes R (reutilizar, reduzir, reciclar). Ponto para quem toma iniciativa e mais ponto ainda para quem quebra o paradigma do "novo". Novo ou novidade? Você decide.

6) Compre ultilidades ou comestíveis
Eu fui ao mercadão nessa semana, e ali resolvi comprar um presente para meu marido: sacos de cogumelo desidratado. Na mesma loja, minha mãe comprou presentes para sua sobrinha: pimentas variadas e um moedor. Certamente serão mais usados, mais autênticos, mais interessantes e mais adequados do que um cacareco qualquer "só para agradar". 




Foi o que eu fiz também no "dia dos professores". Um tanto acuada pela celebração mas também equerendo também reconhecer o carinho que TODAS as pessoas envolvidas no trato dos meus filhos na recreação que eles freqüentam, resolvi fazer uma cesta de frutas, e oferecer para o coletivo. Da diretora ao faxineiro, todo mundo recebeu nosso carinho e gratidão assim. Eu me senti bem, e eles pareceram gostar. Acho que esse critério vale para produtos de higiene, roupas, fraldas, e coisas que invariavelmente usamos no dia a dia. O que vale é o gesto, e um cartão sincero e uma embalagem bonita ajudam! ;)

7) Faça com as crianças
Nesse ano não fizemos nenhum presente específico com as crianças, ainda os acho muito pequenos para tal - e também tenho aversão a cacareco, sabe? Então há uma fina linha aí do que as crianças podem de fato fazer e que agrada o presenteado. No caso das avós, sabemos, um rabisco qualquer, uma mãozinha estampada e uma moldura, seguido de um beijinho, é o maior presente do mundo! Mas para outros membros, convenhamos, não é todo mundo que curte um baby-art.



Esse ano "fizemos" o papel de presente: uma pinturona que eles costumam fazer com freqüência e que serviu para embrulhar os presentes aqui de casa, no melhor estilo "é simples mas é com amor". Na verdade, aqui coube um pouco de picaretagem, porque a pinturona sempre acontece por aqui, e eu acabei mesmo foi dando um fim para tanto papel e tinta. Mas veio à calhar!

8) Foque na presença
Se a efeméride celebrada está centrada no presente, acho sempre uma oportunidade para reflexão. Houve um bom tempo, na ascensão "classe média" da minha família, que as festas de natal eram centradas na troca dos presentes. O que não seria nada estranho se não fosse o fato de que ano a ano, eles iam aumentando em número e preço. E mais membros e mais gastos. E mais papai noel, e mais árvore. Hora de dar uma pausa: estamos juntos nessa festa para que mesmo? Não que eu seja contra presentes. Mas só acho que eles não podem ofuscar a presença. Eu tenho tentado tomar cuidado aí, enquanto, claro, questiono a necessidade e a verdade de cada celebração, para mim e para minha família.

9) Livre-se da tentação dos cacarecos
Experiência própria: em um momento de distração quis agradar os meninos com brinquedinhos plásticos da loja do 1 real. Ignorando o fato de que eu não gosto de comprar plástico nem brinquedo da China, caí na tentação do cacareco baratinho. Resultado? Quebraram em dois dias de uso, sem possibilidade de conserto e já foi tudo para o lixo reciclável (com meus maiores desejos de que sejam recicláveis, porque na esmagadora maioria, os plásticos de brinquedo não são, vão para o lixo mesmo, ocupando mais espaço no mundo). Ou seja, consumo porco. Nesse sentido, a vontade de presentear com qualquer coisinha, só pelo gesto, só para agradar, pode se aliar a outras intenções: buscar coisas de boa qualidade, mas usadas, presentear com utilidades, fazer alguma coisa em casa, ou algo que o valha. Mas evitar cacarecos é sempre uma boa ideia.

10) Presenteie com gestos, de verdade
Ofereça uma música, um café da manhã na cama. Faça um almoço, olhe para a própria ceia, no caso do Natal, ou para a mesa do bolo de um aniversário como verdadeiros presentes. Ofereça para levar o brigadeiro. O lance é que no começo a gente parece aquela prima esquisita que está questionando o inquestionável, mas em algum tempo, vamos também ajudando a construir um novo valor para as coisas que já tem valor, mas estavam meio esquecidas. Proponha um passeio, escreva uma carta, resgate uma foto antiga e ponha num porta retrato. Escreva uma história do passado, procure um gesto efetivo para presentear. Presente é isso né? Oferecer para alguém que a gente gosta uma representação do nosso afeto. 



Presente das avós dos meus filhos para a festa de aniversário do Tomás (que completou 2 anos, ploft) - elas fizeram toda a comida! Doces e salgados pelas mãos das avós, comidinhas vegetarianas e deliciosas. Tem preço isso??

23/10/13
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QUERO UM PARTO HUMANIZADO: COMO CONVENCER MEU MARIDO

Meus olhos e ouvidos observadores notaram que, em algum momento do processo de empoderamento feminino, ligado à gestação, parto, aleitamento e criação de filhos, figuras recorrentes aparecem, normalmente nessa ordem: o pai da criança, as avós (com força total para a materna, embora as sogras sejam também personagens em muitas histórias), os médicos, o círculo de amigos. 

Coadjuvantes com síndrome de protagonistas.

De repente, aquela mulher já ganhou óculos, já entendeu o que quer e precisa. Já começou a exercitar a difícil arte de fazer escolhas autônomas. E esse bando de gente nem sempre está no mesmo pé.

Recebi alguns pedidos para falar sobre isso, a pergunta que me fazem no geral é a coisa mais interessante, e ainda assim, cheia de significado: como você convenceu seu marido?

Um breve histórico conclusivo: meu marido é leitor fiel desse blog e eu tenho essa habilidade de expressar também fielmente meus sentimentos em palavras. As histórias que vivemos, vivemos juntos. Conversamos o tempo todo no caminho, e minhas reflexões menos palpáveis na fala, saíram em forma de texto. Houve comunicação efetiva. Ele não foi convencido, simplesmente estava ali. É só assim que consigo explicar o fato de que em momento nenhum houve a possibilidade de considerar o que "ele queria"no que dizia respeito às escolhas para a gravidez, parto e amamentação dos meus filhos na minha história pós-empoderamento.

Pensei alguns dias, muitos dias sobre essa questão. Sei de histórias de homens, que na primeira consulta com o novo GO, aquele em quem especialmente a gestante coloca suas esperanças de um atendimento obstétrico de respeito, já saem invocando as mais célebres frases dessa fase latente do percurso. E a angústia dessas mulheres tendo que lidar com tudo o que envolve essa mudança de paradigma para si mesmas, e mediar ainda as questões das pessoas que as cercam:

- Eu quero que você me garanta que meu filho vai ficar bem.
- Vamos tentar o normal, contanto que ela não corra riscos.
- Eu também quero ser parte desse processo, eu também tenho direito à escolha e opinião.
- Afinal, é meu filho também.

Do lado das mulheres, tenho escutado assim:

- Meu marido não vai aceitar.
- Ele também tem o direito de ficar preocupado.
- Ele é mais conservador e precisa de segurança.
- Meu marido já mandou eu parar de ler o seu blog.

