10/05/13
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CUIDANDO DA CASA SOZINHA

Venho por meio desta informar que quase dois anos depois de ter decidido de uma vez por todas que eu não contaria com serviço doméstico terceirizado para cuidar da minha casa, meu grande planou naufragou e imergiu dezenas de vezes!

Foi mais ou menos assim: eu pirei o cabeção lá pelo segundo semestre de gestação do Tomás, e na mesma semana mandei a empregada embora, tirei o Joaquim da escolinha que ele frequentava e pedi demissão do emprego. Dois anos se passaram e eu arrumei outros (muitos outros) empregos, continuo sem empregada e os meninos agora frequentam juntos uma recreação três vezes por semana.

Lá pelo final da gravidez, barriguda demais para passar pano, resolvi chamar uma faxineira, que ficou conosco até há pouco. Agora, totalmente emagrecida e com três manhãs muito livres, tenho ainda uma faxineira que vem para tirar o grosso, mas somente à cada quinzena.

Nesses dois anos já fui de: vou contratar todo o tipo de serviço terceirizado possível e nunca mais colocar a mão numa bucha até vou fazer a reforma do quintal sozinha, afinal de contas se eu sei fazer faxina eu devo saber também fazer reforma. Como vocês sabem, eu sou uma pessoa de polos.

O interessante é que não. Definitivamente ter alguém trabalhando dentro da minha casa não é o formato de vida que me interessa. Por mais que todo o trampo doméstico seja mala e  interminável eu tenho uma sensação de liberdade, mesmo quando estou querendo jogar lixo pela janela.

Outro dia me perguntaram: mas porque você não tem uma empregada? Ah. Eu nem sei dar essa resposta, são muitos, muitos motivos. Acabei dizendo: porque eu gosto de andar pelada pela casa.

No dia a dia o que eu aprendi nos últimos dois anos, e ainda estou aprendendo resume-se a:

- a família inteira é responsável pela casa. aqui não tem divisão de gêneros para tarefa doméstica e as crianças se envolvem nas coisas que tem habilidade para fazer, como por exemplo colocar seus brinquedos nos baldes que usamos para guardá-los. ou colocar sua roupa suja no cesto. coisa simples, mas que ajuda.

- mulher e marido atuam em revezamento. estamos sempre ligados para alguma tarefa pendente, e é interessante reparar como normalmente foi o outro que começou. parece que o serviço se dilui desse jeito e estamos sempre ajudando um ao outro. eu lavo, ele estende, eu dobro, ele guarda, eu uso, ele lava, eu estendo, ele dobra... e assim vai.

- fácil? não é. mas está bem longe de ser impossível. a regra determinante foi que ao longo desses dois anos eu revi muitas e muitas expectativas e padrões que eu tinha com limpeza, organização e coisas do tipo. é natural que a gente repita comportamentos de outras épocas. tomamos um tempo para avaliar exatamente oq ue nos cabia, o que nos faz falta e o que não faz. nessa, passar roupa morreu. morreu e todo mundo aqui em casa segue vivendo, impressionante.

- adotamos algumas regras bem rígidas, uma delas é a lei do não acúmulo. nada, nada, nada, quando se trata de serviço doméstico pode acumular. e não acumula. assim, em casa todo dia lava-se roupa, varre-se um ou outro canto da casa, recolhe-se o lixo. são micro tarefas diárias que ocupam minutos entre esperar o computador reiniciar e a água do café ferver.

- perfeito? não mesmo. às vezes deixamos escapar algumas coisas, às vezes nos cansamos. mas tem também uma regra que é: só faça aquilo que você quiser fazer. da vontade genuína de transformar o seu ambiente num lugar maravilhoso. ou da vontade genuína de ver aquele móvel limpo. ou da vontade genuína de ter roupas para usar. é uma forma diferente de encarar o serviço doméstico, não como uma obrigação, mas como parte da vida. e assim o honramos.

- com isso, estou aprendendo muitas coisas. desde o começo reaproveitamos água de lavar roupa para lavar chão. reaproveitamos água do banho para dar descarga, e coisas assim. não conseguimos fazer disso ainda uma regra sistemática - eu sonho com uma casa arquitetada para fazer essas coisas automaticamente, que porcaria de mentalidade de uso mentecapto de recursos que vivemos né? como podem até hoje em dia as casas serem construídas para o desperdício?

- o vegetarianismo nos trouxe uma cozinha mais limpa, mais simples e na mesma medida mais saborosa, porque nosso paladar vai se aprimorando para sentir as mínimas diferenças entre os alimentos. o baixo consumo de industrializados nos fez esse favor. uma cenoura com salsinha e sal pode ser o prato principal, e é até estranho eu estar falando isso, porque eu era a rainha do "não como se não tiver cocacola". não consigo me imaginar tomando um refri hoje. é aquilo, rever os paradigmas para criar uma nova realidade, isso impactou diretamente no serviço de casa.

Virei vegetariana porque amo os animais? Não. Porque é mais fácil cozinhar legume. Ho.

