04/06/12
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COMO AMAR DOIS FILHOS

Me disseram uma vez que não se é casada até se ter filhos e não se é mãe até se ter o segundo...

***

Acho que toda mulher quando se vê sequer pensando na possibilidade de ter um segundo filho dá uma tremidinha. Porque é muita responsabilidade, porque nem sei cuidar de um, porque a grana pode ser curta, porque o trabalho é dobrado, porque logo agora que eu emagreci, porque será que eu vou amar um segundo filho tanto quanto eu amo esse aqui?

Não vou dizer que essa foi uma grande preocupação para mim, tanto quanto uma curiosidade. Eu sabia que - sendo um filho meu - seria amado e não me importava muito com as condições e quantidades desse amor. Mas confeso que eu estive um bom tempo curiosa para entender como eu me transformaria em mãe, desta vez em definitivo, de um segundo filho.

É pura diversão.

Acabei descobrindo algumas coisas que só a presença de dois rebentos me possibilitou perceber. A gente ama os filhos absolutamente diferente. É como se eu pudesse nomear os amores enquanto eu os sino: esse é o amor do Tomás, esse é o amor do Joaquim, e eles são diferentes como água e vinho cada um com suas peculiaridades.

Joaquim é um amor inteligente, Tomás é pura emoção.
Não as pessoas, os amores.

Digo assim por que foi assim que senti: eu fui criada com uma irmã em uma filosofia de família onde não se faz "diferença". O que uma tinha, outra tinha também, e é uma prática que minha mãe arrasta até hoje. 
Longe de mim questionar minha mãe, mas os meus dois amores estão me fazendo exercitar o contrário. Nada de ser iguais, eu amo os meninos diferente, e não haveria como não ser assim.

As frases clássicas das mães: o amor não se divide, e sim se multiplica, coração de mãe sempre cabe mais um e demais cafonices dos comerciais de margarina (ou carros, a nova margarina) são absolutamente verdade. Mas não era meu interesse comprovar essa teoria. Era meu interesse vivê-la.

Ama-se sim o segundo como se ama o primeiro. Tem dia que ama-se mais. Tem dia que é menos. 
Ama-se como se ama, mas ama diferente.

31/05/12
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NUNCA FUI MÃE, SEMPRE FUI MÃE BLOGUEIRA

Uma amiga me disse: mãe já é um povo difícil de agradar... mãe blogueira.... pffffff

Não sei o que é ser uma mãe, sem ser uma mãe blogueira.

Veja bem nem acho que existe qualquer critério qualitativo aos exercícios maternos dessas duas espécies, antes que as mães não blogueiras venham me atirar ovos virtuais sofrendo da epidemia de menos-mãe que assola qualquer comparação da esfera da maternidade.

Mas é impossível para mim não pensar: como eu seria se eu não blogasse? Sei lá.

Primeiro que acho que a mãe (chamemos de tipo A, a mãe não blogueira, e tipo B a mãe blogueira, para evitar qualquer possibilidade de leitura errônea das minhas linhas tortas, escritas num repente de adrenalina profunda, motivada por um ataque de stress, por excesso de pensamentos) a mãe tipo A deve ser uma pessoa que, quando o filho dorme, ela dorme. E não escreve posts mentais sobre o fato de o filho estar dormindo.

A mãe tipo A, quando tem uma crise, liga para as amigas. E não pensa em uma forma de compartilhar sua experiência com seus leitores à título de curiosidade empírica.

A mãe tipo A não é atacada pelo bicho da militância, ainda que existam muitas mães do tipo B que também não o sejam. Mas no fundo, no fundo dentro de toda blogueira existe uma militante. Porque blogar é expor opinião, e se pá, convencer alguém. Confesso, gosto quando minha opinião vale alguma coisa.

Mas nessa vida de mãe tipo B, nem tudo, nem tudo são flores. Os pensamentos, a mania de refletir sobre tudo, de selecionar opiniões importantes, observar cuidadosamente as coisas que valem à pena, que são sinceras, que cabem, que não cabem, me transformou em um ser pensante, 24h por dia 7 dias por semana.


Gente, eu penso sem parar nas questões da maternidade, é um ritmo alucinante. Não só penso nelas, como transformo tudo em uma grande discussão filosófica dentro da minha cabeça, em viagens acordada que só eu mesmo consigo entender. Os meninos brincam de se enforcar no fio do computador no tapete, e eu estou militando mentalmente. Minhas opiniões importam, as opiniões dos outros importam.