;)

Quero levar esse assunto para duas vertentes.
1) EVIDÊNCIAS
2) MACHISMO. OU FEMINISMO SE PREFERIR.

Porque nesses anos percebi que existem algumas portas de entrada para a aproximação de qualquer pessoa para a temática - e vivência - de gestação, parto, amamentação e criação de filhos fora dos padrões existentes, tecnocratas e terceirizadores. Vou me arriscar a dizer que a porta das evidências científicas, é a mais larga de todas. Eu vi com os meus olhos uma amiga próxima entrar somente, e tão somente pela do feminismo (ela simplesmente cagava para as evidências). Há quem ainda se enverede pelas questões humanitárias, do amor mesmo, da esfera dos sentimentos ou ainda da espiritualidade e fé. Mas essas últimas, acho bem pessoais ainda que indiscutivelmente potentes, portanto não serão discutidas aqui. Ainda que eu não me conforme que os tementes à Deus, Deusa ou qualquer outra força maior acreditem (e concordem e pratiquem o fato de) que mulheres aqui no Brasil sejam defectivas na hora de parir seus filhos, de forma epidêmica.

Voltando à vaca fria, a maior das portas: Evidências, a menos espinhenta.

Pai da criança, avó, tia ou círculo de amigos não parem o bebê. Quem passa por esse processo é a mulher e ele próprio. Apoio é importante, e fundamental. Do pai, se houver pai, é gostoso pacas. Quem olha para o parto como o capítulo final daquela noite (ou dia) na chuva, na rua, na fazenda (ou numa casinha de sapê) quando o bebê foi concebido, vai achar ainda mais legal que o casal esteja na mesma sintonia. Gozando do amor, dor e prazer de ter um filho por vias respeitosas. 

Assim como para qualquer outro ser humano nascido e criado na cultura da medicina obstétrica tecnocrata em que vivemos, se deixar levar por esses novos paradigmas é muito assustador. Afinal, medicina é sinal de segurança! UTI neonatal é sinal de controle! Cesárea é garantia! E como, meus queridos leitores, "convencer" essas pessoas (marido incluso) de que estamos olhando para novos modelos de atendimento? De que estamos desmistificando esses aforismos ultrapassados? 

Eu não sei vocês, mas eu entrei nessa onda pela porta das evidências. E é a primeira iniciativa que eu sugiro que seja aplicada em qualquer diálogo sobre o tema: fatos. Uma boa idéia é fazer um convite à pessoa em questão para que assista ao filme "O Renascimento do Parto". Acompanhando as histórias na Fanpage deles, já vi pai se desculpando publicamente com mãe, por não tê-la apoiado quando ela começou a oferecer resistência ao "obstetra fofo" indicado pela família dele. 

Nesse momento vale uma opinião bem pessoal: eu não acredito em "convencer" as pessoas. Eu tive muita dificuldade para elaborar esse texto porque ele se baseia na premissa de que precisamos mudar a opinião de alguém. Portanto, fica aqui uma ressalva: apresentar evidências, dialogar sobre o tema, convidar para assistir ao filme, enviar links de blogs sobre o assunto para mim são encarados como COMUNICAÇÃO. Como ferramentas de transformar os pensamentos e desejos daquela mulher em figuras palpáveis. Para que sejam compreendidos pelo entorno, pelo único e exclusivo motivo de: é importante ter apoio. E caberá à cada uma individualmente saber com quem vale à pena conversar sobre isso e quem não vale.

Ficam aqui alguns links relevantes, para compartilhar com quem merece:


Vale MUITO (assim como a preparação para a própria gestante) convidar as pessoas que ela julga importante que estejam envolvidas nesse processo a participar dos grupos de apoio e encontros. Palestras, consultas, leituras, livros. Em uma história bem próxima vi duas avós que relutaram se envolver com o assunto, ignorando os links, refutando as leituras, oferecendo um tipo de apoio silencioso, que veio - no momento do parto - se desvelar por completa falta de informação sobre os processos. Mensagens desesperadas para os pais, fofocas na família e uma aura de preocupação que nada ajuda um trabalho de parto pairando no ar. Não é à toda que MUITAS mulheres excluem os familiares desse processo, ligando para os avós somente depois do nascimento do bebê, coisa que também já vi gerar rompimento de relações temporário entre mãe e filha. Mas oras... são nove meses para toda a família. Se se importam, que se informem. Se não concordam, que não atrapalhem.




Segunda vertente, a espinhenta.

Um cara que está atuando como parte da "tomada de decisões" ou que clama o seu "direito de escolha" dentro do processo de gravidez, parto e amamentação ~pode estar~ repetindo comportamentos da nossa sociedade machista, que tem uma mania indomável de achar que o que acontece com o corpo daquela mulher é da esfera pública. Sim, ele é o pai. Mas o bebê está dentro do corpo dela. Uma leitora me contava sobre o dilema familiar do sexo do bebê: ela não quer saber, ele propôs a sexagem.

Parece simplificado demais da minha parte - cada um é que sabe a complexidade dos relacionamentos que vive - mas minha cabeça pensa assim: é no meu corpo? Minhas regras. Vão tirar o seu sangue para fazer a sexagem, ou o dele? Então decide você. Vão esfregar o ultrassom na sua barriga ou na dele? Então a escolha é sua. Nem você, nem ele, nem ninguém naturalmente saberia o sexo desse bebê. Os procedimentos para a descoberta ocorrem no seu templo. Faça você (e banque!) essas escolhas.

Meu corpo, minhas regras é um mantra feminista, que às vezes cai esquecido, mesmo nas famílias mais lúcidas sobre os mais variados assuntos. Como pode um par - seja ele um homem, uma companheira, uma avó, uma amiga - atuar com poder de escolha sobre o corpo e desejos de outrém?



Quem vai ficar na recuperação caso seja uma cesárea? Quem vai levar os pontos? Quem vai fazer a força, caso seja um parto normal? Quem vai sentir as contrações, se não houver anestesia? É dessa, e só dessa pessoa o direito de escolha. "Convencer" um pai sobre aquilo que acontecerá na gestação, parto e amamentação é antes de tudo refletir sobre quem tem o verdadeiro poder sobre aquele corpo. 

Então começa um largo mimimi (desculpe, não tenho outra palavra) sobre o pai-participativo. Tão pai que é quase mãe (e todo o risco que eu corro por escrever essa minha opinião, que anda numa fina linha entre empoderamento e a diferenciação de papéis por gênero, coisa largamente discutida por algumas linhas do feminismo). Ele vai à todas as consultas de pré natal. Ele acompanha os números da gravidez. Ele veta os nomes, ele dá outras ideias. Ele escolhe a decoração do quarto. Sei lá eu mais o que que se precisa fazer para participar antes do parto. O cara participa. Eu tenho um desse em casa, sei do que estou falando.

E chega na hora dessas decisões, as que tangem o feminino, que passam por nossos úteros e vaginas, veias e seios, para alguns indivíduos da espécie, me parece que há uma confusão de limites. Estou sendo drástica?  Não, queridos leitores. Não acho que pai nenhum - por mais participativo que seja - tem nenhum poder de escolha sobre essas questões. Seu corpo, suas regras.