- há dois anos eu era uma pessoa projetada para ter alguém trabalhando para mim. cuidando da minha casa, enquanto eu fazia outras coisas, entre elas, certamente trabalhar. havia um cenário projetado, para que eu entrasse em casa depois das 18h tendo vivenciado outras experiências durante o dia, mas nenhuma delas relacionadas à casa ou aos filhos. hoje eu estou estudando formas de adequar todas essas rotinas, desejos. todas essas personagens. está ficando cada vez mais claro, muito embora seja parte de um processo recheado de esforço.

sabe? eu tenho uma COACH (babem!). e ontem estávamos conversando sobre como nós mulheres olhamos para as roupas de nossas avós: os vestidos de golinha engomada, das mulheres que dedicaram a vida a casa e à família. não queremos vestir essa roupa. depois olhamos para as roupas de nossas mães, terninhos de trabalho, com sapatos lustrados, que para muita de nós se transformavam em avental de cozinha à partir das 18h, quando nossas mães começavam a segunda jornada. não queremos vestir isso também. não nos serve.

estou aqui tentando costurar a roupa que eu quero vestir.

***

me deu vontade de voltar ao trololó perceberam?
tenho um monte de coisa para contar. sobre meus novos projetos, o vegetarianismo, as crises com colocar as crianças na recreação, meu interesse repente por comunicação não violenta e minha queda por história de inglaterra tudor. os mil passeios que fizemos no #umacoisanovaporsemana e que ainda não consegui postar. mas por hoje chega! e vocês, como vão?

08/05/13
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APRENDEM TUDO SOZINHOS. ENSINAM SE A GENTE PERMITIR.


- Mãe: Porque você não nunca mais vai entrar naquela loja que tem as letras iguais a da Bebêchila?

A quantidade de informação que eu preciso elaborar diante dessa pergunta:

O menino me acompanhou num desentendimento por mal (péssimo, deprimente) atendimento na loja Alô Bebê da Av. Ibirapuera há dois meses, rede de lojas na qual jamais adentrarei.

Com isso, aparentemente eu estou ensinando meu filho que como consumidores precisamos estar atentos aos nossos direitos, e vivenciar o exercício pleno de decidir onde, como, em que e porque gastar nosso dinheiro, coisa que está transtornada na nossa sociedade: compra-se tanto que muita empresa anda se comportando como se fossem eles que nos fizessem favores.

A memória e entendimento das crianças é surpreendente.

Tenho uma mochila que da marca Bebechila, que nos acompanha para cima e para baixo, e aqui em casa nos referimos à ela por esse nome mesmo. Essa mala tem uma etiqueta minúscula, com o nome escrito.

Eu não ligo nem um pouco para alfabetização de crianças em idade pré escolar. Sinceramente, por mim, não haveria nenhum contato institucionalizado com palavras antes dos 7 anos. Mas eis que o garoto fez essa associação. Dos ‘Bs’da Alô Bebê, com os ‘Bs’ da Bebêchila.

Há mais coisas entre as duas orelhas dele do que sonha a minha vã filosofia.

Não promover a alfabetização antes dos 7 não significa que eles naturalmente não possam se interessar por esses estímulos (TÃO! TÃO) presentes na nossa cultura.

Olha como é impressionante o contato de uma criança com as marcas, com o mundo que a cerca, com a atitude dos pais!! Olha a responsabilidade que eu tenho de saber quais delas estão de acordo com os meus valores e de minha família, observar minhas atitudes! Permitir!

Olha como eles aprendem só de ser. Só de existir. Só de estar. “Só”.

Por fim: isso não é um publieditorial nem nada. Só queria compartilhar.



02/05/13
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CANTA CÁGENTE

Vou contar um segredo... eu nunca tinha ouvido essa música na minha vida. Mesmo quando foi um hit da internet, eu que sou do contra ~cejura?~ passei batido pelo frisson.



Então recebi um convite para participar de uma homenagem ao dia das mães.
Eu que sou do contra, não sou muito afeita ao dia das mães. Tendo a pensar que se trata de uma data para fazer a gente comprar bugigangas e aquecer o comércio.

Mas daí pensei no tanto que ando agradecida por fazer parte de um grupo de mães - as mães de agora - que de uma forma ou de outra se unem, se afastam, brigam de arrancar os cabelos, se acusam e se afagam, se apoiam na internet e fora dela para tornarem suas próprias vidas e as dos filhos mais ... viva.

Viva!
Esses círculos de mulheres  já são um presente.

Então que seja uma homenagem à elas, não só à mim. Às tuas e não só à minha. 
Um presente para mães que invoca uma das coisas que eu mais gosto na vida (escrever blog? redondamente enganada, colega) EU GOSTO É DE CANTAR!

Fica aqui o convite, das meninas do Vila Mamífera - um novo portal de maternidade ativa, maduro e antenado com necessidades reais de muitos grupos maternos, sem perder a ternura, ainda não conhece? Dá uma olhada! - em parceria com vários outras iniciativas maternas na rede.

Vamos cantar uníssono (mas me dêem um tempinho para aprender a letra).

Veja como participar aqui




25/04/13
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O PRONTUÁRIO

Entro no estacionamento da maternidade quase exatos três anos depois.