Nesse universo que combina minha imaginação, a web e o mundo real, tudo é possível e estranhamente inviável. Eu escrevo aqui coisas que acredito, me convenço delas. As linhas saem, os pensamentos são claros. Daí eu encontro uma mãe tipo A, que não enxerga por exemplo, problema de a escola da filha contratar o Patati Patatá para fazer um show na escola e mandar na mochila um CD para a família comprar.

Na minha imaginação, eu vejo os guardas do castelo cercando a escola, colocando os palhaços na forca enquanto mulheres elfas inteligentes julgam os diretores por crime tamanho. Na web eu vejo gente se juntando, militando, blogando coletivamente, fazendo selinho cafona para ser compartilhado no facebook,  gerando zum zum zum.

E na vida real sou só eu, e a mãe tipo A nos olhando. Sem muita possibilidade de diálogo. Porque nem falamos mais a mesma língua. E se eu quiser conversar com ela vou ter que falar a língua dos blogs de moda. Sem ofensa nenhuma, não há nada errado em conversar sobre bolsas.

Só não dá para falar sempre sobre bolsas e esquecer que a escola da sua filha está usando o raio do palhaço medonho que é o cúmulo da porcaria para preencher espaço de cultura, e de quebra fazendo publicidade dentro de instituição de ensino.

Eu me dou algumas semanas para pegar essa minha energia toda e sair arrumando mais sarna para me coçar.



29/05/12
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3 ANEDOTAS DO MEU FIM DE SEMANA

Joaquim mamando na recepção do hotel, uma senhora (do modelo raridade) passa e diz:

- Que coisa mais linda, garotinho!! Quanto amor! Agradeça a sua mãe por ela te dar esse carinho até hoje!
- Obigada.
- Aaai!! Que lindo! Como fala! Quantos anos você tem?
- Doix.
- Como você chama?
- Eu sou o Caillou.

***

Joaquim causando no botão do ventilador do quarto do hotel, depois de eu ter pedido 498 vezes para ele parar, eu faço minha última tentativa:
- Pedro, me ajuda? Você tem que dar limiti para esse menino!
- (lágrimas de crocodilo e ceninha digna da novela Malhação) Nããão! Não dá limite pá mim, papai!! Não dá limite pá mim!!


***

Joaquim sendo um fofo em algum momento. Eu digo, travando os dentes de tanto amor:
- Paixão!!
- Caixão de "Pefunto"?

23/05/12
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HUMANIZADO O CACETE

Outro dia vi no Facebook um anúncio da maternidade onde o Joaquim nasceu. Ele dizia que o hospital era pioneiro em atendimento humanizado.

Rapidinho, dei um print na tela e postei a imagem na fanpage do Super Duper. E fiquei depois pensando: que cara de pau, se dizer humanizado.

O hospital que o Joaquim nasceu é bastante conhecido aqui em São Paulo. Não tenho nada do que reclamar do hospital em si. Limpo, moderno, equipes atenciosas. Uma maternidade, provavelmente de ponta mesmo. Sei lá.

Mas não me canso de vontade de meter a boca no senso comum: quem falou que esse jeito de nascer é humanizado? Pode ser humanizado para um e não ser humanizado para outro? Isso é uma  questão individual, ou nós todas, como partes do mesmo reino, filo, classe, ordem, espécie e gênero deveríamos atingir um consenso dentro do que pode e o que não pode acontecer no  momento de um nascimento?

Para algumas pessoas, não é nada humanizado separar os filhos recém nascidos das mães e colocá-las na espera por algumas horas à conveniência das equipes do hospital. Pelo contrário, isso é um ato desumano.
O bebê sai da barriga da mãe, e vai urgente para um berço aquecido, para não perder temperatura. O que é mais humano, uma máquina que gera calor ou o colo da mulher que o gerou e o pariu? (no caso dessa maternidade, somente se ela estiver entre os 7%, vale ressaltar) 

O que me espanta é que muita gente ainda acha que sim, esse atendimento é humano. A maternidade não tem nem vergonha em se anunciar pioneira nesse tipo de atendimento. Uma palestrante que acompanhei dia desses me disse que o melhor seria um "meio termo entre o parto natural e a cesárea tecnocrata - uma cesárea em trabalho de parto com luzes diminuídas e a possibilidade de o bebê mamar antes de ser levado para o berçário seria o cenário ideal, um ponto de equilíbrio."