Pois isso não significa também que não seja difícil para eles! Ou para elas, as companheiras e mães, vós e tias, nessa nova onda de busca por partos mais humanos. É difícil. É difícil até para o GO que até ontem achava que estava fazendo o melhor para sua paciente, porque foi educado assim. E nem por isso, facilitemos - com nossas barrigas e saúde dos nossos filhos - o caminho que é dos outros. Você se colocaria voluntariamente numa cesárea eletiva, para que seu marido se sinta mais seguro? Para que a opinião ~dele~ seja levada em conta? Ainda que uma grossa camada de mulheres o faça por motivos de ordens desde astrológicas até para não prejudicar o feriado do doutor, estamos aqui falando de quem já foi iniciado no processo para o empoderamento na gestação, parto, amamentação, certo?

Mas prestem atenção. Esse empoderamento não exclui ninguém de suas possibilidades de participação: onde ela é de fato bem vinda e necessária. Muito menos de suas responsabilidades! Existe espaço para que esse par participe. Existe muito o que apoiar, debater, construir junto, conversar. A cada vez que eu sacava meu peito para fora para amamentar o primeiro, eu lançava um olhar fulminante para o pai da criança, se ele não estivesse em 30 segundos com um copo de água na minha mão. Uma participação que é de fato APOIO e não CONTROLE.

Minha última observação sobre essa dicotomia entre participação do pai e direito de escolha é que elas são quase sempre inversamente proporcionais, ironicamente. Quanto mais "participativo" nas escolhas, menos "participativo" na hora de limpar a bunda do nenê, desculpem meu resumo grotesco em francês. Como se houvesse um grande espaço para participar dos processos que dizem respeito ao corpo e universo femininos de fato - segurem-se nas suas cadeiras, gestação, parto e amamentação são coisa de mulher. E depois uma tendência quase maquiavélica a transformar tudo o que vem depois - desde o cuidado braçal do dia a dia com o bebê até a responsabilidade de acompanhar o desempenho na escola ou sei lá eu o que mais se precisa fazer para criar filhos - em "isso é com a mãe". Oras, francamente. 

A presença do pai (ou qualquer elemento) nessas escolhas é antes de tudo, uma questão feminista. De novo, para não esquecer: meu corpo, minhas escolhas. 

E para qualquer um nesse movimento que ainda galga a segurança, o controle, seja ele da ordem que for, do exercício de poder sobre o outro ou de uma genuína vontade de proteger os seres amados, a única coisa que eu tenho a dizer é: esquece. Não há controle. Portanto, se você está nesse texto para mostrar "garantias" para alguém, melhor procurar outra entrada. Ninguém até hoje entrou para esse universo pela porta das garantias.









11/10/13
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PRONTA PARA LER SEU PRONTUÁRIO?

Há alguns meses eu canto em um coral Universitário, que anda se apresentando em eventos da faculdade. Um deles, homenageava as Mães de Maio, mães que perderam seus filhos para a violência do estado, enquanto abria uma comissão da verdade na própria instituição, para investigar os arquivos da ditadura, punir culpados, honrar vítimas. No dia desse evento, atrás das cortinas pretas eu ouvia as palavras em espanhol de uma "Abuela", mulheres do movimento original argentino, que lutam até hoje para reconhecer e recuperar a identidade de seus netos - filhos de presos políticos assassinados na época da ditadura.

Não preciso nem dizer que a oratória era punk.

Para sorte desse texto, o que o fará ainda mais intragável, por uma frestinha da cortina eu via meu até então único espectador, o homem mais amável do mundo, interessado tanto nas minhas cantorias como nos conteúdos que elas ilustram. E enquanto a mulher falava, ele se debulhava em lágrimas. Meio de longe, sem compreender muito o que dizia a frágil senhora e ainda incrédula de que ele poderia estar chorando tanto, (afinal seria uma crise de espirros?) eu preferi me concentrar nas notas que precisaria atingir, nas respirações, no repertório. Alguns minutos depois estávamos no palco para cantar para uma platéia de narizes e olhos vermelhos, de lenços se dobrando em mil pedaços.

Terminou o show e voltamos para casa conversando. Naquela época eu acabara de requerir meu prontuário médico na maternidade onde meu primeiro filho nasceu, de uma cesárea eletiva, indesejada, ma indicada e agendada por motivo torpe, por coação médica - como muitas e muitas cesáreas brasil afora. Em fato, como provam os números, como a maioria das cesáreas especialmente São Paulo à fora.

"Eu entendo agora essa sua insistência pelo prontuário. O porque não deixar quieto."

Aquela senhora havia contado sua história. Do seqüestro da filha ativista. Da tortura da filha grávida. Do assassinato da filha recém parida e sumiço do bebê. Da criação do movimento de mães em busca da verdade sobre os filhos, do resgate de mais de 100 crianças, recuperação de suas genealogias, retorno e conhecimento aos lares biológicos. Ela, Estela, ainda procura o neto.

A leitura amarga do meu prontuário tem uma relação sutil mas nem tanto com as comissões da verdade. Com a quebra dos sigilos. Com a democratização da informação da história da minha própria vida. Claro que ninguém que passou pelo sistema obstétrico nacional foi vítima de ditadura (ou foi?). Claro que existem proporções de violência a serem guardadas (podemos escalonar a violência?). Claro que isso tudo aqui é só uma alegoria, que faz sentido única e exclusivamente para mim (ou não).

Lá no prontuário estão descritas, inclusive as invenções. Aquil é um registro fiel dos procedimentos excruciantes que uma mãe no momento do parto e seu filho passam dentro do sistema hospitalar. As primeiras linhas do kit de papéis contam com a letra macarrônica do infeliz médico que me atendia, comprovando o que eu, por vivência achava dele: psicopata mentiroso.

Minha admissão na internação consta como "devida à distócia em TP".
Eu não estava em TP, vocês sabem. Nenhuma das razões para o agendamento da cirurgia que encerrou minha gravidez e removeu o meu filho pela barriga, está registrada no prontuário. E as mentiras vão comprovando as verdades! É um sistema opressor.

Ali não há bebê fofinho para a gente admirar. Não há distrações. Não há visita ou preocupação externa. É realidade nua e crua. Tão chata, tão espinhenta, que eu mesma (que sou cascuda, vocês sabem) tenho lido em parcelas suaves, me dando um tempo para digerir tudo o que passei. Fora o tempo para entender os termos e procedimentos. Volto para narrar a experiência dessa leitura e as coisas que descobri com ela em breve.

Sei que vejo mais e mais mulheres, como se acordassem com sede de verdade. Ou de curiosidade. Ou de simplesmente incomodar. Ou porque é seu direito. Ou porque querem deixar algum recado para instituições, médicos, amigas próximas, para seus filhos ou para si mesmas. Para os pais desses rebentos, que igualmente anulados do processo podem sair das vestimentas azuis e do papel de paizinho, para ler com os próprios olhos aquilo que seus olhos viram mas recusaram-se a enxergar. As lavagens, nos bebês, os procedimentos nas mulheres. Os remédios que lhes injetaram. Mulheres dirigindo-se às maternidades, lidando com as burocracias (nem tão difíceis, uma vez que o acesso  aos prontuários são direito garantido do paciente e ficam disponíveis por 10 anos para solicitação), explicando para esse ou aquele o porque elas não colocam pedras em cima das histórias. O porque é importante saber o que aconteceu. Para elas, para o próximo e para a sociedade como um todo, composta cada vez menos de passividade, e mais de protagonismo. A antítese da opressão. O porque elas estão dispostas a cavar nesses buracos. O porque. Porque. Por que?