Reconheço absolutamente tudo daquele lugar e sinto um frio na espinha lembrando do momento que saí com meu filho recém nascido por aquela porta.

Celebro a minha evolução como ser humano nesse espaço de tempo, mas sem deixar de sentir uma ponta de dó de mim mesma e do meu filho. Pela mãe que saía ferida, pelo filho que saía em um bebê (des) conforto enquanto possivelmente deveria ainda estar no útero.

Penso que já passou e entro no elevador.

Passo pelos corredores decorados da maternidade com um certo desgosto, vendo fotos dos bebês ali nascidos mas mesmas condições. Me imagino encontrando o meu próprio filho entre aquelas carinhas e arrumando encrenca na administração que na minha fantasia me retira do ambiente na marra de dois seguranças me carregando pelas pernas.

Acordo do sonho e já estou subindo uma rampa igualmente decoradas com fotografias que tentam em vão poetizar a tecnologia e segurança que o hospital oferece. Bebês etiquetados e enfileirados, equipamentos de monitoramento fetal, pinças, centros cirúrgicos, tudo em preto e branco. Como pode o mundo visual dos partos ter sido substituído por esse conjunto de referências vazias?

Penso em como pude eu ignorar esses signos claros de controle e opressão. Revolto-me por um instante com a minha própria ignorância. Reconcilio, aceito e agradeço o meu passado enquanto entro na sala de atendimento ao cliente.

Vazia.

Um funcionário passando me informa que a visita monitorada já começou. Digo que estou ali pelo meu prontuário. Ele sai para procurar alguém enquanto eu me recordo de que naquela mesma sala eu insistia que faria um parto normal para uma outra atendente que me mostrava fotos do centro cirúrgico, e que ao fim da visita se recusou a mostrar a tal sala humanizada que a maternidade divulga. Lenda, é a palavra que hj na minha cabeça.

Uma atendente chega e me trata muito bem. Ela já sabe que eu estou ali pelo prontuário e me informa que só eu mesma poderei retirá-lo, e se eu quiser que alguém o faça por mim é preciso procuração. Por mim não ha problema, se você quiser eu acampo na porta. Ela parece reticente, e sai para buscar "os papéis".

Me distraio com um porta retratos digital que apresenta  em looping o que devem ser as melhores fotos do serviço conveniado da maternidade. Me recordo de mim mesma naquele centro de cirurgia, do meu marido com aquelas roupas, do meu filho com aquela touca. Fotos de cesárea são absolutamente todas iguais, mesmo que eu não tenha contratado o serviço. Me perco em pensamentos de uma única foto do rosto da mãe com olhos distantes e pálidos, com uma lágrima escorrendo pelo olho devidamente maquiado com rímel.

Me pergunto se ela chora de emoção, de medo, de frio, de vazio, de frustração. Fico pensando se ela também achava que teria seu filho por vias normais e caiu no conto da cesárea ou se desde sempre escolheu a cirurgia como forma de nascimento e aquela lágrima e palidez no rosto representam o que são - a emoção cirúrgica, poética, singela, mas nada visceral das imagens de mulheres gritando de amor quando sentem seus filhos nascer pelo corpo. Recomponho do pensamento longe e a moça entra com os papéis.

Ainda me sobra um traço de questionamento sobre como deixamos as imagens de um nascimento mecânico substituir o significado de parto nas nossas cabeças. A moça fala comigo como se eu fosse uma bomba relógio.

Polida e extremamente educada, ela pede meus documentos e entra em nítido êxtase proposital. Seu filho é lindo, como é grande, deve ser esperto e esse cabelo e finaliza a sequencia de elogios com o escabroso: é o que importa né? que eles tenham saúde.

Tendo ido preparada para arrumar qualquer escândalo que fosse preciso, me comporto como a bomba relógio que aparento ser: um sorriso macabro, uma respiração profunda e uma pergunta: eu preciso escrever aqui o motivo da minha solicitação?

A moça revisa comigo os dados óbvios da ficha e responde: sim, informe para a gente porque você quer esses prontuários. o bebê ficou na UTI? é visível a cara de desconforto. 

Não. Não ficou na UTI. Me reservo a escrever os meus motivos enquanto ela suspira. No quadro destinado à isso: "PORQUE É MEU DIREITO." E só. Mas penso intimamente que esse não é o único motivo. Eu pedi os prontuários porque eu preciso de verdade. Encontrar a verdade.

Pego meu canhoto e saio da sala aliviada, refletindo sobre como parece que eu estou vivendo os últimos capítulos de um livro. E como a busca pela verdade é para mim fundamental para o processo de cura e aceitação. Entro no carro feliz, pensando em oque estará escrito nessas folhas que me serão entregues em alguns dias.



22/04/13
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EVENTOS PARA BLOGUEIRAS, EU AINDA NÃO VI DE TUDO

Fiquei estarrecida com minha própria ingenuidade para não dizer burrice, no último sábado.

Eu estou bastante acostumada a receber convites de grandes (médias, pequenas) empresas para participar de seus eventos. O que era há alguns anos motivo de felicidade, porque eu acreditava que haveria alguma coisa de interessante em participar dessas atividades como blogueira, reduziu-se a uma recusa atrás da outra.