Quase caí de costas. Como mães, como humanas, não estamos nos conformando com absurdos demais? Ou com migalhas?

***

Hoje Joaquim viu uma foto do dia do seu nascimento. Na foto, vê-se o bebê enroladinho, com aquele bico que eu nunca vou esquecer, lindo de morrer, nas mãos da enfermeira, que o mostrava como um troféu para a família do lado de fora do vidro. Ao fundinho, dá para me ver, meu rosto, de touca cirúrgica, provavelmente ainda me costuravam. Era um rosto emocionado, olhando para ele, longe dele sem poder pegá-lo.

Ele fitou aquela imagem e disse: 
- Quem é esse nenê?
- É você, no dia que você nasceu!
- Quem é esse moço? O que ele está fazendo comigo?

Vocês não acreditam na quantidade de coisas que passam pela minha cabeça e pelo meu coração.
Acordem. Não há nada de humano nesse jeito de nascer.

21/05/12
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HISTÓRIAS QUE SE REPETEM

É inevitável olhar para um filho e ver-se nele. 

Deve ser assim para todas as condições da maternidade, ainda que em muitos casos mães e filhos não carreguem os mesmo genes, ou em casos como o meu, mãe e filho tenham sido somente proprietário e inquilino, tamanha a quantidade de genes do pai que ele carrega.

Já ouvira a expressão alugou a barriga? Então, ouço isso aí trezentas mil vezes por semana, por que de mim, fisicamente o meu filho tem é nada. É a cara do pai mesmo.

Mas só que a natureza é justa e contra ela não há argumentos, que me deu um segundinho que é minha cópia, e de quebra botou no maior todos os traços da minha personalidade estragada. Genioso, respondão, sabido, teimoso, indomável. Isso tudo para não dizer uma peste.

Minha mãe me conta, que tão logo eu aprendia a falar e andar sozinha, nunca mais ela conseguiu segurar minha mão sem protestos. Uma história clássica da minha infância é:

- Anne, dá a mão para a gente atravessar a rua.
- Eu dou a mão para mim mesma - assinado, pessoa com 2 anos.

Pequenas anedotinhas como essa foram delineando aquilo que eu sou ou as coisas que eu acreditei ser ao longo da vida. Eu amo as histórias que a minha mãe conta da minha infância e parece que não inventaram nada mais poético do que ver essas histórias revisitadas pela atuação dos filhos, muitos anos depois das ceninhas acontecidas nos idos dos anos 80, com roupas de listras e bolas, congas nos pés e costeletas nos cabelos, mesmo das meninas.

Outro dia minha mãe fez a mesma coisa:

- Joaquim, dá a mão para a gente atravessar a rua.
- Não picizo, Eliana (já falei? ele chama todo mundo pelo nome próprio)
- Como assim Joaquim, dá a mão. É perigoso.
- Deixa Eliana, eu dou a mão prá mim mesmo.



16/05/12
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MAIS MÃE, MENOS MÃE E DEMAIS PATAQUADAS

A capa da revista Time dessa semana reacendeu uma polêmica tola que nunca se apagou: o deboche insano contra mulheres que optam por amamentar seus filhos prolongadamente. Ainda não li a matéria, mas o título: "Você é mãe o suficiente"- deixa claro que de alguma forma existe espaço na cobertura jornalística da revista para enfatizar que, se por um lado mulheres que amamentam seus filhos prolongadamente são muito mães, por outro aquelas que não o fazem não seriam mães o suficiente, de acordo com... com.... quem mesmo?

Quem falou isso aí?


***

Na revista Veja São Paulo desta semana, onde o Super Duper, me, myself e meus filhos, fomos citados ao lado de um monte de gente bacana, como exemplos de blogs maternos paulistanos, um trecho da minha própria entrevista chamou minha atenção: (sic) “Apesar da mudança de planos, foi a melhor experiência da minha vida”, lembra. “Eu me senti mais mãe e mais mulher.”

Foram algumas horas de conversa com a repórter e algumas ligações confirmando dados depois. De fato, essas palavras saíram da minha boca. Logo eu, que não acredito nessa pataquada de mais mãe, menos mãe.  Porque eu teria dito isso, e porque mais ainda, de tudo que a repórter me perguntou, foi essa vertente da minha personalidade que ficou bacana de expor na revista: a maternidade apegada?