Eu não sou bíblica, vocês sabem, mas preciso apelar para um fim inquestionável para esse texto:

João 8:32

"E a verdade vos libertará"

09/10/13
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O DESMAME ENFIM, FOI ASSIM

Já contei que acredito que o desmame é um processo que começa no momento em que o bebê começa a colocar outras coisas na boca, que não o seio da mãe.

Já contei que enxergo a Livre Demanda de um jeito peculiar e intrisicamente ligado ao processo do desmame, uma vez que a condução de um desmame, ou até mesmo um desmame natural, totalmente levado pela criança tem como etapas a diminuição da demanda. Logo para entender desmame, para mim, foi preciso entender demandas. As minhas, as deles.

Meu mais velho desmamou aos 2 anos e 9 meses. Interessantemente, mamou junto com o irmão mais novo por um ano, quase redondo. Os ciclos de um ano parecem ser importantes para mim e para as crianças aqui de casa.

Mas para contar o último capítulo da série, houve um momento lá na gravidez em que eu achei que Joaquim desmamaria. E estava observando a "naturalidade" daquilo. Se por um lado eu sou uma convicta lacto-gestadeira, por outro quando via meu filho desinteressado pelo peito, enquanto a barriga crescia, comecei a me perguntar sobre como seria a tal da lactância tandem. "Ele não vai chegar lá".

De fato, desisteresse é uma palavra honesta. Senti sim a diminuição do leite e pela primeira vez entendi a aflição do "peito murcho". Existe uma mitologia que circula a amamentação que diz que quando o peito está murcho é porque não tem leite. Essa sensação de "falta de leite" coloca mulheres em paranóia. Acreditando que o leite está acabando, pressionadas por questões internas e externas, mal apoiadas por especialistas na área e normalmente muito, mas muito assediadas pela indústria, é comum que nesse momento ofereça-se complemento lácteo não materno para o rebento. Dos zero aos sei lá quantos meses. Eu entendi naquela época o que motiva as mães a desmamarem seus filhos, ou a serem cúmplices de um desmame. Desinteresse. Sensação de peito vazio. 

Como eu disse, eu estava observando a "naturalidade" daquilo. Claro, eu estava gestando outro bebê, haveria mudança na produção de leite. Mas por outro lado, estava muito aberta e atenta também às demandas dele e às minhas próprias. Sei que ali, com um como de leite de vaca, uma nova tradição de acalanto, uma mamadeira ou chupeta ou qualquer outro substituto ao seio eu poderia ter proporcionado o desmame do Joaquim. Resolvi não fazê-lo, como quem tenta se equilibrar entre as tábuas quebradas de uma ponte sólida de um lado, sólida do outro, mas um pouco frágil no centro. E ficou ainda mais tênue. Eu sabia que enquanto ele demandasse, ele mamaria. E por alguns dias: ele parou de pedir para mamar. Achei ali que não chegaríamos do outro lado da ponte, e já me convencia de que "assim foi a nossa história" ou "ele não quis mais"...

Mas havia uma participação minha naquilo e também havia muita coisa ainda para acontecer.
Quando se trata de desmame conduzido, eu entendo hoje que não oferecer é uma boa ideia. Intuitivamente, eu despreparada para o desmame de um bebê de menos de 20 meses, segui oferecendo. Oras ele aceitava, oras queria nem saber. E veio o irmão.

O tal do peito vazio virou uma fábrica de dar inveja à qualquer siliconada. Hoje mesmo, com uma amiga próxima tendo questões com a amamentação, depois de um parto natural lindo, eu percebo que a amamentação foi e é algo muito natural para mim, diferente do parto. É um dado curioso, vejo muitas mulheres com essa dicotomia, encrencas no parto amamentações fluidas. Encrencas na amamentação, mesmo depois de terem parido sob o batente da porta.

Na minha cabeça permanece a ideia de que a amamentação é ainda um ritual sutil de seguir parindo aquele ser. E veja você, pari o segundo em um parto perfeito, pero no mucho. O primeiro, que nunca foi parido, ainda estava no processo de desligamento do meu corpo. Eu não tiraria essa chance dele. E quando ele viu as tetas da Jayne Mansfield e um novo ser acoplado no primeiríssimo dia em que conheceu o irmão, recordou-se do quanto era bom. E voltou à prática da leiteria diária sob livre demanda. Já falei sobre isso aqui.

Os meses foram passando e da mesma forma que a livre demanda acabou quando Joaquim começou a comer ela acabou novamente enquanto eu ia saindo do puerpério, e ele ia crescendo. Amamentava Tomás em LD e Joaquim passou a ser amamentado para fins recreativos. Claro que para ele era mais sério do que parece. Para ele era o mamá. Inseparável. Amigo. Amor da mamãe. Ele não estava nem aí que era dividido com o irmão. Ele protestava sim, nas vezes que eu dizia, agora não, depois do almoço, ou qualquer outra enrolação do gênero. E parecia não dar sinais de que nunca largaria o negócio.

Confesso que os desafios da amamentação prolongada foram muitos, mas afirmo categoricamente que não foram difíceis. E um belo dia ele disse: eu estou grande, não preciso mais de mamá.
Eu não sabia se ele estava repetindo algo que ouvira. Se estava expressando alguma coisa de dentro, ou alguma coisa minha (filhos muitas vezes falam aquilo que a gente não consegue falar). Eu tinha ouvido muitas histórias de desmame "natural"... quando o bebê se despede do seio, dá um beijo, diz que não que mais e tals. Achava lindo, e achava que isso ia acontecer com a gente. E do mesmo jeito que ele disse que não queria mais mamar, olhou para mim e pediu: me dá mamá?

Joaquim ficou nessa lenga-lenga por meses. Falava que não queria, e seu corpo vinha mamar. Era como se nele habitassem as duas forças. Aquela que queria crescer e aquela que ainda precisava da energia natural da mãe para alimento emocional, físico e psíquico. Só que eu não entendia isso tudo com tanta clareza como hoje, veja bem isso tudo já faz quase um ano. Nessa distância eu consigo enxergar que era uma coisa de nós dois. Queríamos o fim, queríamos permanecer conectados. Era o fim do parto do corpo do Joaquim, eu resolvi interferir. Nesse momento eu entendo que o desmame do meu filho não teve esse componente "natural" na medida que eu dei ouvidos àquilo que ele falava.

E comecei a converter. Ué, mas vc me disse que não quer mais! Vamos mamar daqui à pouco. Ele esquecia, pedia de novo, eu ia procrastinando. À partir daí, eu não oferecia mais o seio. Ele passou a pedir menos, mas havia vezes em que chorava quando eu negava o peito. Muitas vezes eu voltava atrás, afinal eu estava desmamando também. Muitas vezes era questão de segundos e ele realmente esquecia que queria mamar. E assim foi. Um dia mamou quatro vezes, na outra semana três, voltava para quatro, pulava para duas, ficava um dia sem pedir, quando pedia eu dizia sim, outro dia eu dizia não e regredia, e tinha uma febrinha e voltava a mamar, na semana seguinte virava escassez até que... sem perceber muito, sem uma data, sem um marco: meu filho não mamava mais.