No início eu ia porque me fazia sentir importante. Depois percebi que era mais importante para as empresas do que para mim, e me resguardei a participar porque acreditava que de alguma forma poderia aprender alguma coisa. Tendo depois de algum tempo percebido que a grande maioria dos eventos para blogueiras repetem sempre o mesmo formato de "celebridade + especialista" em um palco falando sobre qualquer assunto que a marca julga relevante - e óbvio, atende sua necessidade de promoção, mas raramente atende as minhas necessiadades de troca genuína de informação não comprometida - cansei da parapopéia de gastar meu tempo dando ouvidos a histórias nonsense. Puta chatice ficar ouvindo Dr. Qualquercoisa e Famosete falando que tal produto é essencial para a sua vida de mãe.

Eu achava que já tinha visto de tudo.

Em um determinado evento de uma marca maligna de produtos alimentícios infantis vi um especialista insistindo que a melhor forma de estimular a criança a comer fruta é oferecer com cereal matinal açucarado! Em outro evento de uma marca de fraldas, vi um especialista falando que as fraldas descartáveis tem o mesmo impacto para o meio ambiente do que as de pano "já que gastam água para lavar". Tenho visto marcas de fast food fazendo evento de alimentação saudável, ou marca de refrigerante fazendo evento de esporte é vida... 

Ou seja, marcas falam o que quiserem para celebrar suas egotrips e convidam todo o tipo de gente para suas festinhas privê. 

Daí passei para terceira fase dos atendimentos aos eventos. Só ia se eu achasse que o brinde valeria à pena #prontofalei, ou se o lanchinho fosse bom, ou se eu estivesse nas redondezas, ou se fosse uma boa oportunidade de encontrar gente legal ... é claro que isso levou dois eventos e minha estratégia caiu por terra. Afinal os brindes são sempre um cacareco à mais, eu raramente uso, tenho chances plenas de encontrar amigas em outras freguesias e por fim deslocamento nenhum vale à pena em São Paulo para alguém que cuida de filhos e casa sozinha. 

E eu virei vegetariana né? Não como mais enroladinho de presunto ou mini hot dog.

Mas eis que na semana passada fui convidada para um evento de uma empresa de celulares. Eu sou uma grande entusiasta de tecnologia, usuária de celulares. Muito embora eu tenha muitas críticas com relação ao seu uso desenfreado, vejo as conexões em redes sociais, possibilidade de acesso à web em tempo real e demais "regalias" dos aparelhos modernos como grandes vantagens para meu estilo de vida. Fora que o evento convidava também os meninos e o pai para passarmos todos juntos um dia no Jardim Zoológico. Pensei: ah... vai ser legal. Faz tempo que eu quero levar o Joaquim no Zoo.

E aceitei.

Havia muitos convidados com seus filhos no ponto de encontro determinado, um café bam-bam-bam onde o buffet instalado alimentava a galera na concentração para o grande passeio, enquanto algumas promotoras passavam de mesa em mesa conversando com as famílias e distribuindo envelopes. Editores de revistas renomadas para o público materno, uma ou outra carinha conhecida, mas ninguém de fato da esfera materna que eu frequento.

Foi o tempo de eu pegar um suco de laranja para o Joaquim, e percebo do que se tratava a ação da empresa de celulares, aparentemente lançando novos aparelhos e/ou precisando valorizar o impacto de seus modelos. Em crianças

Acompanhe:

Para cada jornalista/ blogueira/ mãe existia um envelope, com um aparelho dentro. A promotora oferecia o aparelho para que a pessoa passasse o dia no Jardim Zoológico, tirando fotos, compartilhando em suas redes e demais baboseiras utilidades do celular. Tudo previsível se não fosse o fato de que para cada criança havia também um envelope, com um modelo de celular, programado com jogos, aplicativos e outras funcionalidades de acordo com a "faixa etária" do rebento.

Acompanhei estarrecida, com um nó na garganta uma promotora que apresentava para um menino que não devia ter 7 anos um aparelho determinado, mostrando onde estavam os joguinhos, onde ele podia tirar foto, onde isso e aquilo, seguido de um "se eu soubesse que você gostava do Bob Esponja eu teria colocado a foto dele no template para você..."

Os pais da criança, cada um com seu próprio aparelho na mão pareciam muito confortáveis com a situação, bem como todos os outros adultos do evento. À essa altura eu já estava na porta, com o Tomás no colo, confirmando o óbvio: havia um envelope para Joaquim, e ele seria "treinado" pela promotora a operar o treco para nosso "dia especial" no Zoológico. Para quem não sabe, Joaquim tem três anos.

Eu tenho a seguinte política com relação ao uso de telas dos meus filhos: Tomás tem acesso restrito à tudo e Joaquim pode ver um pouco de televisão com moderação rígida de conteúdo e horas, não está autorizado a usar celulares em nenhuma circunstância se não para falar com família e amigos com supervisão, e pode brincar no tablet somente junto com os adultos, em jogos musicais e de "memória", por enquanto. Para alguns pode soar bastante radical. Claro que para mim é a expressõa genuína do meu bom senso, o que eu tenho de melhor.

