Fiquei estarrecida com minha própria ingenuidade para não dizer burrice, no último sábado.
Eu estou bastante acostumada a receber convites de grandes (médias, pequenas) empresas para participar de seus eventos. O que era há alguns anos motivo de felicidade, porque eu acreditava que haveria alguma coisa de interessante em participar dessas atividades como blogueira, reduziu-se a uma recusa atrás da outra.
No início eu ia porque me fazia sentir importante. Depois percebi que era mais importante para as empresas do que para mim, e me resguardei a participar porque acreditava que de alguma forma poderia aprender alguma coisa. Tendo depois de algum tempo percebido que a grande maioria dos eventos para blogueiras repetem sempre o mesmo formato de "celebridade + especialista" em um palco falando sobre qualquer assunto que a marca julga relevante - e óbvio, atende sua necessidade de promoção, mas raramente atende as minhas necessiadades de troca genuína de informação não comprometida - cansei da parapopéia de gastar meu tempo dando ouvidos a histórias nonsense. Puta chatice ficar ouvindo Dr. Qualquercoisa e Famosete falando que tal produto é essencial para a sua vida de mãe.
Eu achava que já tinha visto de tudo.
Em um determinado evento de uma marca maligna de produtos alimentícios infantis vi um especialista insistindo que a melhor forma de estimular a criança a comer fruta é oferecer com cereal matinal açucarado! Em outro evento de uma marca de fraldas, vi um especialista falando que as fraldas descartáveis tem o mesmo impacto para o meio ambiente do que as de pano "já que gastam água para lavar". Tenho visto marcas de fast food fazendo evento de alimentação saudável, ou marca de refrigerante fazendo evento de esporte é vida...
Ou seja, marcas falam o que quiserem para celebrar suas egotrips e convidam todo o tipo de gente para suas festinhas privê.
Daí passei para terceira fase dos atendimentos aos eventos. Só ia se eu achasse que o brinde valeria à pena #prontofalei, ou se o lanchinho fosse bom, ou se eu estivesse nas redondezas, ou se fosse uma boa oportunidade de encontrar gente legal ... é claro que isso levou dois eventos e minha estratégia caiu por terra. Afinal os brindes são sempre um cacareco à mais, eu raramente uso, tenho chances plenas de encontrar amigas em outras freguesias e por fim deslocamento nenhum vale à pena em São Paulo para alguém que cuida de filhos e casa sozinha.
E eu virei vegetariana né? Não como mais enroladinho de presunto ou mini hot dog.
Mas eis que na semana passada fui convidada para um evento de uma empresa de celulares. Eu sou uma grande entusiasta de tecnologia, usuária de celulares. Muito embora eu tenha muitas críticas com relação ao seu uso desenfreado, vejo as conexões em redes sociais, possibilidade de acesso à web em tempo real e demais "regalias" dos aparelhos modernos como grandes vantagens para meu estilo de vida. Fora que o evento convidava também os meninos e o pai para passarmos todos juntos um dia no Jardim Zoológico. Pensei: ah... vai ser legal. Faz tempo que eu quero levar o Joaquim no Zoo.
E aceitei.
Havia muitos convidados com seus filhos no ponto de encontro determinado, um café bam-bam-bam onde o buffet instalado alimentava a galera na concentração para o grande passeio, enquanto algumas promotoras passavam de mesa em mesa conversando com as famílias e distribuindo envelopes. Editores de revistas renomadas para o público materno, uma ou outra carinha conhecida, mas ninguém de fato da esfera materna que eu frequento.
Foi o tempo de eu pegar um suco de laranja para o Joaquim, e percebo do que se tratava a ação da empresa de celulares, aparentemente lançando novos aparelhos e/ou precisando valorizar o impacto de seus modelos. Em crianças.
Acompanhe:
Para cada jornalista/ blogueira/ mãe existia um envelope, com um aparelho dentro. A promotora oferecia o aparelho para que a pessoa passasse o dia no Jardim Zoológico, tirando fotos, compartilhando em suas redes e demais baboseiras utilidades do celular. Tudo previsível se não fosse o fato de que para cada criança havia também um envelope, com um modelo de celular, programado com jogos, aplicativos e outras funcionalidades de acordo com a "faixa etária" do rebento.
Acompanhei estarrecida, com um nó na garganta uma promotora que apresentava para um menino que não devia ter 7 anos um aparelho determinado, mostrando onde estavam os joguinhos, onde ele podia tirar foto, onde isso e aquilo, seguido de um "se eu soubesse que você gostava do Bob Esponja eu teria colocado a foto dele no template para você..."
Os pais da criança, cada um com seu próprio aparelho na mão pareciam muito confortáveis com a situação, bem como todos os outros adultos do evento. À essa altura eu já estava na porta, com o Tomás no colo, confirmando o óbvio: havia um envelope para Joaquim, e ele seria "treinado" pela promotora a operar o treco para nosso "dia especial" no Zoológico. Para quem não sabe, Joaquim tem três anos.
Eu tenho a seguinte política com relação ao uso de telas dos meus filhos: Tomás tem acesso restrito à tudo e Joaquim pode ver um pouco de televisão com moderação rígida de conteúdo e horas, não está autorizado a usar celulares em nenhuma circunstância se não para falar com família e amigos com supervisão, e pode brincar no tablet somente junto com os adultos, em jogos musicais e de "memória", por enquanto. Para alguns pode soar bastante radical. Claro que para mim é a expressõa genuína do meu bom senso, o que eu tenho de melhor.
