Venho por meio desta informar que quase dois anos depois de ter decidido de uma vez por todas que eu não contaria com serviço doméstico terceirizado para cuidar da minha casa, meu grande planou naufragou e imergiu dezenas de vezes!
Foi mais ou menos assim: eu pirei o cabeção lá pelo segundo semestre de gestação do Tomás, e na mesma semana mandei a empregada embora, tirei o Joaquim da escolinha que ele frequentava e pedi demissão do emprego. Dois anos se passaram e eu arrumei outros (muitos outros) empregos, continuo sem empregada e os meninos agora frequentam juntos uma recreação três vezes por semana.
Lá pelo final da gravidez, barriguda demais para passar pano, resolvi chamar uma faxineira, que ficou conosco até há pouco. Agora, totalmente emagrecida e com três manhãs muito livres, tenho ainda uma faxineira que vem para tirar o grosso, mas somente à cada quinzena.
Nesses dois anos já fui de: vou contratar todo o tipo de serviço terceirizado possível e nunca mais colocar a mão numa bucha até vou fazer a reforma do quintal sozinha, afinal de contas se eu sei fazer faxina eu devo saber também fazer reforma. Como vocês sabem, eu sou uma pessoa de polos.
O interessante é que não. Definitivamente ter alguém trabalhando dentro da minha casa não é o formato de vida que me interessa. Por mais que todo o trampo doméstico seja mala e interminável eu tenho uma sensação de liberdade, mesmo quando estou querendo jogar lixo pela janela.
Outro dia me perguntaram: mas porque você não tem uma empregada? Ah. Eu nem sei dar essa resposta, são muitos, muitos motivos. Acabei dizendo: porque eu gosto de andar pelada pela casa.
No dia a dia o que eu aprendi nos últimos dois anos, e ainda estou aprendendo resume-se a:
- a família inteira é responsável pela casa. aqui não tem divisão de gêneros para tarefa doméstica e as crianças se envolvem nas coisas que tem habilidade para fazer, como por exemplo colocar seus brinquedos nos baldes que usamos para guardá-los. ou colocar sua roupa suja no cesto. coisa simples, mas que ajuda.
- mulher e marido atuam em revezamento. estamos sempre ligados para alguma tarefa pendente, e é interessante reparar como normalmente foi o outro que começou. parece que o serviço se dilui desse jeito e estamos sempre ajudando um ao outro. eu lavo, ele estende, eu dobro, ele guarda, eu uso, ele lava, eu estendo, ele dobra... e assim vai.
- fácil? não é. mas está bem longe de ser impossível. a regra determinante foi que ao longo desses dois anos eu revi muitas e muitas expectativas e padrões que eu tinha com limpeza, organização e coisas do tipo. é natural que a gente repita comportamentos de outras épocas. tomamos um tempo para avaliar exatamente oq ue nos cabia, o que nos faz falta e o que não faz. nessa, passar roupa morreu. morreu e todo mundo aqui em casa segue vivendo, impressionante.
- adotamos algumas regras bem rígidas, uma delas é a lei do não acúmulo. nada, nada, nada, quando se trata de serviço doméstico pode acumular. e não acumula. assim, em casa todo dia lava-se roupa, varre-se um ou outro canto da casa, recolhe-se o lixo. são micro tarefas diárias que ocupam minutos entre esperar o computador reiniciar e a água do café ferver.
- perfeito? não mesmo. às vezes deixamos escapar algumas coisas, às vezes nos cansamos. mas tem também uma regra que é: só faça aquilo que você quiser fazer. da vontade genuína de transformar o seu ambiente num lugar maravilhoso. ou da vontade genuína de ver aquele móvel limpo. ou da vontade genuína de ter roupas para usar. é uma forma diferente de encarar o serviço doméstico, não como uma obrigação, mas como parte da vida. e assim o honramos.
- com isso, estou aprendendo muitas coisas. desde o começo reaproveitamos água de lavar roupa para lavar chão. reaproveitamos água do banho para dar descarga, e coisas assim. não conseguimos fazer disso ainda uma regra sistemática - eu sonho com uma casa arquitetada para fazer essas coisas automaticamente, que porcaria de mentalidade de uso mentecapto de recursos que vivemos né? como podem até hoje em dia as casas serem construídas para o desperdício?
- o vegetarianismo nos trouxe uma cozinha mais limpa, mais simples e na mesma medida mais saborosa, porque nosso paladar vai se aprimorando para sentir as mínimas diferenças entre os alimentos. o baixo consumo de industrializados nos fez esse favor. uma cenoura com salsinha e sal pode ser o prato principal, e é até estranho eu estar falando isso, porque eu era a rainha do "não como se não tiver cocacola". não consigo me imaginar tomando um refri hoje. é aquilo, rever os paradigmas para criar uma nova realidade, isso impactou diretamente no serviço de casa.
![]() |
| Virei vegetariana porque amo os animais? Não. Porque é mais fácil cozinhar legume. Ho. |
- há dois anos eu era uma pessoa projetada para ter alguém trabalhando para mim. cuidando da minha casa, enquanto eu fazia outras coisas, entre elas, certamente trabalhar. havia um cenário projetado, para que eu entrasse em casa depois das 18h tendo vivenciado outras experiências durante o dia, mas nenhuma delas relacionadas à casa ou aos filhos. hoje eu estou estudando formas de adequar todas essas rotinas, desejos. todas essas personagens. está ficando cada vez mais claro, muito embora seja parte de um processo recheado de esforço.
sabe? eu tenho uma COACH (babem!). e ontem estávamos conversando sobre como nós mulheres olhamos para as roupas de nossas avós: os vestidos de golinha engomada, das mulheres que dedicaram a vida a casa e à família. não queremos vestir essa roupa. depois olhamos para as roupas de nossas mães, terninhos de trabalho, com sapatos lustrados, que para muita de nós se transformavam em avental de cozinha à partir das 18h, quando nossas mães começavam a segunda jornada. não queremos vestir isso também. não nos serve.
estou aqui tentando costurar a roupa que eu quero vestir.
***
me deu vontade de voltar ao trololó perceberam?
tenho um monte de coisa para contar. sobre meus novos projetos, o vegetarianismo, as crises com colocar as crianças na recreação, meu interesse repente por comunicação não violenta e minha queda por história de inglaterra tudor. os mil passeios que fizemos no #umacoisanovaporsemana e que ainda não consegui postar. mas por hoje chega! e vocês, como vão?