Fora o absurdo de se apresentar celulares para crianças com a naturalidade em que se apresentaria um cavalinho de pau, eu fiquei absolutamente perplexa com o fato de uma empresa, um departamento de marketing, uma agência de promoções e por fim um ser humano - personificado na figura da mocinha que fez contato comigo, acharem normal usar as crianças como público alvo direto de seus aparelhos. E teria ficado maluca mesmo se fossem cavalinhos de pau: não curto propaganda dirigida para crianças. Meus filhos não são consumidores, falem comigo.

Fiz o Joaquim largar o suco de laranja que estava tomando sob protestos, e com ajuda total do meu marido, que à essa altura já pedia o carro de volta ao manobrista e me dirigi à saída, onde uma das promotoras não queria me deixar partir.

- Obrigada, esse evento não está de acordo com meus valores. Não só vocês estão estimulando o uso de celulares por crianças, como mais grave ainda, estão usando-as como público alvo de sua ação de marketing. - enquanto isso eu pensava, que ingenuidade ter imaginado que a ação seria voltada somente aos adultos! O que eu tenho na cabeça? Como pude trazer meus meninos aqui?

- Mas senhora! Não é para o seu pequeno! É para o mais velho!

- O mais velho tem três anos. Ele não usa celulares e nem eu vou permitir que vocês o usem diretamente para fazer propaganda de seus aparelhos. Por favor, me deixe passar.

Enquanto eu batia boca coma a mulher que aparentemente não compreendia o porque da minha ânsia de ir embora uma fotógrafa desavisada tirava fotos minhas, como se fosse normal. Olha como são os eventos dessas grandes marcas: um show de horror. A mulher insitiu:

- O celular não é presente, você vai devolver no fim do dia.

- Eu agradeço o convite, mas não estou disposta a deixar que vocês usem meu filho para fazer propaganda dos seus aparelhos. Não acredito que crianças devam ser alvo direto de campanha publicitária e muito menos consumidores de celulares.

- Mas o celular dele está programado com joguinhos. O "kids corner", eles vão usando no ônibus.... 

Ela insistiu algumas vezes nesse kids corner, enquanto eu ia andando e tentando sair dali. Algumas outras promotoras insistiam para que eu pelo menos tomasse um café, felizes, genuinamente ignorantes ao fato de celulares não serem produtos adequados às crianças e MUITO MENOS ao fato de uma ação para jornalistas/ blogueiros/ mães que envolva levar seus filhos ao zoológico para serem alvo direto da divulgação desses troços não estar de acordo com nenhum valor de respeito à infância.

Na minha cabeça era como se eu tivesse os levado à uma festa e deixasse que alguém desse um pouquinho de champagne para experimentar. Só um pouquinho. Só hoje. Depois você devolve. Mas nós vamos usar sua imagem, a do seu filho para divulgar essa ação bizarra. E esperamos que você divulgue nas suas redes. Minha permanência no evento deve ter batido o recorde de 5 minutos.

Eu não faço parte desse mundo, sorry.

No carro, algumas conclusões do bom senso da minha família:

- No dia em que os meninos não souberem mais brincar com brinquedos, nós adotaremos os celulares como forma de diversão.

- No dia em que eu precisar da Nokia para fazer um dia feliz com a minha família, eu aceito participar de uma esquizofrenia dessa.

- No dia em que alguém souber de um evento para blogueiras que não seja no mínimo uma total perda de tempo e no máximo absoluta falta de valores como foi o caso desse aí, me dê um toque. 

Por hora, me recuso a ser parte dessas festas sem sentido, para promover produtos dos quais eu não preciso, sem minimamente respeitar a minha inteligência.

Depois eu mandei um email para a moça. Numas de: você nunca leu meu blog? 
Lição aprendida para mim. 

Não tive resposta, claro. Para as empresas basta ajustar o público, e da próxima vez mandar o convite para alguém que não fique transtornada e saia ventando, com o filho protestando porque queria terminar o copo de suco de laranja. 

A braveza dele não durou muito.

Acabamos a manhã na Horta das Corujas. Quando cheguei ali senti um negócio maravilhoso, chama liberdade. Um espaço comunitário, com bom papo e gente boa. Revirei a composteira, os meninos regaram algumas ervas. Brincaram nos montes de folhas, fingiram pescar na cacimba.

Encontrei a Cláudia Visoni e contei para ela da minha ingenuidade. Ela me alertou, além de todo o abuso que a ação representava, de estudos recentes sobre os perigos do uso de aparelhos celulares com crianças, para desenvolvimento da visão periférica. 

Visão, adultos que não enxergam podem roubar o direito das crianças de desenvolverem seus próprios horizontes.

***

Falta só um último pensamento para eu encerrar esse desabafo.

A influência de grandes grupos na humanidade pode ser medida pelo tamanho de seus prédios, eu vi naquele filme.