Fora o absurdo de se apresentar celulares para crianças com a naturalidade em que se apresentaria um cavalinho de pau, eu fiquei absolutamente perplexa com o fato de uma empresa, um departamento de marketing, uma agência de promoções e por fim um ser humano - personificado na figura da mocinha que fez contato comigo, acharem normal usar as crianças como público alvo direto de seus aparelhos. E teria ficado maluca mesmo se fossem cavalinhos de pau: não curto propaganda dirigida para crianças. Meus filhos não são consumidores, falem comigo.
Fiz o Joaquim largar o suco de laranja que estava tomando sob protestos, e com ajuda total do meu marido, que à essa altura já pedia o carro de volta ao manobrista e me dirigi à saída, onde uma das promotoras não queria me deixar partir.
- Obrigada, esse evento não está de acordo com meus valores. Não só vocês estão estimulando o uso de celulares por crianças, como mais grave ainda, estão usando-as como público alvo de sua ação de marketing. - enquanto isso eu pensava, que ingenuidade ter imaginado que a ação seria voltada somente aos adultos! O que eu tenho na cabeça? Como pude trazer meus meninos aqui?
- Mas senhora! Não é para o seu pequeno! É para o mais velho!
- O mais velho tem três anos. Ele não usa celulares e nem eu vou permitir que vocês o usem diretamente para fazer propaganda de seus aparelhos. Por favor, me deixe passar.
Enquanto eu batia boca coma a mulher que aparentemente não compreendia o porque da minha ânsia de ir embora uma fotógrafa desavisada tirava fotos minhas, como se fosse normal. Olha como são os eventos dessas grandes marcas: um show de horror. A mulher insitiu:
- O celular não é presente, você vai devolver no fim do dia.
- Eu agradeço o convite, mas não estou disposta a deixar que vocês usem meu filho para fazer propaganda dos seus aparelhos. Não acredito que crianças devam ser alvo direto de campanha publicitária e muito menos consumidores de celulares.
- Mas o celular dele está programado com joguinhos. O "kids corner", eles vão usando no ônibus....
Ela insistiu algumas vezes nesse kids corner, enquanto eu ia andando e tentando sair dali. Algumas outras promotoras insistiam para que eu pelo menos tomasse um café, felizes, genuinamente ignorantes ao fato de celulares não serem produtos adequados às crianças e MUITO MENOS ao fato de uma ação para jornalistas/ blogueiros/ mães que envolva levar seus filhos ao zoológico para serem alvo direto da divulgação desses troços não estar de acordo com nenhum valor de respeito à infância.
Na minha cabeça era como se eu tivesse os levado à uma festa e deixasse que alguém desse um pouquinho de champagne para experimentar. Só um pouquinho. Só hoje. Depois você devolve. Mas nós vamos usar sua imagem, a do seu filho para divulgar essa ação bizarra. E esperamos que você divulgue nas suas redes. Minha permanência no evento deve ter batido o recorde de 5 minutos.
Eu não faço parte desse mundo, sorry.
No carro, algumas conclusões do bom senso da minha família:
- No dia em que os meninos não souberem mais brincar com brinquedos, nós adotaremos os celulares como forma de diversão.
- No dia em que eu precisar da Nokia para fazer um dia feliz com a minha família, eu aceito participar de uma esquizofrenia dessa.
- No dia em que alguém souber de um evento para blogueiras que não seja no mínimo uma total perda de tempo e no máximo absoluta falta de valores como foi o caso desse aí, me dê um toque.
Por hora, me recuso a ser parte dessas festas sem sentido, para promover produtos dos quais eu não preciso, sem minimamente respeitar a minha inteligência.
Depois eu mandei um email para a moça. Numas de: você nunca leu meu blog?
Lição aprendida para mim.
Não tive resposta, claro. Para as empresas basta ajustar o público, e da próxima vez mandar o convite para alguém que não fique transtornada e saia ventando, com o filho protestando porque queria terminar o copo de suco de laranja.
A braveza dele não durou muito.
Acabamos a manhã na
Horta das Corujas. Quando cheguei ali senti um negócio maravilhoso, chama
liberdade. Um espaço comunitário, com bom papo e gente boa. Revirei a composteira, os meninos regaram algumas ervas. Brincaram nos montes de folhas, fingiram pescar na cacimba.
Encontrei a Cláudia Visoni e contei para ela da minha ingenuidade. Ela me alertou, além de todo o abuso que a ação representava, de estudos recentes sobre os perigos do uso de aparelhos celulares com crianças, para desenvolvimento da visão periférica.
Visão, adultos que não enxergam podem roubar o direito das crianças de desenvolverem seus próprios horizontes.
***
Falta só um último pensamento para eu encerrar esse desabafo.
A influência de grandes grupos na humanidade pode ser medida pelo tamanho de seus prédios, eu vi
naquele filme.
Antes eram as igrejas. Monumentais igrejas que detinham o poder, por quem e para quem o povo vivia. Depois vieram os castelos, os reis. O poder foi para as mãos das monarquias e suas grandes edificações eram símbolos de quem mandava no mundo. E de quem obedecia. Hoje são as corporações. Seus prédios são maiores do que qualquer igreja. Seus conglomerados colocam qualquer castelo no chinelo. E seus súditos permanecem os mesmos... aqueles que querem sentir-se importantes, por terem sido convidados à festa na corte.