Acabei concluindo. Não acredito em mais mãe - menos mãe quando são mães diferentes. Mas a mesma pessoa pode ser mais ou menos mãe. E isso é mais do que normal. E eu vivo de tentar me sentir confortável, qualquer que seja o momento - "agora estou mais mãe, agora estou menos mãe"...

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Estivemos em um evento e de trolóló com uma amiga querida estávamos falando do embate que existe entre as mães. Parece que estão sempre divididas em times. As que tem blog expõe os filhos, enquanto as que não tem não conseguem tanto conhecimento para criá-los no mundo de hoje. As que amamentam prolongadamente criam crianças problemáticas, enquanto as que não o fazem criam crianças problemáticas. As que param de trabalhar para cuidar dos filhos se anulam e viram parias da sociedade, enquanto as que optam por tocar a carreira são capitalistas sem valores humanos. Aquelas que optam por alimentação natural só fazem isso para diminuir as outras, que são inconsequentes que querem o verdadeiro mal gastronômico dos filhos.

O tempo todo, a esfera materna está dividida em um grupo que faz merda e outro que faz pior.

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Sim, eu fui mais mãe parindo Tomás do que trazendo Joaquim à luz. Porque no primeiro cenário eu usava os recursos maternos, a mim concedidos pela natureza. Minhas forças, meu ventre, minha coragem (ou falta de) e minha feminilidade. No segundo cenário, muitos destes recursos não foram sequer utilizados. Nada implica em sentimento, de forma nenhuma as vias do nascimento (ou qualquer outra experiência materna) são avaliadas nessa minha reflexão como condições para o amor que sentimos pelos filhos. Mas acabei concluindo assim, que sim, eu fui mais mãe e mais mulher através de um parto do que de uma cirurgia. E como já disse, nascimento e parto são coisas diferentes.

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Minha amiga dizia que a mulher que opta por permanecer no mercado de trabalho, conta com mão de obra terceirizada, seja babá, seja escola, seja avó, é uma grande vítima de julgamentos externos. Essa mulher teoricamente já se sentiria culpada o suficiente, por não poder (ou optar por não) priorizar os filhos, e a sociedade de um modo geral a vê como uma mãe relapsa. Ela não se importa que seus filhos estejam sendo criados por qualquer outra pessoa e/ou serviço que não ela. Ela colocou os filhos no mundo e não quer ter responsabilidade por eles. Ela não quer ser mãe, ela prefere ser mulher.

Eu pensava no outro lado da moeda, a mãe que por qualquer outro motivo opta pelo contrário. Larga carreira, dedica-se, doa-se, amamenta até cair os peitos nos joelhos e serve de capa para revistas de circulação mundial, levantando a bandeira do "anule-se, vire chacota". Essa daí é igualmente criticada, vista como uma aberração da natureza, uma afronta a todas aquelas que não quiseram (ou não puderam) optar por maternidade integral. Essa mulher é um desserviço. Essa mulher só quer fazer as outras se sentirem piores. Ela não tem lugar na sociedade, ela não tem lugar no mercado de trabalho. Ela pegou séculos de trabalhos feministas e jogou na latrina. E de mais a mais, ela nem é mulher, ela vai perder o marido, ela é só mãe.

***

Eu enxergo ainda um preconceito (vide a capa da Time) contra a mãe, um preconceito maior do que carrega a mulher. Minha amiga vê o preconceito contra a mulher muito mais relevante e reincidente, baseado na especulação da culpa por não ser uma "boa mãe".

O que você acha? Vale à pena que mulheres e mães estejam sempre em desacordo?

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There ain't no wrong or right but i'm  sure there's good and bad.
Eddie Vedder

15/05/12
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O CAUSO DOS ADESIVOS

Ouvira de uma bela mãe, com os cabelos escuros como a noite, os olhos azuis como o mar e a pele alva como a neve uma bela história de desmame natural. A filha, pronta para se desligar do seio da mãe, recebeu uma ajudazinha com uma tática tão poética quanto pedagógica: estrelinhas adesivas que brilham no escuro. A cada noite, a mãe colava uma estrelinha no quarto da criança e contava para ela que aquela estrela representava um marco importante de sua vida. O dia que nasceu, a primeira mamada, quando comeu pela primeira vez. Ia adicionando estrelinhas, até que chegou o dia de colar aquela que representava a última mamada - uma grande estrela brilhante e maior que todas. A criança a princípio disse que não queria colar aquela. Mas no colo da mãe mamou longamente a última mamada. Deu um beijo no seio e compreendeu que agora, assim como a estrela, ela era grande. E a história se encerrou assim.