Antes eram as igrejas. Monumentais igrejas que detinham o poder, por quem e para quem o povo vivia.  Depois vieram os castelos, os reis. O poder foi para as mãos das monarquias e suas grandes edificações eram símbolos de quem mandava no mundo. E de quem obedecia. Hoje são as corporações. Seus prédios são maiores do que qualquer igreja. Seus conglomerados colocam qualquer castelo no chinelo. E seus súditos permanecem os mesmos... aqueles que querem sentir-se importantes, por terem sido convidados à festa na corte.






17/04/13
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SÓ PARA CONTAR QUE...

Agora eu tenho uma coluna fixa através do trabalho árduo de MAMATRACA no site do UOL.
Venham e contribuam com seus assuntos, mi casa su casa.
Você confere também a linda Roberta às segundas feiras e a gloriosa Priscilla às sextas.
Não vai perder.



***

Eu li um texto da Elba, no conversas ao meio dia e tomei coragem de pedir o prontuário médico da minha cesárea na Pró Matre, bem como encaminhei DE VERDADE a carta ao mei GO, Dr. Mauro. Quandoo barulhinho do email soou no computador minah espinha gelou, meus dedos gelaram tudo gelou. Isso chama medão.

Conto as repercussões em breve, em tempo real.

***

Tenho um monte de novidade, uma delas é que balançar faz bem!
Obrigada por serem leitores queridos.
Só gente boa vinga nessa vida, muito embora às vezes pareça o contrário!

Para celebrar, um pouquinho de Maternidade Radical para vocês - THE CORPORATION
Imperdível para quem quer ser um consumidor crítico! (da vida, dos médicos, da coca cola, do que come, veste, lê, pensa, sente, compra, ganha...)






12/04/13
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CARTA PARA MEU G.O. (FELIZ DIA DO OBSTETRA)


Prezado Dr. Mauro,

Dificilmente você se lembrará quem sou eu, então vou perder algumas linhas tentando em vão refrescar a sua memória, uma vez que tua profissão te leva a atender centenas de mulheres em condições extremamentes parecidas. Eu sou uma dessas centenas, cheguei ao seu consultório em meados de novembro de 2009, grávida pelas 20 semanas.

Vim por indicação de um médico da família, que disse que o senhor era um dos poucos obstetras que ele conhecia que verdadeiramente amava o que fazia. Eu acreditei nesse amor e marquei minha primeira consulta.

Vinha de outras tantas consultas com diferentes obstetras e de uma sequência de sangramentos e repousos que levaram consigo um dos bebês que eu esperava, uma perda doída e que deixaria outras sequelas além do próprio luto por aquela alminha que não vingou na terra: à partir daquilo eu tinha duas características – aparentemente inerentes à maioria das grávidas, eu vim saber depois, mas em intensidades diferentes – medo e fragilidade.

Seus atendimentos foram cordiais e me transmitiram muita segurança, coisa que nenhum outro obstetra conseguiu fazer até então, de que o outro bebê que ali estava não corria risco nenhum. E por isso eu sou agradecida, pois vivi uma gravidez relativamente feliz.

Lá pelas tantas eu tive outro sangramento sem explicação, e permaneci quatro dias internada. Suas visitas relâmpago de alguma forma me incomodavam, e começa aí a sequencia de sinais que eu não poderia ter ignorado, mas as enfermeiras do hospital Santa Joana insistiam na qualidade impecável do seu profissionalismo e como eu tinha sorte de ser sua paciente, pois nós éramos muitas e o senhor precisava manejar o seu tempo com destreza. Mais tarde descobri que tanto o hospital Santa Joana quanto a Pró Matre, onde meu filho viria a nascer, são notoriamente maternidades de práticas duvidosas quando se trata de respeito aos direitos das pacientes e seus filhos. Basta ver as polêmicas recentes sobre as proibições de doulas, vendas casadas com fotógrafos e outras práticas estranhas, como a estadia compulsória dos bebês nos berçário, das mães na recuperação, da práticas ultrapassadas com o neonato e tantas outras coisas inadequadas. Infelizmente a grande maioria das mulheres não enxerga nada disso como infração de direitos.

Isso se comprovava nas escadas do seu consultório, muitas vezes lotadas de mulheres grávidas em espera para o atendimento, que podia durar duas, três horas. A espera, não o atendimento. Esse invariavelmente durava de quinze à vinte minutos, e não raro era nítido que o senhor não tinha nenhuma recordação do meu histórico. Uma vez chegou a dizer que estava contente com o meu ganho de peso, uma vez que eu havia emagrecido muito no início da gravidez. Eu engordei 24kg na gravidez. Era outro sinal que eu não podia ter ignorado, de que eu não seria tratada como um indivíduo. 

Mas aquele medo e aquela fragilidade me fizeram calar e seguir sendo sua paciente.

Em todas as consultas conversamos sobre as vias de parto e suas frases eram sempre as mesmas: não existe nenhum motivo para que você passe por uma cesárea, seus quadris são largos, bebê maravilhoso, mamãe maravilhosa, eu me sinto muito mais obstetra fazendo um parto normal do que uma cesárea e por fim, o senhor insistia que os seus números de partos normais eram altíssimos, os maiores do Brasil.