Mas calma. A história não acabou. Isso era meados de novembro do ano passado, ele desmamou definitivamente em dezembro. A história foi gentil comigo, e me deu o marco que eu precisava. Acho que eu queria uma história bonita para contar no blog. Estava realmente blasé com o lance do desmame. Eu sabia que ele não mamava mais, mas ao mesmo tempo não conseguia muito contar ou entender como aquilo tinha acontecido. Somente foi.

Um dia, levei os dois ao pediatra, sozinha. Era relativamente complicado carregar um no sling, querendo perambular na rua e outro perambulando na rua e querendo subir no sling. Mas ironicamente a natureza na época os fazia nessas capacidades. Joaquim teve um ataque histérico na porta do consultório. Aqui vale um adendo - na primeiríssima consulta do Tomás, ele estava por perto. E viu o pediatra medindo o irmão com aquelas réguas, que parecem um T. Joaquim gravou aquela imagem por meses, muito embora tenha sido de uma sutilidade e afeto ímpares (o pediatra dos meninos não é nem desse mundo, ele é tipo uma entidade mesmo, de outra dimensão) a tal da régua T ficou bem marcada no se imaginário como um ato violento. E na porta do consultório ele chorava e esperneava que não queria medir, não queria medir. Eu nunca vi o meu filho tão nervoso.

Arrastando mala, impedindo criança de ser atropelada e segurando o mais novo de um jump de cabeça no concreto da calçada do incrível bairro do sumaré, eu consegui entrar pelo portão e fechar a fera lá dentro, ele estava inconcsolável. Coloquei o Tomás no chão e o peguei no colo. Ele chorava sentido e falava um monte de coisas incompreensíveis. Hoje, de longe de novo, eu faço analogias ao seu próprio nascimento (faço sim, me deixa). Da violência que aquele corpo sofreu, claro que não daquele médico, mas de um indivíduo da classe. Do abandono, da privação do seio, do frio e medo que ele deve ter passado naquele berçário de hospital, enquanto eu esperava retalhada por entre as cortinas. Enfim, do combo macabro de recepção ao mundo que meu filho mais velho sofreu em parceria com a ignorância da família dele e maledicência dos demais envolvidos.

Eu não tive dúvida: você precisa de um mamá?

Ele mamou, mamou, mamou na recepção colorida do Espaço Nascente. Sugava o seio e suspirava, com aquele soluço de pós choro que toda mãe conhece. O maxilar às vezes tremia, e os olhos vermelhos e cheios de lágrima iam se acalmando. As mãos já bem grandes e de unhas sujas, de um garoto que já comia de tudo e falava de tudo ordenhavam o meu peito branquelo e estriado pela última vez. Eu não sugeri um fim para aquilo, nem tampouco eu sabia que aquela seria a última vez. Depois que se acalmou pulou sozinho do meu colo. Não falou nada, não beijou o seio. Não se despediu com poesia. Seguiu bravo para a consulta, selvagem e desconfiado como ele é. Talvez tenha pedido mais algumas vezes para mamar depois daquilo, mas eu não me lembro. O fato, é que o desmame enfim, foi assim.

Saiu andando, enquanto eu guardando o peito na blusa e tentando impedir que o mais novo rolasse escada abaixo perguntei: já acabou? De costas, indo para o mundo de cores intensas e enfrentando seus medos, ele me disse que sim.

Meu filho mais velho à época do desmame, há quase um ano. Do peito à taça de cristal.

07/10/13
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A ONDA

Eu acompanhei em quase 3 anos de "ativismo internético pró humanização dos partos" muitos e muitos casos à distância de mães que me procuraram para trocar figurinhas sobre o nascimento e primeiros momentos da criação de filhos.

Desde aquelas que lidavam (como eu) com suas histórias, até aquelas que procuravam (como eu) novos cenários. Teve quem foi enganada de novo, teve quem reagiu, teve quem conseguiu, teve quem desistiu, teve quem sucedeu, deve quem pereceu, teve de tudo, tudo lindo, tudo registrando a doce amargura de ser mulher e mãe na contemporaneidade.

Mas o que me surpreendeu, de um ano e pouco para cá foi a progressão da onda.

Se antes era uma marolinha, mal vista e levada de ombros, hoje partos humanos invadem o imaginário de muitas e muitas mulheres próximas, daquelas que um dia jamais questionaram suas cesáreas anteriores, ou aquelas que um dia juraram que nunca deixariam "passar uma melancia pelo buraco de um limão"... logo depois de questionarem, é claro a potente fisiologia do tal buraco.

Num condomínio fechado, chique e empolado de um bairro afastado - e nem por isso menos desejado - da cidade de São Paulo, uma amiga mais do que próxima, e a vizinha dela gestam bebês nas mãos de doulas e médicas humanizadas. Ambas de ouvidos e olhos abertos nesse momento, com a palhaçada do Hospital São Luiz, o menos desumano da cidade, que descredenciou uma das únicas obstetras da metrópole que não picota suas pacientes como procedimento de rotina, logo depois de ter proibido doulas nos centros obstétricos, mesmo para partos normais.

A delivery desse hospital bomba. E não é porque meia dúzia de comedoras de placenta, ainda muito assustadas para terem seus bebês em casa resolveram parir por lá. É por que a onda está crescendo, porque agora não são as ripongas que querem períneos íntegros, seus filhos respeitados em seu tempo, querem sentir suas potências, querem amamentar sem hora e imediatamente à partir do parto.
Cada vez mais e mais mulheres embarcam nessa demanda, os hospitais estão assustados. E claro. já existe movimentação ativa para pressionar os centros de atendimento à mulher, tanto na rede privada quanto pública para o atendimento que desejamos e merecemos.

Há leis!

O filme O Renascimento do Parto narra diariamente na fanpage histórias de "gente ganhando óculos". Na época do lançamento eu tive uma pequena síncope - recebia emails e mais emails de leitoras queridas, pessoas que eu nunca vi e amigas próximas me perguntando como eu tinha parido meu segundo filho, depois de vinte meses de uma cesárea (eletiva, indesejada, mal indicada e agendada por coação médica). Recentemente, os produtores e diretores do filme foram convocados para uma apresentação no Congresso Nacional. Os jornais tratam as cesárias indesejadas e mal indicadas como epidemia, já existem projetos de lei contra violência obstétrica. Segurem seu chapéu na praia, porque a onda vem com tudo!

De repente minha história não era bizarra. De repente eu não era mais uma maluca. Mulheres da minha família passaram a me respeitar. Duas amigas de internet, poderosas em sua essência, tiveram suas segundas filhas, depois de experiências de parto e cirurgia questionadas no fundo de seus corações - acreditem! - em casa e desassistidas. Assistidas dos maridos, assistidas de si mesmas, plenas em suas capacidades de parir. Cheia de planos de partos hospitalares, seus femininos intensos surgiram lá de dentro arrancando-lhes o controle e o tapete de baixo dos pés. Como se os bebês e a máquina perfeita do parto dissesse: é aqui, essa é a minha história, a você só cabe: deixar sair. Ambas usam salto, fazem as unhas, devem estar bem assistidas de grana, viajam para o exterior, falam línguas. São gente limpa, viu? Parir não é mais coisa de abraçadora de árvore.