Sentia que um dia, cedo ou tarde alguma história de desmame seria sua também. Mas independente disso, gostou mesmo da estratégia dos adesivos. E resolveu aplicar em casa a poesia em forma de figurinha auto colante. Como a grande crise naquele lar sempre foi a mesma: a hora do sono, era ali mesmo que os adesivos comprados, assim como pela bela mãe, sem nenhuma outra intenção meses antes iam servir para alguma coisa. Não tão simbólicos como estrelas, também não deixavam de ser interessantes as bolotas, frutas e florezinhas.

O plano era simples: para cada etapa do dia da criança a mãe colou um adesivo na parede. Por algumas noites repetiu em tom sereno o que cada uma das formas representava. Sentia-se segura em suas práticas maternas, enquanto ignorava veementemente o fato de o menino estar cagando para seus adesivinhos. Era uma questão de tempo para que ele compreendesse suas verdadeiras intenções: explicar que aquela hora era a hora de dormir e fim de papo.

- Então meu filho, essa é a hora que o Joaquim acorda (apontava para o primeiro adesivo). Depois, o Joaquim gosta de brincar (dedinho no adesivo seguinte), então é hora do almoço (apontava para o único bentido que tinha alguma relação do cu cas calça, uma fatia de melancia) e ia assim por diante, mãe empoderada praticante da educação por apego.

Nunca deixou o bebê chorando. Nunca hahahaha reclamou de ficar noites e noites em claro amamentando. Cuidou do cardápio da criança como quem alimenta um pequeno rei orgânico, e brigou com hordas de familiares loucos para agradar o pequeno com um docinho ou uma fritura. Um verdadeiro exemplo de abnegação, paciência e facilidade inegável de rir de si própria. Esforços recompensados pelo dia em que finalmente os adesivos surtiram algum efeito. Deveras, não o esperado:

- E então - falava como falaria uma princesa de um reino distante - o Joaquim acorda cedinho e gosta de...
- Fazê cocô!

Ignorando profundamente a falta de sensibilidade ou excesso de malandragem da cria prosseguiu. 

- Aí chega a hora de brincar, do que você gosta de brincar meu amor?
- De soltar pum!

Respira fundo, e um pensamento lhe cruza a mente "Why me?"

- Aham, muito legal. Na hora do almoço, a gente prepara uma comidinha deliciosa. Qual é seu prato preferido meu amor? (Brócoli? Feijão? Ricota? Pensou a pobre mente)
- Batata Frita.
- Oi? Você nem sabe o que é batata frita.
- E água frita.
- Quem te deu batata frita?
- Prrrrrrrrr (altos sons de puns com a boca)

Conta até 124 e retoma:

- Então, depois do almoço, vem a sonequinha. Você gosta de dormir à tarde?
- Não.
- E daí você acorda e brinca de novo. Qual a a sua brincadeira favorita?
- Cuspi na mamãe.
- Isso não é brincadeira, a gente só pode cuspir na pia, né? Na hora de escovar os dentes, né?
- E na mamãe. Brrrrr (altas bolas de baba)
- Para com isso, que porqueira!
- Brrrrrrr... Prrrrrrrrr.... Plllllrrrrrrrrr
- Filho, para, ta na hora de dormir, vamos fechar o olhinho?
- Não.
- Mamãe canta para você!
- Não canta!
- Porque?
- Por que é feio.
- Shhhh...tsc tsc tsc (tapinhas no bum bum)
- Aaaaaa - balata diz que tem... rá rá rá (muito alto, quase dançando)
- Vamos ficar deitadinho?
- Não.

Olha para o filho. Olha para os adesivos. O menor começa a chorar, muito possivelmnete de medo da balata. O menino pede para ir ver, fica animadão. Na hora de levantar derruba o suco na cama. Começa a chorar também. Ela acende a luz para trocar os lençóis. Não tem lençol limpo. O menor esgoela. Ela pega o menor num braço, o maior no outro e liga a televisão no quarto do casal e deixa todos os menores de idade assistirem Oi Oi Oi!!!

Fim.




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