Dr. Mauro, nesse momento da carta o senhor deve estar se perguntando o que quer essa maluca? Em primeiro lugar eu quero te perdoar. E depois essa carta tem também efeitos terapêuticos, pois depois de três anos consigo escrevê-la sem nenhuma lágrima nos olhos. Em terceiro lugar eu tenho me realizado usando minha própria experiência para alertar outras mulheres. Vamos ver se eu consigo atingir meus objetivos com ela. Algumas coisa precisam então ser ditas.

O senhor seguiu o protocolo médico de atendimento da classe média paulistana. Realizou exames de toque em todas as minhas consultas, coisa que eu vim a descobrir, na minha segunda gravidez, atendida por um outro tipo de profissional, ser totalmente desnecessário. Ainda me paira a sombra de dúvida do porque exatamente investigar a vagina de uma gestante com tanta periodicidade, uma vez que os protocolos internacionais e outras práticas garantem não ser necessário.

O senhor realizou infinitos exames de ultrassom, trabalhando na minha confiança de que tudo caminhava para um parto normal – com a clareza de que era isso que eu queria – para chegar às incompletas 38 semanas de gestação e de um minuto para outro, dentre os quinze tradicionais da nossa consulta, dizer que meu filho corria risco de vida e que era hora de tirá-lo cirurgicamente de dentro de mim. Novamente, o uso inescrupuloso do ultrassom não é recomendado por nenhum órgão de saúde.

Eu devia ter desconfiado desde o início, taí outro sinal, a prateleira da sua sala é cheia de fotos de bebês e mães, todos cirurgicamente removidos. Não me lembro de ver nenhuma foto de uma mulher sorrindo ao seu lado em posição de igualdade. Estavam todas deitadas, amarradas, anuladas nos nascimentos dos seus filhos. Assim como eu, cinco dias depois dessa consulta fiquei.

Essa indicação de cesárea me tirou muitas coisas. Foi o fim do meu sonho de ter um parto normal, fim da minha possibilidade de passar a vida sem uma cicatriz na barriga (e no coração Dr. Mauro, essa é a cicatriz que eu cuido com mais carinho, e é dela que eu estou falando quando faço uma tentativa de te perdoar) e por último e mais grave, roubou do MEU FILHO o direito de nascer ao seu tempo, em paz e com respeito, coisa que depois de ter parido meu segundo filho da forma que eu queria também se faz urgente e incômoda. Quero dividir com você essa responsabilidade: tenho um filho que foi nascido pela tua urgência em me operar e outro que foi absolutamente respeitado. Como o senhor lidaria com isso?

O senhor insistiu no dia 26 de março (era uma sexta feira à noite), para uma grávida que chorava com seus sonhos desmoronando na frente dos olhos e um pai preocupadíssimo com a saúde da criança e da esposa. Nos três aniversários do meu filho e em todas as vezes que eu falo o dia que ele nasceu eu sinto uma tristeza: qual seria o dia verdadeiro do aniversário do meu filho caso eu nunca tivesse encontrado com o senhor? Eu não sei, ele nunca saberá. Joaquim nasceu fora de trabalho de parto, e nesses três anos que separam esses dois momentos da história eu vim a descobrir que todo bebê de cesárea eletiva nasce à pré-termo. Quem determina o tempo de maturidade do bebê é ele mesmo, e que ao indicar uma cirurgia fora do trabalho de parto e por motivo absolutamente torpe (placenta madura, bebê muito grande e nenhum sinal de trabalho de parto) além de todo o roubo que eu já descrevi ali em cima, o senhor aumentou em três vezes as nossas chances (minha e dele) de sofrermos algum tipo de efeito colateral – desde infecções graves e mortais até problemas respiratórios para ele ou dificuldades de amamentação. Que sorte que nós tivemos, mesmo com a sua prescrição ousada nada disso aconteceu.

Quero que saiba que eu era uma mulher sadia, com um bebê são no ventre. Que se transformou em um menino lindo, forte e mais esperto do que a média, um raio de luz na minha vida que nas suas mãos não merecia ter passado pelo que passou. O senhor nos desrespeitou, sua conduta não foi ética, não foi médica, não foi baseada em ciência. O senhor me operou baseado no modelo obstétrico nacional, que anula os desejos, as histórias e os casos individuais de cada paciente para nos colocar a todas em um mesmo procedimento padrão. Que se resume às fotos todas iguais na sua estante e à certeza que eu tenho de que o senhor não faz a mais vaga ideia de quem eu seja.

Tendo dito isso, eu te perdôo. Perdôo porque a vida foi gentil o suficiente comigo para que depois da cirurgia, que removeu meu filho e meus sonhos de parí-lo usando os recursos que a natureza previu, eu me sentisse tão desconfortável com tudo o que havia acontecido que me agarrasse na informação para fazer senso de tudo aquilo. Eu fui aprender.