Uma das minhas últimas e mais queridas ocupações profissionais é o Mamatraca, vocês sabem. Lá eu estou desenvolvendo um projeto patrocinado pela Natura, que conta história de mulheres que apoiam mulheres. Moda, Colo, Exercícios, Massagem e em breve Grupos de Pós-Parto e Coaching para Mães. Todas essas mulheres fazem parte de algum momento da humanização dos nascimentos e criação de filhos por apego, ou chame do que quiser. Seja porque pariram, porque são ativistas mesmo, porque frequentaram grupos, porque buscaram suas novas histórias, porque inspiram e apoiam outras mulheres na jornada.

Que não é mais uma jornada idiotizante da mídia comum - que ainda existe, claro, é uma tristeza e só eu sei o quanto me magoa ver textos meus em canais grandes alocados ao lado de latas de complemento engordante para famílias mal informadas e crianças mal nutridas - mas uma jornada empoderada. E não é mais o empoderamento daquela meia dúzia de três ou quatro da Vila Madalena. As mulheres registradas pelo Mamatraca usam bolsa Louis Vuitton e sentiram cada puxo do expulsivo. Posh and Pushy, my friend.

Tudo isso para contar, e deixar aqui no alfarrábio, que a onda cresceu. Já tem muita gente surfando com maestria, muita gente ainda tomando caldo. Iniciativas medíocres como a do Hospital São Luiz de tentar conter a movimentação - oh! que perigo, mulheres querem parir com profissionais de sua escolha! - vão aparecer. Mas como as minhas amigas desassistidas, e aquelas que gestam hoje seus bebês já sabendo que não passaram por procedimentos de violência, com S. Luiz ou sem S. Luiz, como aquelas mulheres que conheci no projeto do Mamatraca, como a minha vizinha e talvez a sua... não vai demorar muito tempo para que muita gente faça questão de catar a prancha, o barco, o iate ou ir no braço mesmo: surfando a onda.

Isso não nos faz parte de um grupo. Não transforma ninguém em ativista (muito embora quem pariu com amor sabe, o quanto é difícil lutar contra o bichinho que nos impele a falar demais sobre isso). Algumas tomam coca cola, outras são executivas de mega corporações. Há as vegetarianas, as carnívoras, as loiras, morenas, baixas, gordas, altas e modelos. As que tomam remédio, as que falam com Shiva. A onda de uma nova forma de viver a maternidade é para todas, e desconfio que em breve não poderá mais ser ignorada.

Medidas como a do Hospital São Luiz são como uma bóia de braço tentando evitar um tsunami. Segurem nas suas cadeiras, seus privatizadores de partos. Contra a natureza, não há argumentos.





27/09/13
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LIVRE DEMANDA, MINHAS CONCLUSÕES DEFINITIVAS

Tem gente que acha que o oposto de livre demanda é a amamentação com horários. Essa confusão faz com que mães, em alguma parte do caminho que chega no fim do ciclo da amamentação, o famigerado e poético desmame, entendam que para sair da Livre Demanda é preciso colocar horários nas mamadas do bebê. Não foi assim aqui.

Primeiro preciso estabelecer que formulei um conceito na base da vivência sobre a Livre Demanda: não importando muito como as famílias se organizaram de uma forma geral para atender as necessidades de nutrição dos seus filhos na primeira fase da vida, e respeitando as práticas individuais de cada uma. Só consigo afirmar que não existe investimento maior e melhor na amamentação do que a prática da livre demanda. Meu conceito de Livre Demanda é: condição sinequanon para amamentação.


Eu enxerguei algumas fases nesse processo, arigor assim:

Recém Nascido (que aqui em casa foi até uns 3m): piercing de peito. Livre Demanda é a prática de quando o bebê não está dormindo, ele está mamando. Como eu optei por exterogestação - aquela coisa que amarra criança no corpo da mãe e não desgruda nem para ir ao banheiro (mentira, gente, exagero, é só para dizer que é a vivência de uma gravidez fora da barriga, com pouquíssimos momentos de separação), a Livre Demanda era parte do pacote. Miava? Peito. Resmungava? Peito.

Meio que numa tentativa intuitiva de fazer o que é preciso fazer nessa fase: reconhecer aquele novo ser, entregar-se, fazê-lo engordar de amor e alimento, estimular produção de leite, descobrir-se mamífera.

Toda e qualquer sugestão de limitação de tempo de mamada ou horários para tal, toda regra do lado do seio ou do tipo de posição que é melhor, soa para mim como um crime contra a amamentação e a potência que é o instinto de lactar nesse momento. Problemas? Gente, eu tive mil. Mastite, rachadura, peito entupido, baby blues. Mas foi assim que eu lidei, sabe? Peitando. Foi meu jeito de deixar sair, de fluir o leite e de preparar os meninos para a próxima etapa. Nessa primeira fase LD para mim é 100% bebê. A mãe é do bebê.

Prá depois dos 3/4m: Parece que por ali, ainda que na Livre Demanda, a amamentação adquire uma nova característica. Eu saí do estado bicho e comecei a conseguir perceber o que queriam aqueles bebês. Entram outras formas de atenção que não o seio, entra uma ligeira vontade de simplesmente dizer NÃO. "Mas você acabou de mamar, criatura! Vamos tentar uma volta lá fora para acabar com seu tédio"! Parece que começa a florescer a razão, a mulher, a filha, a amiga e outros pequenos relances de independência da mãe. Não (não não não) significou para mim que eu estaria "preparada para me separar dos meus filhos" muito menos o contrário. Eu pedi inclusive demissão do meu emprego porque não aceitaria tirar Joaquim da LD (para minha sorte ganhei mais 6 meses de home office, a gente aprende com as crianças, quem não chora não mama). Então que nesse momento, existe quase um ritmo se fechando. Parecia que eles tinham horários para mamar, eu vejo muitas mães relatando isso "meu filho é um relógio e mama de 3h em 3h." Eu percebo essa fase assim: se é o ritmo da criança, perfeito. Mas eu não consegui me adequar à imposição de um ritmo externo ao processo de amamentação dos meus filhos. E lamento profundamente que isso não seja contemplado na nossa sociedade.

Entre 6m e 1 ano: Conheço muitas mulheres que retornam aos trabalhos, e praticam a Livre Demanda à sua moda. Quando estão fora os bebês tomam seus próprios leites em copinhos, quando voltam tem livre acesso à mãe. Conheço mulheres que não tiram o próprio leite nunca, voltam a trabalhar e alimentam o bebê com frutas e sucos nos períodos de ausência, correm para casa, ou fazem a avó levar os rebentos ao trabalho para que mamem. Quando retornam, retorna a oferta livre. Livre Demanda e Livre Oferta são tão diferentes, mas são conceitos co-dependentes, e é para isso que ela evolui: não é mais Livre Oferta. Agora é 70% bebê e 30% mãe.

Lá por um ano: aqui em casa virou uma chave. Foi quando começaram a rolar os desmames noturnos e eu me perguntava: mas pô!! Quer dizer que eu não faço mas livre demanda? Fazia. Só que de dia! :)
Existia uma segurança em dizer: agora não, porque vamos almoçar. Ou em um outro momento, quer mamar um pouquinho? Assim do além. Sem que nunca, nunquinha mesmo tivéssemos estabelecido algum horário para que eles mamassem.

Entre 1 e 2 anos: Olhando afastada agora declaro com todas a segurança, a Livre Demanda foi um dos pilares do meu sucesso de amamentação. Primeiro porque garante produção eterna de leite, sob demanda. É tão óbvio! Não dá para dizer "não tenho leite" sem primeiro ter se deixado fazer leite. E leite se faz com estímulo, e às vezes é preciso muito mais estímulo do que aquilo que a gente parece suportar. E depois porque exatamente essa condição de "insuportável" quebrou minhas barreiras emocionais internas para a coisa. Eu fiz assim, decidi... me entregar. Livre Demanda é também entrega. Livre Entrega, mas veja só não para sempre. E isso vai mudando. Chega um momento que é equilibrado. Bebês tem 50% das ações do peito, e a mãe atinge os outros 50%. Voltei a menstruar, voltei a ter atividades alheias à maternagem. Recentemente eles entraram em uma recreação. Estamos com o meu filho mais novo nessa fase da LD, onde cada um de nós tem igual direito e acesso ao peito.

2 anos e meio prá mais: Perto da época em que desmamou, aos 2a9 meses, meu filho mais velho não estava mais nem de longe em Livre Demanda Plena. Mas estava em uma modalidade, que eu considero a última. Quando mãe já tem de volta o corpo. Quando filho já demonstra sinais (claros, sutis, óbvios ou forjados) do desligamento último do corpo físico da mãe, onde já morou, por onde passou, com quem esteve ligado pelo cordão por meses e pelo seio por anos. Essa para mim foi a fase mais "complicada" de entender o momento em que vivíamos, e foi exatamente as minhas investidas (vejam bem, loooongas, desde que começam a comer, eu considero que estão em processo de desmame) - de reduzir a porcentagem de direito que eles tinham sobre meu peito. O que eu quero dizer é que investir na regulação da Livre Demanda foi o processo mais bem sucedido de desmame que eu vivi.

E por isso não vejo mais sentido em propostas de horário para aleitamento. 

Lá pelas tantas, eu tina 80% das cotas. Nunca houve horários, mas eu comecei a colocar alguns limites. O primeiríssimo, lembro bem, no qual Tomás também já se enquadra é: não pode puxar minha blusa. Peça com jeitinho, que se a mamãe puder ela vai te dar. Frases factuais como aquelas do desmame noturno: você vai mamar depois do almoço, ou vai mamar quando chegar em casa. Tento sempre usar o positivo e dizer quando ele vai mamar ao invés de dizer que não vai mamar por tal motivo. Sinto que ele fica mais confiante e aceita minha restrição com segurança e não com privação. Mas às vezes escapa sim um: agora não, porque eu não estou com vontade. Tento ser sincera com meus filhos, só não posso ser sempre sincera.

A coisa tchuca do meu filho mais novo hoje fala : mamãe, qué mamá favô. Esse limite do corpo vai surgindo e entendendo que eles não tem mais livre acesso ao que um dia já foi deles (já foi ELES, em essência), vou ajudando (eu acho) a que entendam que agora: eles são eles. Eu sou eu.

Está bem ligado às filosofias de percepção de mundo de estudiosos do desenvolvimento humano, a percepção de si, entre 2 e 3 anos. Mas eis que ainda não encontrei escolas, correntes da pedagogia ou mesmo da psicologia que apoiem a amamentação "prolongada". Engraçado esse termo, prolongada, porque de onde eu vejo hoje, esse "tempo" não é mais longo.

Já acabou para Joaquim, tem ainda uns bons meses pela frente para Tomás. Então, se posso concluir algo sobre LD: fundamental e absolutamente natural. Na medida que vamos nos separando como seres, mães e filhos vão encontrando seus momentos de amamentação. É um processo, que termina com o retorno do seio 100% à mãe.

E uma saudade do capeta gente! Outro dia o Joaquim estava tomando água num copo desses de transição e eu vi o biquinho que ele fazia quando mamava. Ouvi um barulho, senti toda aquela emoção de novo. De ter aquela criança, aquele indivíduo, aquela pessoa na barriga, depois no colo, depois no peito, por quase 33 meses. Um privilégio. Eu não poderia ter passado por essa vida sem viver isso com ele, por ele, por mim. E ainda poder guardar saudade para sempre.

Livre Demanda neles.

25/09/13
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TODOS OS DESMAMES DE UM DESMAME

Já falei de desmame por aqui? Nem sei. tenho preguiça de procurar, mas acho que não.
Eu estava esperando viver o desmame, e perceber as coisas do jeito que elas realmente seria, e não como eu achava que elas deveriam ser.

Sobre amamentação, posso falar alguma coisa já. Quem não conhece a minha história, tenho dois filhos, ambos amamentados em LD por um bom tempo. O mais velho mamou na gestação do mais novo e depois mamaram juntos por mais um ano. O mais velho desmamou completamente aos 2a9m o mais novo mama, mama muito ainda, mas hoje sei que ele também está em processo de desmame. 

E não por acaso, eu estava aqui confabulando minhas teorias sobre desmame, e três amigas próximas me escreveram com algumas questões. Depois, na mesma semana, recebi outros 2 emails de leitoras, uma delas pedindo uma ajuda urgente. Eu sou uma pessoa urgente, mas não há nada de urgente em um desmame, porque é exatamente isso que eu concluí dele: é um processo, longo, demorado. Pode ser sutil, pode ser difícil. Aqui foi as duas coisas, em níveis diferentes.

Nessas reflexões vocês não encontrarão a confusão entre "desmame natural" e "desmame conduzido". Eu não tenho experiência com desmame natural, todos os processos de desmame dos meus filhos foram conduzidos, muito embora eu acredite que estar de olho nos sinais naturais de uma criança pronta para desmamar, em combinação com as necessidades da mãe - que de uma forma ou de outra dependem de uma variável que eu amo, que é o tempo - é parte da natureza. Então chamemos o que aconteceu por aqui de: desmames naturalmente conduzidos.

Sem falácias: não estou falando de crianças desmamadas precocemente. Acredito que um desmame precoce é aquele que acontece quando ainda se tem um bebê em casa. Bebê? Minha definição de bebê, em poucas palavras: aquele bichinho que não se comunica falando. Ou aquele tchuco que ainda usa fraldas. Ou aquela porpetinha que tem um monte de dobrinhas na perna, muito embora já ande. Não é uma criancinha ainda? É bebê.  E aqui no meu mundo, bebê mama.