Registrei à partir dali uma descoberta enorme, a experiência doída de ter sido vítima do nosso modelo obstétrico, que é baseado na violência, na industrialização dos partos e na falta de respeito ao recém nascido. Saí do papel de vítima para transmutar essa vivência dolorida em algo positivo e criei esse blog. Escrevi longamente sobre todo esse processo relatando com detalhes a experiência da cirurgia que o senhor executou em mim e um caminho de superação para, quase exatos vinte meses depois, colocar no mundo através da minha própria vontade e força o meu segundo filho. Sadio, com três circulares de cordão, quase meio quilo e 4 cm maior do que o primeiro, somente um ultrassom no pré natal e exame de toque somente à partir do trabalho de parto ativo, muitas horas depois que minha bolsa rompeu. Nenhum pic, nenhum ponto. Eu não poderia passar por essa vida sem saber o que é parir um filho. Ainda bem que eu já nào dependia mais de médicos que como o senhor aplicam os modelos ultrapassados e incapacitantes da medicina obstétrica machista e tecnocrata.

Como uma pequena formiguinha, levei algumas folhas para construir um bem maior: cada vez mais mulheres nas mesmas condições em que eu estava – com medo e fragilizadas – recebem mais informações sobre suas verdadeiras escolhas no momento do parto e como lidar com falsas justificativas de cesárea, médicos opressores, falta de apoio e a violência propriamente dita, no pré natal, parto e pós parto. Somos um coro de muitas vozes e a tua passagem pela minha vida serve de motivação para que eu faça parte dele.

Fica aqui o convite – muito embora eu ache que será muito difícil para o senhor, como ser humano entender e enfrentar a quantidade de sofrimento que o senhor me causou por não ter respeitado meu corpo e meus direitos reprodutivos, por ter me subestimado por ser mulher e gestante e finalmente por ter violentado os direitos do meu filho – para que leia o meu blog. Para que leia os relatos dacesárea, do ponto de vista da paciente. Acho interessante que um médico tenha alguma perspectiva do que se passa na salinha da recuperação, enquanto todos comemoram um bebê nascido e mães anestesiadas e solitárias esperam o momento de reconhecer a cria. Veja também como o meu discurso se desenvolveu junto com minhas leitoras para uma visão bem crítica daquilo que aconteceu comigo, e como muitas delas conseguiram escapar de cesáreas desnecessárias. Não perca esse vídeo, onde eu conto as formas de violência que eu sofri aos seus cuidados, e esse projeto que trata de desvelar essas cicatrizes da violência, que no meu corpo não são e nem nunca serão silenciosas. Leia por favor o relatode parto do meu segundo filho, que lavou a terrível experiência de ter acreditado nas suas práticas médicas. Quem sabe no futuro quando se deparar com uma paciente do meu tipo, o senhor possa ter mais ciência das expectativas de uma mulher gestante, quando ela diz que quer um parto normal.

Não me leve à mal. Eu sei que muitas de suas pacientes estão absolutamente felizes e satisfeitas com seu protocolo, sinta-se profundamente agraciado por elas. Porém tenha em vista que elas não são unanimidade, e em pouco tempo não serão mais a maioria. Da próxima vez que uma mulher sentar-se na sua sala de mármore e te contar que quer ter o filho através de um parto normal seja decente consigo e com ela: encaminhe-a para outra freguesia. Seja honesto quanto a seus procedimentos, conte para ela desde sempre quais são os motivos que o levarão a indicar a cesárea por volta da 38a semana. Dê a ela de verdade a chance de escolher. Aja conforme teu juramento e não aumente riscos para a saúde dos teus pacientes. Se for o caso, diga à ela para procurar os grupos de apoio feitos especialmente para esse tipo de mulher, que como eu, não aceita os protocolos do sistema que você obedece para colocar filhos no mundo. Diga a ela para me procurar, se o senhor desconfiar que ela não é o tipo de mulher que gostaria de perder a chance de parir um filho. É mais justo e mais honesto. Vai poupá-las de passar por um doloroso processo. Vai poupar o senhor de dormir com a consciência pesada de ter sido um agente dessa falta de respeito ao sagrado feminino e à vida em sua essência.

Em tempo, a violência obstétrica nunca foi tão debatida. Acredito que em uma geração tenhamos mais chances de nascer como a natureza previu. Nessa época é provável que o senhor não esteja mais na ativa, mas certamente (graças a tantas mulheres que como eu mantifestam-se e lutam cada uma de seu jeito para oferecer à outras a chance de parir) suas descendentes poderão gozar no parto do prazer de ser mulher e mãe. O senhor é religioso, eu sei. Como Deus previu, com a ajuda maravilhosa das mãos de homens e médicos quando estritamente necessário, e cercado de respeito ao protagonismo da mulher e do bebê, os verdadeiros  astros do milagre da vida. 

Nesse dia o senhor talvez possa se redescobrir e se sentir, quem sabe, o verdadeiro obstetra que me dizia ser. 

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Foto de Carla Raiter criadora do projeto 1:4 que vai ganhar o mundo tirando do silêncio as marcas invisíveis da violência obstétrica. Curta e compartilhe.



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Hoje é dia do obstetra, ironicamente. Celebremos aqueles que merecem.

Escrevi essa carta à convite da Ana Cristina Duarte, que também fez uma para o GO dela.
Que todas aquelas que se sentiram violentadas em seus direitos no momento do parto, pré ou pós manifestem-se por um futuro mais promissor para parturientes e suas crias.

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Retorno ao meu balanço.