Pois o desmame do meu primeiro filho começou no dia em que ele passou a beber água, e depois papinhas, e depois suquinhos. Ali, na introdução de outros alimento é quando a criança começa a desmamar. E posso afirmar com alguma certeza - do que vivi em casa, do que vi acontecer, do que pesquiso e dos círculos que frequento - que qualquer introdução de qualquer coisa na boca de um bebê é prenúncio de desmame. Pode ser que leve meses, pode ser que seja rápido.

E por isso entendo com uma clareza sem fim o perigo das mamadeiras e chupetas para recém nascidos, especialmente. Sim, cara leitora ali no fundo da sala, eu sei que seu filho chupou chupeta e nunca desmamou. Segurem-se nas suas cadeiras: eu dei chupeta para meus dois filhos. Mas não há em nenhuma literatura médica, pesquisa ou vivência de mulheres que amamentam nada que garanta que a chupeta não é um risco. Portanto, bebê desmamado antes que se tenha transformado em criança: recebeu estímulo artificial. Seja com mamadeira e leite de vaca. Seja com chupeta. Seja conduzido mesmo, desmame abrupto, forçado.

Bebês não desmamam naturalmente, assim de uma hora para a outra. Existem muitos desmames dentro de um processo de desmame. Vou mostrar um, do jeito que aconteceu comigo:

DESMAME NOTURNO

Eu engravidei do segundo e queria voltar a dormir. Isso na minha casa se chama: desmame noturno. O mais velho tinha cerca de 1 ano e 3 meses quando surgiu essa necessidade MINHA. Garanto que se dependesse dele, não haveria tanto interesse em parar de mamar de 2h em 2h madrugada à dentro. 

O desmame noturno é uma praga para a maternidade contemporânea, porque mexe com uma questão muito tensa: alguém não sei quando falou para a gente que um bebê precisa dormir tantas horas, de tais maneiras e com determinadas características. E se possível, em uma semana.

Pois a minha experiência tem provado que não é possível desmamar noturnamente um bebê com quem você não consegue conversar em termos práticos. Aqui foi assim que funcionou: frases de efeito.

"Está escuro, o mamá volta quando o sol voltar."
"Escuta o apito do guarda: quer dizer que é hora de dormir."
"É importante para a mamãe dormir a noite inteira. Eu gosto de dormir."
"Você já escovou os dentes, agora é só água."

Claro que sempre foi fundamental ACREDITAR nessas frases que eu estava falando. Eu senti, como nunca, que quando o momento é certo as coisas simplesmente - vão. Vejo mães desesperadas, cansadas, chorando e precisando de suas noites de sono de volta. Me vejo em cada uma delas eu também me senti assim. Mas se aprendi alguma coisa é que não adianta ficar insistindo em táticas, fórmulas, dicas de especialistas ou manobras brutas (negar e ponto! deixar chorar! e coisas do tipo) se dentro do coração e da mente da mãe essa decisão não estiver muito bem fechada.

Claro que medidas drásticas funcionam. Uma mamadeira de leite em pó docinho, chupetas, paninhos, outros substitutos ao seio e ao carinho fazem muitas vezes um milagre! E bebês desmamam rápido como um raio quando recebem (e gostam) desses substitutos. Mas falo de um outro lugar, daquelas mães que não querem oferecer substitutos, à não ser que sejam em forma de: pai.

Calma leitora, dali do outro canto. Eu sei que nem todo mundo tem o pai do filho em casa. Nem todo mundo, que tem o pai do filho em casa, tem um parceiro que está comprometido ~também~ com a chegada do novo membro da família. Mas daqui do meu lugar penso assim mesmo: para desmamar da noite ambos meus filhos precisaram de transitores. E esses transitores foram o pai e um copo de água.

Na prática:

Mamaram em LD atéééé dizer chega, o dia inteiro - nota: eu pretendo falar sobre LD em breve. quando falo assim, pessoas imaginam que eu sou uma milionária que passa o dia coçando com a teta de fora ao bel prazer da criança. not so much, prometo voltar nisso - mas quando chega à noite, começo a conversar. "A noite é para dormir." "Os passarinhos já foram." Quanto mais concreto melhor. Quanto mais verdadeiro melhor. E dormem.

Ok, em um dado momento, acordam, e até então só sabiam voltar a dormir mamando. O que fazer? Essa parte é a mais difícil. EU precisei saber que meus filhos estavam prontos para tal, e que havia uma necessidade real de que o desmame acontecesse. E entraram, nessa primeira mamada, o pai e o copo de água (que para o primeiro filho burramente por um tempo era suco, comprovado, não há necessidade). Pedro acudia as crianças com colo, as frases, a promessa de que a noite seria de descanso e o dia de brincadeiras e a oferta de água: para matar a sede. Meus dois filhos tem sede à noite, assim como eu tenho sede e acordo algumas vezes para beber água.

E poucos dias - sim, algumas lágrimas, mas jamais desassistidos - ambos já estavam preparados para não mamar de novo NESSA PRIMEIRA ACORDADA. 

Não. Eu não suspendi todas as mamadas de uma vez só, como faço com as fraldas, no desfralde. Era só essa. A primeira acordada, ao redor das 1h? 2h? Não sei, cada dia era uma coisa. Em algum tempo - tempo, gente.... semanas, meses - eu podia contar com estáveis 5h/ 6h de sono. Ainda havia um longo caminho pela frente e a mesma coisa aconteceu com a outra mamada, que ainda restava perdida na noite, quando o sono de todo mundo era muito profundo para se ficar argumentando, quando eu não via mal nenhum em simplesmente levantar a blusa e deixar menino se acalmar.

Sim, à esse ponto cama compartilhada comia solta, com o segundo. E foi quando decidimos que ele iria dormir no seu quarto, removemos as crianças todas, em um único movimento, para o quarto ao lado. Tomás dorme no chão. Está exatamente nessa fase do desmame noturno (hoje com 1a10m esse processo começou, assim como com o irmão, eu aparentemente tenho esse limite, ao 1a3m).

Vai dormir na sua cama, via de regra (minha casa não tem muita regra, aqui nunca pode dizer nunca e nunca é sempre, então... tudo o que eu estou falando é a verdade "em linhas gerais", porque não é assim, tão certo). Dá uma acordada para uma água, se encrencar, o pai acode. Lá pelas 4h acorda de novo e vem sozinho para meu quarto. Recebo, abraço, beijo. Ele resmunga. Eu ainda ofereço o peito, mas é bem de vez em quando. Normalmente combino internamente comigo que aquela mamada vai acabar também. Ele entende, por ser parte de mim. E voltamos à dormir.

Ele acorda de novo, 6h. Os passarinhos cantam, é dia, o sol apareceu. O guarda noturno se foi. Ele mama, eu dou mamá feliz nessa hora, vencemos a noite, ele tem esse direito, eu tenho leite acumulado da madrugada (cada vez menos é verdade). Penso que eu deveria acordar, morro de preguiça (eu tenho muito sono de manhã) ele dorme, eu só pulo da cama se estiver muito atarefada, e que maravilha que é estar acordada com todo mundo dormindo, aqui em casa isso é muito raro. Ele acorda. O irmão, que passou pelo mesmíssimo processo, acorda. E aí entramos na segunda parte do desmame: a livre demanda, e seu fim.

Fica para outro dia.
para variar, escrevi e não li! não surtem com os erros de digitação! ;)